O mundo em calções

O Führer estava nervoso...

O norueguês Magnar Isaksen foi a figura do único jogo de futebol a que Adolf Hitler assistiu em toda a sua vida. A Alemanha seria derrotada por 0-2 nos Jogos Olímpicos de 1936

O Führer estava nervoso...

Joseph Goebbels deixou escrito no seu diário: «O Führer está muito nervoso, eu só me posso controlar a mim próprio». Cáspite! Que diacho de acontecimento poderia deixar nervoso o inefável canalha do bigodinho ridículo? Que tremenda batalha era essa que lhe surgia pela frente capaz de bulir com a coordenação das ações voluntárias e involuntárias de tão grande cavalgadura? Pelos visto um jogo de futebol. Um simples jogo de futebol. Aquele que, segundo tudo indica, foi o único jogo de futebol que Adolf Hitler viu na vida.

Por toda a cidade de Berlim os altifalantes mandados colocar pelo ministro da Propaganda nazi teciam loas a esse desígnio nacional de organizar os Jogos da XI Olimpíada da Era Moderna, preparados para se transformarem numa exibição mundial da superioridade da raça ariana. As provas eram relatadas em direto para os ouvidos dos cidadãos alemães, a realizadora do regime, Leni Riefenstahl, foi contratada para fazer um filme revolucionário, com técnicas inovadoras, sobre o evento, todas as delegações se sujeitaram ao opróbrio de erguerem o braço na saudação fascista no dia de abertura da competição.

Hitler tinha todos os motivos para andar impante, exibindo a sua vaidade insuportável, e ainda assim, segundo o seu ideólogo, estava nervoso? Ah! Quão grande podia ser o poder do futebol!

Ficara decidido por Goebbels que seria importante para a imagem do Führer que este assistisse a pelo menos um dos jogos do Torneio Olímpico. Isto a despeito do desprezo que a besta destilava em relação ao desporto inventado pelos ingleses e que considerava congregador de vícios antissociais. Preferia as monótonas sessões de ginástica, bem mais encaixáveis no seu espírito que requeria ordem sobre o caos acima de tudo e que, ao mesmo tempo, lançava todo o mundo no caos de uma guerra incomensurável. Dava jeito, naturalmente, que fosse um jogo da seleção alemã e, de preferência, contra um adversário não muito problemático. A Alemanha já tinha estraçalhado o Luxemburgo por 9-0 na primeira eliminatória e iria jogar os quartos-de-final contra a Noruega. Parecia ideal. Agendou-se a presença do figurão no Poststadiom, no dia 7 de agosto, pelas cinco e meia da tarde. A título experimental, e alardeando que grande parte do governo nazi se faria representar, a televisão transmitiria o encontro em direto.

Foi ladeado por Goebbels, pelo líder do Partido Nacional-Socialista, Rudolf Hess, pelo comandante da Luftwaffe, Hermann Göring, e pelos ministros da Educação e do Interior, que Adolf Hitler se sentou na bancada presidencial, talvez nervoso, como escreveu Goebbels no seu dário, mas absolutamente convencido de que iria assistir a uma vitória gloriosa da Alemanha na direção da medalha de ouro da competição.

Para grande contrariedade das autoridades germânicas, o futebol ainda não era um jogo controlável. 55 mil pessoas enchiam o recinto e viram, logo aos 6 minutos, um norueguês de ascendência judia, Magnar Nikolai Isaksen, nascido a 13 de Outubro de 1910 em Kristiansund, jogador do Lyn, um dos históricos clubes de Oslo, marcar o primeiro golo do desafio. Não contente com a proeza, enervantemente festejada frente aos focinhos nazis, Magnar repetiu a dose a cinco minutos do fim, fechando o resultado em 2-0 para os nórdicos e eliminando a Alemanha. Magnar não voltou a marcar, até porque se lesionou no jogo seguinte frente à Itália, mas a Noruega acabaria por levar para casa a medalha de bronze. Depois de ter aturado a desfeita de um negro chamado Jesse Owens, Adolf Hitler tinha agora motivos para se sentir apepinado por outra personagem muito improvável, e abandonou o estádio antes de o árbitro inglês Barton ter apitado para o final da partida. Goebbels não o escreveu no seu diário, mas parece que o Führer deitava fumo pelos ouvidos.

Magnar já tinha 26 anos quando foi chamado pela primeira vez à seleção do seu país, nesse preciso ano de 1936. Participou no Campeonato do Mundo de 1938, em França, e dois anos mais tarde assistiu à invasão da Noruega por parte da Alemanha. Um dos seus companheiros na grande vitória do Poststadiom, o também avançado Reidar Kvammen, oficial de polícia, teve a coragem de se opor à tomada de poder por parte dos germânicos que foi realizada sem grande resistência. Seria preso e deportado para um campo de concentração. Asborn Halvorsen, o treinador da equipa da Noruega de 1936, foi igualmente valente: ameaçou cancelar o jogo da final da taça norueguesa se a bandeira da suástica fosse içada no campo. A atitude valeu-lhe uma visita da Gestapo e uma temporada em diversos campos de concentração até 1944. Já Otto Nerz, o selecionador alemão, caiu em desgraça apesar de pertencer ao Partido Nazi. Acabaria morto pelos soldados soviéticos. Não era à toa que enervava Hitler.

Os comentários estão desactivados.