No meio de nós

Sinto-me um hipócrita!

Nós estamos a assistir a uma das maiores atrocidades da história europeia do mundo ‘civilizado’ e temos medo… É evidente que os nossos políticos se encontram diante de um dilema… se entram dentro do poço, arrastarão consigo toda a Europa para uma guerra, se não entram no poço, irão assistir a uma invasão sem sentido de um território independente.


Não raras vezes, olho para a minha vida e vejo que sou um hipócrita! É isso que me está a acontecer hoje… Sou dominado por uma hipocrisia que não tem fim…

Há um ou dois meses assistimos a uma criança, em Marrocos, dentro de um poço, com centenas de pessoas, à volta, e algumas equipas que iam abrindo um buraco paralelo para resgatar aquela criança e, ao mesmo tempo, iam enviando oxigénio e água para poder sobreviver. 

Esta situação comoveu o mundo… houve diretos na televisão… jornalistas que se deslocaram para transmitir in loco o que ali se passava. Estávamos a assistir à dor de uns pais… à morte lenta de uma criança… e a um mundo que, suspenso, olhava e rezava por aquela criança.

Hoje, olho para a Ucrânia, e sinto alguns paralelos… vemos as crianças como se estivessem num poço, vamos lançando ajuda humanitária e alguns meios defensivos, mas não as vamos lá resgatar com medo de lá ficar com elas. Este poço é bem mais perigoso do que aquele outro… 

Nós estamos a assistir a uma das maiores atrocidades da história europeia do mundo ‘civilizado’ e temos medo… 
É evidente que os nossos políticos se encontram diante de um dilema… se entram dentro do poço, arrastarão consigo toda a Europa para uma guerra, se não entram no poço, irão assistir a uma invasão sem sentido de um território independente.

Este dilema, no entanto, tem um outro revés. Se admitirmos que a Rússia possa fazer qualquer ingerência na política de um país independente e de tomar o território de um país independente, isso significa que, qualquer país do mundo, pode invadir o que quer que seja, sem qualquer consequência. Daí as nações terem imposto duras sanções à Rússia!
Mas serão suficientes?

Um outro dilema surge a partir destas sanções… verificamos que a globalização, para além de escravos, também faz reféns. Eu digo escravos porque, desde que visitei a Índia, há vinte e cinco anos, percebi que para mantermos o nível de vida na Europa, admitíamos fazer compras de países que admitem horários de trabalho ou trabalho infantil que nunca admitiríamos nos nossos países. Eu digo reféns, porque vemos, agora, que muitos de nós estamos reféns da energia russa. Estamos todos enleados…

Há, no entanto, uma coisa interessante que temos visto nesta invasão russa à Ucrânia: a sociedade civil. Este movimento vem na linha do ‘Black Lives Matter’… se os políticos não podem fazer nada, nós podemos, nós exigimos.
Realmente, a Opinião Pública empurrou os atores políticos para uma tomada de posição inaudita. Aqui, começamos a perceber, que a democracia funciona… 

São rios de voluntários por toda a Europa, que oferecem a sua vida, para proteger 44 milhões de ucranianos. Alguns chegam mesmo a alistar-se no exército. Ajuda humanitária. Transporte de refugiados… uma imensidão de bondade e de amor que inundou o mundo para vencer o ódio e a guerra. O livro do Cântico dos Cânticos diz: o amor é mais forte do que morte! 

Hoje, mais do que nunca, temos nas mãos o poder. Temos o poder… 

É verdade que eles também têm o poder… mas todos os dias temos o poder de olhar para a etiqueta do que compramos e dizer: «Não vou comprar porque é um produto russo». Ou dizer: «Não vou comprar porque é um artigo chinês». 

Vamos sofrer? Vamos! Mas não morremos!

Se não comprarmos alguma coisa ou se passarmos a andar a pé, não morremos… ponto! Nós sofremos, mas eles estão a morrer. O mínimo que podemos fazer é um sacrifício de amor capaz de acabar com a guerra.

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