Sociedade

Portugueses que brilharam em 2021

Num balanço do ano que agora termina, elegemos 12 portugueses que deram cartas nas suas áreas fora do retângulo. Ao Nascer do SOL, contam alguns planos para 2022.

Portugueses que brilharam em 2021

Da música à NBA, passando pelo teatro, pela ciência, pela justiça e pela Organização Mundial de Saúde num ano mais uma vez dominado pela pandemia, mas não só. Num balanço de 2021, o Nascer do SOL elege 12 portugueses que se destacaram nas suas áreas internacionalmente, mesmo para  os que não saíram de cá. 

E sem qualquer ordem de mérito, é destes senhores e senhoras que falamos: Artur Sá, homem dos Geoparques e professor da Universidade de Trás-os-Montes; João Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática; António Horta Osório, que recebeu o título de Sir pela Rainha de Inglaterra; Rogério Gaspar, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, à frente de uma das áreas críticas da OMS neste tempo de pandemia e ainda o cientista Nuno Maulide e o músico Bruno Pernadas. 

Nas páginas seguintes, Henrique Sá Pessoa, com uma entrada de fôlego na lista dos melhores chefs do mundo; Neemias Queta, o primeiro português na história da NBA; Tiago Rodrigues,  escolhido para presidir ao emblemático Festival de Avignon. Da representação, duas mulheres: Lúcia Moniz, na maturidade da sua arte, e Daniela Melchior, envolta pelo brilho de Hollywood. Da Justiça, menção para o juiz Igreja de Matos, eleito presidente da União Internacional de Juízes.

Não conseguimos falar com todos, mas alguns revelam-nos planos para 2022. E é do apaixonado pela matemática João Araújo que chega uma das novidades: a Sociedade Portuguesa de Matemática, que celebrou os seus 80 anos, quer criar em Portugal um centro de «retiros paradisíacos»... para  matemáticos. A ideia, explica, é que intelectuais de todo o mundo possam desfrutar do país e ao mesmo tempo contactar com investigadores e alunos  com interesse na área.

Rogério Gaspar, na linha da frente da resposta à pandemia na Organização Mundial de Saúde, responsável pelo departamento que lida com a questão sensível da distribuição equitativa de vacinas contra a covid-19 por todo o mundo, deixa o repto: já se caminhou muito na pandemia, mas é preciso vencer egoísmos nacionais para a pandemia acabe: «Não estamos protegidos enquanto não estivermos todos protegidos», diz ao Nascer do SOL. Com esse voto, um bom ano para todos.

Artur Sá. O homem dos Geoparques

Artur Sá é professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e é o primeiro português a ser eleito para o Conselho Executivo da Rede Global de Geoparques (GGN), entidade que supervisiona os territórios chancelados como Geoparques Mundiais da UNESCO. Um feito que, segundo disse ao Nascer do SOL, representa «um reconhecimento pelos pares do valor e seriedade» do trabalho desenvolvido e «uma enorme responsabilidade». O professor considera que 2021 foi um ano «atípico e desafiante». E para o ano,  além de querer cumprir as suas responsabilidades, o «objetivo maior» será a implementação e colocação em funcionamento do Observatório Internacional de Geoparques Mundiais da UNESCO. O Observatório irá recolher e processar dados sobre a gestão dos territórios distinguidos com a chancela Geoparques Mundiais da UNESCO, o que irá permitir «disseminar os resultados essenciais das boas práticas neles desenvolvidas, o que permitirá uma maior e melhor compreensão da sua importância a nível global».

João Araújo. Matemática para todos

«Em toda a história da Matemática, estes são seguramente os tempos mais fascinantes para se ser matemático!», revelou ao Nascer do SOL o professor, em jeito de balanço deste ano. João Araújo trabalha em Matemática Assistida por Inteligência Artificial e é professor catedrático do departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa e presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Agora, foi eleito para o comité de educação da European Mathematical Society. 2021 foi «fascinante e exigente». Mas nem tudo foram rosas. No início no seu mandato na SPM chamou a atenção para o problema da falta de professores. Para o ano, João Araújo quer criar com a SPM uma «estrutura de retiros paradisíacos onde os maiores matemáticos do mundo se podem reunir em imersão total para atacar (e resolver) importantes problemas de matemática», de forma a Portugal se posicionar como um centro matemático mundial, permitindo a investigadores e alunos o contacto direto com as maiores estrelas da área.  

António Horta Osório. O banqueiro de ouro

António Horta Osório assumiu em abril o cargo de presidente do conselho executivo do Credit Suisse, depois de uma longa passagem pelo Lloyds Banking Group. Mas pouco tempo depois, em junho, foi nomeado cavaleiro do Reino de Isabel II pelo papel que despenhou na recuperação do Lloyds após a crise financeira. «Estou profundamente honrado por receber um prémio tão prestigioso», disse, na altura, o banqueiro português. E acrescentou: «Passei mais da metade da minha vida profissional no Reino Unido e foi um grande privilégio ter liderado o Lloyds Banking Group durante uma década. Embora seja um reconhecimento a título pessoal, gostaria de pensar que reflete os esforços de muitos milhares de colegas do Lloyds Banking Group, que foram incondicionais no seu serviço aos clientes e aos contribuintes britânicos durante a minha passagem por lá». Horta Osório também está atento à situação que se vive no nosso país e recentemente considerou que «é dramático que em Portugal se ganhe 1.000 euros em média por mês».

Rogério Gaspar. Liderar na OMS

Desde janeiro de 2021 à frente do Departamento de Regulação e Pré-Qualificação da Organização Mundial de Saúde, Rogério Gaspar mudou-se para Genebra em plena pandemia. O professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa lidera a divisão da OMS responsável pela avaliação e distribuição de produtos farmacêuticos  – e, nos tempos que correm, das vacinas e medicamentos da covid-19. Uma maratona com marcos ‘históricos’ mas com objetivos por atingir: a meta era chegar ao final do ano com todos os países com pelo menos 40% da população vacinada e em 94 ficou-se aquém desse resultado. De olhos postos nas soluções, sublinha que o novo objetivo é chegar a 1 de julho com cobertura de 70% em cada país. Produção existe, garante, mas é preciso vencer os egoísmos nacionais. Perante a nova variante, diz que o risco de não o fazer é favorecer que apareçam mais. E cita Tedros Ghebreyesus, que descreve como a pessoa mais fácil de trabalhar no mundo mesmo sendo um líder exigente: «Não estamos protegidos enquanto não estivermos todos protegidos».

Nuno Maulide. A música das moléculas 

Nascido em Lisboa em 1979, Nuno Maulide começou por estudar piano no Instituto Gregoriano. «Em jovem, a minha grande paixão era a música». Porém, ao aperceber-se de «como é dura a carreira de um pianista de concerto, e solitário o quotidiano dos pianistas profissionais», resolveu seguir o caminho da Química.

No Técnico, entusiasmou-se com Química Orgânica. Terminado o curso, trabalhou seis meses numa empresa de corantes na Suíça. Seguiram-se outros seis de Erasmus na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, onde acabou por fazer o doutoramento. «Depois fiz um post-doc de um ano na universidade de Standford, na Califórnia, e daí saltei para uma posição de group leader, criei a minha própria equipa de investigação e desenvolvi as minhas ideias no instituto Max Planck, em Mülheim, na Alemanha». Em junho de 2021 tornou-se o mais novo membro permanente da Academia de Ciências da Áustria. «Tenho tido a sorte de atingir certos patamares de carreira em idades pouco comuns», congratulou-se.

Bruno Pernadas. Razões não tão privadas

Esta não é a primeira vez que a música de Bruno Pernadas é elogiada lá fora. O compositor já deu concertos no Japão, já tinha visto os seus discos aclamados e selecionados para listas de melhores álbuns do ano em publicações independentes internacionais, mas com Private Reasons, o seu disco mais recente, editado em abril do 2021, selecionado pela revista Spin como um dos melhores discos do primeiro semestre de 2022, algo parece diferente. «Nos Estados Unidos a minha música teve um boom gigante», explicou ao Nascer do SOL. «Através do Spotify, agora, é nos Estados Unidos que a minha música é mais ouvida. Antigamente, era o Japão, Portugal, Brasil, mas agora eles dominam estas listas». Private Reasons foi protagonista da maioria das listas de melhores do ano portuguesas, e, em 2022, apesar de duvidar que exista um novo álbum a solo, Pernadas prometeu que irá estar na estrada a compensar os concertos adiados, avaliando a possibilidade de fazer uma tour em Espanha.

Henrique Sá Pessoa. 38.º melhor chef do mundo

Se há figura que se destacou e brilhou no ano de 2021, foi Henrique Sá Pessoa. Com o seu ar discreto e quase tímido, o chef de 45 anos laureado com duas estrelas Michelin, «renovadas» também este ano – apesar da pandemia. «Para mim, foi um ano de várias surpresas positivas, nomeadamente, o início do meu projeto em Amesterdão, a nomeação como 38.º melhor chef do mundo, a renovação das duas estrelas Michelin e o lançamento do meu novo programa que gravei também este ano, Contradição, que estreará agora no dia 17 de janeiro», revelou ao Nascer do SOL. No dia 15 de setembro, Henrique Sá Pessoa tornou-se 38.º melhor chef do mundo, a melhor entrada na tabela dos 100 distinguidos na lista dos The Best Chef Awards. Quando se ganha esse reconhecimento, «é realmente gratificante», confessa. Contudo, não se deixa deslumbrar: «Eu nunca acordo de manhã a dizer que quero ser o 38º melhor chef no mundo. Acordo sim, a dizer que tenho a sorte, a felicidade de poder estar na profissão que escolhi», acrescentou.

Neemias Queta. 1.º português na NBA

Portugal está, oficialmente, na NBA, pelas mãos de Neemias Queta, o jovem basquetebolista de 22 anos que foi escolhido pelos Sacramento Kings, e que se estreou com as cores do emblema da Califórnia na madrugada de 18 de dezembro.

Queta, que mede 2,13 metros de altura, entrou em campo frente aos Memphis Grizzlies e, em 7.44 minutos de jogo, conquistou cinco ressaltos e uma assistência. A estreia demorou praticamente quatro meses, já que, depois da escolha de Queta no draft do passado dia 30 de julho, o português foi chamado à equipa ‘B’ do emblema californiano, os Stockton Kings, na G League.

Depois da estreia frente aos Grizzlies, Queta ainda voltou a pisar o court com as cores dos Sacramento Kings, frente aos Golden State Warriors, mas aí o tempo de jogo não foi quase nenhum, não chegando a atingir os 2 minutos em campo.

No momento em que Queta parecia estar a ganhar preciosos minutos de jogo, no entanto, o poste foi integrado nos protocolos de saúde e segurança da NBA contra a covid-19.

Tiago Rodrigues. Brulhar em Avignon

Portugal deu cartas em todas as áreas ao longo do ano, e o teatro não ficou órfão de um anfitrião lusitano em 2021. O encenador português Tiago Rodrigues, que recebeu o Prémio Pessoa em 2019, antigo diretor do Teatro D. Maria II (onde esteve durante seis anos) e fundador (um dos) da companhia de teatro Mundo Perfeito, foi escolhido para dirigir o famoso Festival d’Avignon, em França, substituindo Olivier Py.

O festival «mais belo do mundo» (como lhe chamava o encenador português  após ter sido escolhido para o dirigir) viu Tiago Rodrigues tornar-se no primeiro não-francófono a liderar as hostes neste evento, que celebrou este ano a sua 75.ª edição. O mandato do português, por sua vez, deverá começar em setembro de 2022.

A escolha de Tiago Rodrigues veio com um embrulho ‘doce’ pelo próprio Executivo francês. «A escolha impôs-se de forma evidente, [foi] de forma natural, quase de forma doce», referiu na altura a ministra da Cultura de França, Roselyne Bachelot-Narquin, citada pelo Le Monde.

Lúcia Moniz. Atriz reconhecida em Londres

O seu nome é conhecido por quase todos os portugueses, voando também além fronteiras, não fosse Lúcia Moniz uma das artistas portuguesas mais polivalentes. Desde o cinema à música (aos 19 anos venceu o Festival RTP da Canção com o tema ‘O meu coração não tem cor’), passando pelas dobragens e o teatro, a atriz de 45 anos acaba de voltar a ver o seu trabalho reconhecido, graças à sua participação no filme de 2020, Listen, de Ana Rocha de Sousa. Com coprodução luso-britânica, o projeto cinematográfico foi rodado nos arredores de Londres com elenco português e inglês. Não é novidade que a artista nos transporta sempre a «outros lugares», cada vez que a vemos representar na tela. Contudo, ao que parece, nunca tinha sido desta forma.

O drama familiar inspirado em factos reais, sobre uma família de emigrantes em Londres, valeu-lhe sete prémios só este ano. Entre eles, o prémio internacional de melhor atuação no Raindance Film Festival, em Londres, um dos mais importantes festivais de cinema independente no Reino Unido.

Daniela Melchior. 'The Next Big Thing'

Falar em ascensão parece algo diminuto quando refletimos sobre a meteórica fama de Daniela Melchior. Se no início de 2021 a portuguesa era uma desconhecida para grande parte do mundo, depois de encarnar no filme Suicide Squad o papel de Ratcatcher II, Melchior tornou-se a atriz mais pesquisada do IMDB, base de dados online dedicado ao cinema e à televisão, e uma das referências do ranking do Star Meter desta plataforma. Elogiada pela crítica e acarinhada pelos fãs, Melchior parece destinada a tornar-se na próxima «next big thing» do cinema popular, tal como descreveu o Hollywood Reporter. O que esperar então do futuro da atriz? O regresso a Hollywood já está garantido, com Melchior confirmada para entrar no novo filme de ação de Neil Jordan, Marlowe, assim como em Assassin Club, longa-metragem de Camille Delamarre. Antes de promover estes filmes, Melchior poderá ter de regressar ao sucesso de Suicide Squad, uma vez que segundo a revista Variety pode estar na calha para receber uma nomeação para o Óscar de Melhor Atriz Secundária.

Igreja de Matos. Presidente dos Juízes

José Manuel Igreja Martins de Matos colocou Portugal no panorama internacional da Justiça, num ano em que, por cá, não faltaram casos polémicos nessa área. O desembargador, que desempenhou funções no Tribunal Criminal de Braga, é agora presidente da União Internacional de Juízes, a maior organização de magistrados a nível mundial. Igreja de Matos, de 56 anos, nasceu no Brasil, mas há várias décadas que vive em Braga, tendo exercido no Tribunal do Trabalho, depois de ter sido juiz titular do Círculo Judicial de Barcelos durante seis anos. Foi também juiz do 3.º Juízo Criminal de Braga. Esposende e Vila Verde foram também comarcas onde exerceu e, atualmente, é juiz-desembargador no Tribunal da Relação do Porto. «É com enorme honra que fui eleito presidente da União Internacional de Juízes. Queria dedicar a minha eleição às mulheres juízas do Afeganistão. Verificando, com horror, os ataques às nossas colegas, o resto, tudo o resto, deixa de ter importância», escreveu Igreja Matos no Twitter.

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