Cultura

Sun Yat-sen: Um homem caleidoscópio

Primeiro presidente (provisório) da República da China – cumpriram-se este ano 110 anos – o Dr. Sen foi uma figura de mil nomes e mil ideias. Responsável maior pela queda da dinastia Qing, percebeu a certa altura que só através das armas poderia governar no país dos senhores da guerra.

DR  


Sun Deming foi um filho serôdio. Quando veio ao mundo, no dia 12 de Novembro de 1866, Madame Yang, sua mãe, já tinha cumprido os 39 anos. Passou a infância a mudar de nomes. Primeiro começou a ser tratado por Tai Tseung; depois o seu professor na escola primária deu-lhe a designação que ele sempre preferiu durante toda a vida, Sun Wen; na China gostam de atribuir nomes de cortesia, e esse era Zaizhi; depois, quando prosseguiu os estudos em Hong-Kong, passou a ser conhecido como Yat-sen (Sūn Zhōngshān, no seu cantonês natal); durante o seu exílio no Japão, escondia-se sob o pseudónimo de Tōten Miyazaki. A História, no entanto, canonizou-o sob o nome de Sun Yat-sen.
Sun Dacheng, seu pai, era homem de parcos recursos, que trabalhou como alfaiate em Macau e o filho, mal terminou os estudos primários, mudou-se para Honolulu, no Havaí, onde ficou sob a custódia do irmão mais velho, Sun Mei, um tipo que se dera bem na vida e conseguira fugir à deprimente pobreza da família. E a isto se poderia ter resumido a existência daquele a quem muitos ainda chamam o Pai da Nação, o primeiro presidente provisório da República Chinesa e primeiro chefe do Kuomintang, o Partido Nacional da China. Ainda hoje marca a diferença em relação a todos os líderes políticos chineses ao ser profundamente considerado tanto na chamada China Continental, ou República Popular da China, como na simplesmente República da China, dita Taiwan, a ilha a que os portugueses deram o nome de Formosa.

Quando falamos de Sun Yat-sen, falamos de uma das mais complexas personalidades da China moderna, ou melhor, da China à qual ele ensinou o caminho da modernidade, tirando-a do estado medieval em que vivia durante o tempo da última dinastia de imperadores, a dinastia Qing. Durante o tempo em que viveu com o irmão em Honululu, Sen dedicou-se com uma paixão inabalável ao estudo de tudo o que pôde: língua inglesa, História da Inglaterra, matemática, ciências e História do Cristianismo. E por ter ganho um entusiasmo desusado pela tentativa de compreensão da mentalidade cristã, foi devolvido por Sun Mei à China, aos 17 anos, por estar a desenvolver uma excessiva tentação católica, algo que não ficava bem ao filho de nenhuma família chinesa, por mais remendada que fosse.

Sun Yat-sen nunca percebeu a adoração que os seus compatriotas devotavam ao Beiji, o Pólo Norte, ou seja ao Deus-Imperador que proliferava nos templos e vivia em Pequim, separado do mundo pelos muros da Cidade Proibida. Ao pô-la em causa, desenvolveu um espírito revolucionário cuja primeira manifestação se deu no momento em que destruiu a estátua de Beiji do templo da aldeia de Cuiheng, juntamente com Lu Haodong, um amigo que fizera no Havaí. A raiva da populaça foi terrível. Os rapazes foram obrigados a fugir para Hong-Kong onde a formação religiosa de Sen se aprofundou com a frequência da Casa e Orfanato Diocesano. Em 1886, as coisas estavam mais calmas em casa, e o rapaz instalou-se na cidade de Guangzhou (apelidada de Cantão pelos portugueses) onde estudou medicina no Hospital de Boji sob a orientação do missionário cristão John Glasgow Kerr, um norte-americano que chegara uns anos antes e contribuíra decisivamente para o erguer daquela instituição. Dois anos mais tarde, regressou a Hong-Kong para se fazer médico no Hong Kong College of Medicine for Chinese, tendo concluído em 1892 o curso de medicina ocidental, conhecida na altura na China por medicina cristã, utilizando métodos bem diferenciados dos tradicionais métodos chineses. Era, definitivamente, um homem do futuro. Preso num país que tinha uma profunda dificuldade em distanciar-se do passado. E ganhara, com o tempo, a sensação de que a evolução do país poderia passar por ele e por um grupo de jovens chineses ocidentalizados capazes de retirar o país da submissão às práticas absurdas de um império decadente. O dr. Sun Yat-sen iria, nos anos que se seguiram, combater sem piedade a instituição dinástica dos Qing.

Chamaram-lhes os Bandidos

Homem de imaginação criativa, Sen procurou inicialmente uma abordagem direta. Escreveu uma longa missiva a Li Hongzhang, Governador-Geral do Império, solicitando uma série de medidas a pôr em prática no imediato e que contribuíssem para a modernização de um país arreigadamente rural. Viajou para Tianjin, na tentativa de a entregar pessoalmente a Li, mas nem sequer lhe foi concedida uma audiência. Era demasiado desconhecido para bater a portas de tamanha grandeza. Mas a recusa duplicou-lhe a pertinácia.

Em Hong-Kong, Sun, Yeung Hok-ling, Chan Siu-bak, Yau Lit, e Guan Jingliang, todos ex-alunos do Hong Kong College of Medicine for Chinese, criaram um grupo de pensadores revolucionários que não tardou em ser conhecido por Os Quatro Bandidos. A porta fechada do Governador Li encasinou, e muito, a personalidade de Sen. Tomou a decisão drástica de dedicar o resto da sua vida ao advento da República na China, um país gigantesco que tinha mais de dois mil anos de poder imperial. Uma tarefa homérica que o fez regressar a Honolulu e fundar a China Revive Society, recrutando sobretudo expatriados chineses das classes mais baixas, ao mesmo que o resto do seu grupo criava em Hong-Kong a Furen Literary Society, mais tarde renomeada Kuen Hang Club, cujas atividades subversivas eram encapotadas por reuniões intelectuais e por movimentações negociais em diversas áreas. 

A derrota chinesa de 1895 na primeira guerra sino-japonesa, tratou de extremar posições internas. Por um lado, havia a convicção de que estavam criadas condições para que a dinastia Qing se fortalecesse, evoluísse, e se apresentasse como a fundamental representação do povo chinês perante a comunidade internacional. Por outro, um grupo de intelectuais imperialistas comandados por Kang Youwei e Liang Qichao apresentaram um documento intitulado Reforma dos Cem Dias, com ideias concretas sobre o que haveria a fazer nos campos da educação e das reformas culturais. Finalmente, Sun Yat-sen recusava-se a qualquer tipo de entendimento com o poder estabelecido e exigia a extinção da dinastia imperial e o estabelecimento de uma República cujo presidente deveria ser escolhido através do votos do povo chinês. As posições extremavam-se.

No dia 26 de Outubro de 1895, a primeira revolta de Guangzhou teve lugar, comandada desde de Hong-Kong por Yeung Ku-wan, fundador da Furen Literary Society. Um desastre completo. Mal preparado, mal chefiado, o movimento foi de imediato frustrado pela intervenção do Exército Imperial. Sun Yat sen exilou-se no Japão, muitos dos cabecilhas foram presos, a sua família teve de fugir para o Havaí ao encontro do irmão. Cinco anos depois, Sun idealizou a revolta de Huizhou, na tentativa de derrubar os membros da autoridade provincial da província de Guangdong. Outro desastre, apesar de ter obtido o apoio das tríades, grupos transnacionais de crime organizado. Sun Yat-sen parecia destinado a um exílio perpétuo. Não apenas noJapão, mas também nos Estados Unidos e no Canadá. Continuava a tentar obter apoios económicos para novas amotinações mas chegou a ser preso em Londres por membros da Delegação Chinesa que tinham ordens para repatriá-lo. Durante doze dias, o fantasma da execução pairou sobre ele. Só a fortíssima contestação do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico e o apoio total da imprensa inglesa forçaram à sua libertação. A vida de Sun estava cada vez mais no fio da navalha.

Pelo caminho, a reativação de uma organização secular, a Tiandihui (Sociedade do Coração e da Mente), conhecida igualmente por Hongmen (AGrande Família), começou a reunir uma série de seitas e de tríades debaixo do mesmo teto ideológico de que se tornava urgente derrubar a dinastia Qing. Em 1905, Sun atingiu o objetivo de controlar a Tiandihui sob o repto de expulsar definitivamente da China os imperadores manchus (Qing) e apresentando um documento de desígnio nacional intitulado Três Princípios Para o Povo, nacionalismo (minzu), democracia (minquan) e prosperidade (minsheng). Nessa altura, já todo o mundo sabia quem era Sun Yat-sen. E o seu movimento revolucionário recebia apoio das mais diversas origens, havendo na consciência coletiva universal que a manutenção de uma China milenarmente rural não passava de um anacronismo histórico.

Dias difíceis

No dia 1 de Dezembro de 1907, Sun sofreu mais um revés quando a revolta de Zhennanguan abortou ao fim de uma semana de combates. Seguiram-se outras derrotas, em Huizhou, Qingzhou e Hekou. Perante o acumular de frustrações, a liderança de Sun Yat-sen começou a ser posta em causa. Os revolucionários dividiram-se em dois blocos, os que o apoiavam e os que queriam destituí-lo de cabecilha da revolução.

De repente, a queda da dinastia Qing transformava-se, igualmente, num caso de finanças. Não restavam dúvidas que seria necessária uma grande quantidade de dinheiro para levar a cabo uma amotinação nacional que duraria muito tempo até que se reconhecesse um vencedor. Sun andava de governo em governo de mão estendida, mas a verdade é que recolheu um bom punhado de dólares. No dia 27 de Abril de 1911, o Império sofria o seu primeiro formidável abalo quando, novamente em Gouanghzou, Huang Xing liderou uma frente de batalha conhecida pela revolta da Foz do Rio Amarelo. Apesar de rechaçada, Huang Xing voltou a atacar, desta vez em Wuchang. Estávamos em Outubro e, pela primeira vez, o Exército Imperial dava parte de fraco. Exilado nos Estados Unidos, Sun sentiu necessidade de surgir rapidamente no palco dos acontecimentos. Numa viagem de navio com escala em Londres procurou obter apoio financeiro do Reino Unido para a revolução em curso. Debalde. Entretanto, a China pegara em armas e por toda a parte os cadáveres amontoavam-se nos campos de batalha. No dia 21 de Dezembro, Sun estava de novo em solo chinês. Não deixaria que ninguém lhe usurpasse o lugar de mentor da que ficou conhecida como Revolução Chinesa de 1911, que este ano comemorou o seu 110º aniversário. 

Com a queda do imperador Puiy, Sun Yat-sen assumiu o cargo de primeiro presidente provisório da República da China. O dia 1 de Janeiro de 1912 tornou-se oficialmente o dia inaugural da República. Sun fazia tenções de cumprir a promessa de deixar a presidência mal estivessem estabelecidas condições que permitissem um ato eleitoral democrático. Ao mesmo tempo que o governo provisório tomava posse, iniciava-se a criação da Constituição da República Chinesa. Alterava-se o calendário, rapavam-se as tradicionais longas tranças, adotava-se o zongshang (nome baseado no do próprio Sun em cantonês), uma camisa verde, militarizada, de quatro bolsos que ficaria eternizada por Mao Tsé-Tung, com cada bolso a significar uma virtude, honestidade, justiça, probidade e humildade, e cinco botões representativos dos cinco ramos da governação: Executivo, Judicial, Legislativo, Examinador e Controlador. Substituindo as vestes tradicionais de seda das pessoas da mais alta hierarquia, o zongshang não tardou a agradar de tal modo a Estaline que fez dele o traje oficial dos governantes da União Soviética.

O passo seguinte da política de Sun era o de garantir a fidelidade do maior exército do país – um universo confuso de senhores da guerra – o Exército de Beiyang, estacionado no norte da China, na região do mesmo nome, controlado por Yuan Shikai. Inicialmente fiel à dinastia Qing, Shikai mudara definitivamente o rumo da revolução ao aceitar que a abdicação era um tema para além de discussão. Mantinha-se, no entanto, numa posição neutra que ameaçava duramente o novo governo provisório que não possuía exército próprio e sabia do feitio gigantescamente ambicioso de Yuan.

Em 1913, a Revolução evoluiu para uma Contra-Revolução. O Tongmenghui aliou-se a uma série de pequenos partidos para formar o Kuomintang, o Partido Nacional Chinês, mais conhecido pelo acrónimo de KTM, e Song Jiaoren, o homem que estivera por detrás desta aliança e que se propunha para comandar o partido foi assassinado, muito provavelmente por ordem de Shikai. Sun Yat-sen, a despeito da disparidade de forças, enviou os exércitos apoiantes do governo provisório para Beiyang na tentativa de levar Yan Shikai à justiça. Nada puderam fazer contra uma força de mais de 80 mil homens. Em Julho de 1913, mais uma vez derrotado, Sun partiu para Tóquio. Dois anos mais tarde, enquanto conspirava sob a proteção do grande político e industrial japonês Fusanosuke Kuhara, ficou a saber que Shikai tinha deposto a República e se autoproclamara Imperador da China. A confusão política era tal que, de imediato, Sun Yat-sen e Xu Shichang, assumiram o cargo de presidentes da República da China no exílio.

Em 1916, Sun estava de novo na China em prol da reunificação, Convencera-se que só através das armas podia dominar os senhores da guerra e os seus exércitos caóticos. Uniu-se ao Partido Comunista Chinês e criou um governo militar em Guangzhou, em 1921. O país dividia-se entre o norte e o sul. Foi já com o apoio da URSS e de Lenine que teve condições de fazer avançar as suas tropas para norte. Com Chiang Kai-shek como comandante do Exército Revolucionário. A guerra civil era inevitável e durou até 1949, muito depois e Sun ter morrido de cancro, em Pequim, no dia 12 de Março de 1925.