Sociedade

Comissão irá estudar 70 anos de abusos sexuais na Igreja Católica

"Dar voz ao silêncio" é o nome do estudo que a comissão irá realizar e conta com testemunhos de vítimas, estando assegurado o anonimato. 


A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica em Portugal vai estudar os casos de abusos de crianças praticados por membros ligados à Igreja Católica desde 1950 até 2022, segundo o plano apresentado ontem em conferência de imprensa, que decorreu na Gulbenkian, em Lisboa. 

Pedro Strecht, coordenador do plano e pedopsiquiatra, explicou que o objetivo passa por “esclarecer da melhor forma possível tudo o que possa ter acontecido em Portugal ao longo dos últimos anos, tão complexa e necessária de apurar”. A ação envolve a recolha de testemunhos de vítimas, de modo a tentar perceber como, quando e por quem foram abusadas. 

O coordenador salienta que “a comissão existe para estar ao lado das pessoas”, frisou. E a partir de hoje, pelas 10 horas, ficou disponível um site com contactos (geral@darvozaosilencio.pt) e um inquérito “para todos os que queiram responder com sinceridade”. No que diz respeitos aos testemunhos ou denúncias, estas deverão ser feitas através do número 91 711 00 00 (dias úteis, das 10h às 20h).

Segundo o médico, o trabalho desta comissão independente vai decorrer ao longo deste ano, num espaço físico “descaracterizado” e “autónomo” da Igreja, estando prevista a apresentação de um relatório no final do ano, em dezembro. O financiamento dos trabalhos será assegurado pela Comissão Episcopal Portuguesa (CEP), mas estará aberto a eventuais contribuições de outras instituições que queriam também a apoiar a iniciativa.

Testemunhos e artigos antigos A investigação tratará da informação de várias formas: testemunhos partilhados por vítimas por entrevista ou inquérito – e que podem ser realizados pelo site assim como presencialmente – estando sempre garantindo o anonimato. Além disso, contará também com uma análise detalhadas de textos publicados na comunicação social desde 1950, de instituições médicas e de organismos como a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens ou a Associação de Apoio à Vítima. Os arquivos da Igreja Católica também serão alvo de escrutínio.

No evento esteve presente o presidente da CEP – o bispo José Ornelas – que frisou a importância de se trilhar um caminho de verdade, sem preconceitos nem encobrimentos” para a Igreja Católica portuguesa. “Dar voz ao silêncio”, é a expressão que dará nome ao estudo que a comissão realizará.

Milhares foram abusados Recorde-se que mais de 300 mil menores foram abusados e agredidos em instituições da Igreja Católica francesa, segundo um relatório sobre pedofilia divulgado em outubro do ano passado, e que responsabilizou diretamente clérigos e religiosos por 216 mil vítimas. O Papa Francisco manifestou a sua “profunda tristeza” ao tomar conhecimento da “terrível realidade”.

De acordo com o presidente da Comissão, composta por 22 membros, os números citados baseiam-se numa estimativa estatística que tem uma margem de erro, por excesso ou defeito, de cerca de 50 mil pessoas. “Estes números são mais do que preocupantes, são condenáveis e não podem de forma alguma ser ignorados”, disse Jean-Marc Sauvé, dizendo ainda na altura que a estimativa revelou que cerca de 80% são vítimas masculinas.

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