O mundo em calções

O pintor do Rapto Branco

Durante três dias do mês de agosto de 1963, Alfredo Di Stéfano esteve sequestrado em Caracas, na Venezuela


Máximo Canales era daquela espécie de românticos revolucionários da velha guarda, dos que desembarcavam fosse em que país fosse e largavam, de imediato, o habitual estribilho: «Hay Gobierno? Soy Contra!». Como todos os revolucionários românticos, não se chamava Máximo Canales mas sim Paúl del Río, nascido em Cuba em 1943, mas arrastado pelos pais na emigração para a Venezuela dois anos depois. Ainda adolescente, com a cabeça cheia de movimentos militares e governos derrubados à força de armas e de apoios populares, rodando imparavelmente como se vivesse dentro de um filme, juntou-se a um grupo de guerrilheiros que fundaram dois movimentos de esquerda em Caracas, o Partido Comunista Venezuelano e o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, ambos decididos a depor a jovem Democracia que surgira no país depois da queda do ditador Marcos Pérez Giménez, em 1958. Esta ideia de depor um regime democrático parece um bocado diletante, e de facto é. O que demonstra a confusão política e o caos social que habitavam a cabeça do jovem Paúl del Río e dos seus igualmente jovens camaradas.

Por via do seu estado de contínua excitação, foi oferecida a Paúl a direção de um dos braços do MIR, as Fuerzas Armadas de Liberación Nacional. A sua imaginação frenética já o punha, desde logo, a efetuar movimentos de desestabilização popular um pouco por toda a Venezuela.Nesse aspeto era um verdadeiro cavaloselvagem. Tinha apenas 19 anos quando idealizou e concretizou uma ação espetacular, a tomada do cargueiro Anzoátegui que, vigiado de perto pela Royal Navy e pela U.S:Navy, acabaria por atracar tranquilamente, onze dias mais tarde, em Belém, na costa brasileira. O seu nome começava a ser pronunciado com respeito, se não com medo. Um ano mais tarde, sequestrou o adido militar da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas, Michael Smolen. Estávamos em 1964 e Máximo Canales não tinha mãos a medir. Vivia um frenético entusiasmo nas ações conspirativas. Queria andar pelo mundo a fazer revoluções, mesmo que fossem pequenas revoluções sem um verdadeiro impacto universal.

Paúl del Río tinha outra face da sua personalidade bem mais tranquila. Dedicava-se à pintura e à escultura, num estilo quase tão caótico como a sua veia revolucionária, misturando surrealismo com cubismo e modernismo e criando obras com muito de enigmático e através das quais pretendia dar a conhecer a sua visão sobre a dureza da vida das pessoas das classes baixas dos subúrbios de Caracas. 

No dia 24 de agosto de 1963, pelas oito horas da manhã, Canales deu início ao mais espetacular dos seus atos subversivos, mais tarde conhecido por Rapto Branco. Ligou para o quarto 216 do Hotel Potomac, onde estava instalada a equipa do Real Madrid que chegara a Caracas para participar de um torneio internacional. «Senhor Di Stéfano», disse, «estão aqui na receção alguns polícias que lhe querem fazer umas perguntas. Importa-se de descer?». Alfredo não estava para aí virado. Fora acordado em sobressalto e convenceu-se de que tudo não passava de uma brincadeira montada por um dos seus companheiros de equipa. Não fazia tenções de abandonar o conforto do quarto àquela hora. Limitou-se a um seco – «Se é urgente que venham cá acima» – e desligou. 

Três minutos mais tarde, fortes pancadas abanaram a porta do quarto 216. Di Stéfano abriu, irritado. Um empregado do hotel, acompanhado por três homens que se identificaram como polícias, disseram-lhe que teria de os acompanhar de imediato à esquadra mais próxima para clarificar algumas questões em relação à sua verdadeira nacionalidade. Alfredo acompanhou-os, entrou num carro, e desapareceu no bulício da cidade acabada de acordar. Já dentro do automóvel foi vendado e aconselharam-no a ter calma, prometendo que nada lhe sucederia. Depois, durante as horas seguintes, mudaram-no constantemente de sítio.

À uma da tarde, as Fuerzas Armadas de Liberación Nacional assumiram o rapto ligando para o Hotel Potomac e revelando que Di Stéfano seria libertado depois de terem conseguido a publicidade que pretendiam com aquele gesto. Entretanto, Di Stéfano recuperava a visão. Tinham-lhe tirado a venda e percebeu que se encontrava numa sala repleta de quadros. Deram-lhe de comer, trataram-no com todo o respeito, e Paúl convidou-o para umas partidas de xadrez.

Deixaram-no ouvir o relato entre o Real Madrid e o FCPorto, nessa noite, para o Torneio de Caracas, mas não baixaram a guarda. Depois do pôr-do-sol entravam na sala militares com armas empunhadas. Ao fim de três dias, mudaram-lhe a roupa, enfiaram-lhe um chapéu na cabeça e foi levado de carro para uma avenida no centro da cidade onde o devolveram à liberdade. Alfredo apanhou um táxi e pediu para o levarem à Embaixada de Espanha. Eram 14h10. Tinha fechado há dez minutos... Não quiseram abrir-lhe a porta.

afonso.melo@newsplex.pt

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