O mundo em calções

O golpe de sorte de um canalha

O boato espalhou-se como fogo num campo de palha seca - Francisco Franco tinha ganho um milhão de pesetas no totobola.

O golpe de sorte de um canalha

Diz o povo, do Ervededo a Santa Bárbara de Nexe, que todos os canalhas têm sorte, e diz a gente, à boca miúda, que o saber do povo é infalível, embora pessoalmente tenha sérias dúvidas em relação a esta tão drástica tomada de posição. Nelson Rodrigues, que sabia uma ou duas coisas sobre a canalhice humana, escreveu a seu tempo: «Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo». Muito bem, quem nunca fez grande esforço para ser canalha, tendo logo vindo ao mundo como um canalha perfeito e irretocável, daqueles de cento e vinte e quatro patas, foi um tal de Francisco Franco Bahamonde, o figurão que deu início à sangrenta Guerra Civil de Espanha, em 1936, e se manteve no posto de ditador absoluto – ele preferia ser chamado de El Caudillo – até 1975, data em que, já fartos de lhe aturar até o ronronar mecânico da respiração assistida, os médicos optaram por desligar a maquinaria que o mantinha preso à vida e, desse modo, acertaram-lhe o passo, acabando com a sua miserável existência a pão e laranjas.

Durante muitos anos, em Espanha, o boato perpetrou-se: o pulha do Generalíssimo, já não lhe bastando pôr e dispor dos cofres do Estado, ficara milionário por ter acertado nos resultados do totobola. «Um milhão de pesetas», murmurava-se por las calles. «Mas qué hijo de puta más afortunado. Acojonante!».

Nesse país enorme de liberdades diminutas, o futebol ganhara o peso das touradas. Servia para que todos procurassem, através dele, fugir à tristeza de um destino adivinhável. Quem nascera pobre, pobre ficaria para o resto da existência. Por isso, que se aproveitasse a vida, hombre! Vamos lá passar as tardes em Las Ventas ou no Santiago Bernabéu!

Havia, no entanto, uma esperança para os indigentes: a quiniela. O primeiro boleto, como era chamado, surgiu em setembro de 1946. Vamos lá passar a falar português, então. Totobola, pura e simplesmente. Tal e qual como o nosso dos velhos tempos, jogos com hipóteses de 1X2, conforme se se apostasse na vitória da turma da casa, no empate, ou no triunfo forasteiro. Simples e fácil. E a malta desatou a preencher os boletins furiosamente, tal como se a sua vida dependesse disso. Vamos e venhamos: para muitos deles dependia mesmo. Uma quiniela vitoriosa era a diferença entre o inferno e o céu.

Jacinto Pérez, antigo diretor comercial de uma repartição que levava o nome de Loterías e Apuestas del Estado, escreveu um livro curioso: Historia de la Quiniela. E afirma, desmentindo o tal boato milionário: «A Franco le tocó la tercera categoría. Tenía 10 aciertos». E concluia: «A los 3.161 apostantes que tuvieron el mismo tino que el dictador le correspondieron 2.848 pesetas». Ao que parece algo como 18 euros dos dias de hoje.

Não me lembro da última vez que fiz um totobola. A verdade é que teimo inconscientemente que o totobola já nada tem para me dar. Quero dizer, já cheguei ao treze. Num boletim a meias com o meu primo Pedro Machado e com o meu mano Luís Miranda, por extenso Perain, outro que se foi antes do tempo. Ora, depois de se fazer um treze, faz-se o quê? Atingimos o topo, num domingo à noite qualquer do início dos anos 80 no qual o meu desaparecido amigo Bento defendeu um penálti apontado pelo meu querido amigo Fernando Gomes, felizmente ainda por aí com a sua tranquilidade própria de um ponta-de-lança impiedoso, no último minuto de um Benfica-FC Porto na Luz. Como está bem de ver, não ficámos mais ricos do que Francisco Franco. 21 contos de réis foi o valor do prémio. A prova de que não ficámos ricos está aqui mesmo, nesta página, ou acham que se tivesse os bolsos forrados com uns bons milhões de euros ainda estaria por aqui a apepinar-vos, semanalmente, a paciência?

Paul Preston também escreveu um livro interessante: Franco – Caudillo de España. Terá abusado da imaginação quando afirma perentoriamente que o Generalíssimo empochou o tal milhão de pesetas. Pérez desmontou pormenorizadamente a facécia: «Era una quiniela con 14 partidos. Cuatro no se jugaron, así que entraron los dos de reserva. Se apostó sobre 12 partidos, de los que Franco acertó los pronosticados, pero no los de reserva». Depois acrescenta que os vencedores de primeira categoria receberam exatamente 900.333 pesetas. Mais interessante ainda. Estando o campeonato de Espanha interrompido, o totobola foi assente nos resultados do campeonato italiano. Franco errou nos jogos Padova-Alessandria e Savona-Verona. José María Zavala escreveu, por sua vez: Franco con Franqueza: Anecdotario Privado del Personaje más Público. E conta: «El ganador envió eufórico a su ayudante Carmelo Moscardó a cobrar el boleto». Caiu-lhe o queixo com a desilusão. Não houve vivalma que tivesse pena do canalha.
 

Os comentários estão desactivados.