Um mundo às avessas

A falsa liberdade

O extremismo pós-moderno de esquerda e de direita consideram-se sempre vítimas de atentados à sua liberdade de ação e expressão e até a algo mais profundo, a da sua consciência e vontade.


Por João Maurício Brás

A liberdade de expressão não é um valor absoluto, tal como a liberdade individual ilimitada, sem responsabilidade, sem dimensão moral e social, nem sequer é um valor. Sem dimensão ética e social não há liberdade.

É criminoso fazer propaganda que atente contra a vida humana.

É criminoso apelar à violência física contra pessoas.

É criminoso incitar ao ódio político, racial e religioso.

É criminoso atentar contra a dignidade das pessoas.

É criminoso colocar em causa com falsidades a saúde das pessoas.

É criminoso perante um pandemia promover o descrédito, a desconfiança, meias verdades, mentiras e falsificações…

Não pensar no Outro, não considerar a dimensão comunitária e social, o dever de solidariedade e de cuidado, é moralmente desprezível e até criminoso.

Liberdade não pode ser o vale tudo ou o tudo se equivale. A ideia infantil e egoísta da liberdade libertária tudo destrói. 
A promessa de liberdade de opinião das redes sociais tem falhado porque a qualidade implica exigência e limites. O conhecimento não é opinião, a informação não é desinformação, a lucidez não é ignorância ou má-fé. A promoção lucrativa que certas redes sociais fazem da desinformação e do ódio, perante a passividade dos governos, é inimiga da democracia e de sociedades decentes, que não são conquistas definitivas. O negacionismo, por exemplo, como refere o filósofo António Molina, é um fracasso da inteligência. 

Escrevia Nelson Rodrigues: «Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura.»

Sobre as apologias da escolha livre, da liberdade individual irrestrita, o vale tudo, é interessante perceber como muitos sectores radicais de esquerda e direita têm processos mentais idênticos. O extremismo pós-moderno de esquerda e de direita consideram-se sempre vítimas de atentados à sua liberdade de ação e expressão e até a algo mais profundo, a da sua consciência e vontade. A liberdade individual seria um valor absoluto por si mesma, não interessam as consequências. Essa liberdade na prática é apenas egoísmo e ódio à racionalidade e a valores básicos de dignidade humana e de uma dimensão social sem a qual não há vida cívica.

A liberdade absoluta é uma distopia irresponsável e imatura, além de falsa. 

Perguntemos a alguém de uma certa direita que se disfarça de democrática se as vacinas deviam ser deixadas à livre escolha de cada um? Responderão que sim. 

Se o comprovativo da vacinação deve ser opcional? Dirão que sim. 

Mas eles defendem a liberdade do libertário, a sua liberdade, a egoísta.

Essa direita radical resiste à lógica? Não. 

Façamos o teste da liberdade de escolha.

Perguntemos: A eutanásia deve ser do foro da decisão de cada um? Dirão, não

O aborto é uma decisão da consciência de cada mulher? Não

A mudança de sexo deve ser um ato da consciência de cada um? Não

O casamento, gestação e adopção de crianças por parte de pessoas do mesmo sexo deve ser possível? Não

A liberdade de escolha, essa bandeira que serve para tudo e para nada, afinal é liberdade de toda a escolha, ou só daquela que eu considero que deve ser livre? 

Esta liberdade falsa é uma visão particular e monocromática do mundo. O woke de esquerda e de direita são gémeos, relativistas e obcecados com a ideia que tudo é poder e manipulação. 

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