Cultura

Vita Activa. A “mutilação” da mulher nua que ocupava as ruas de Valência


As ruas de Valência foram ocupadas pelas tradicionais festividades Las Fallas. Grandes esculturas foram exibidas em cada recanto, para depois serem queimadas, mas houve uma que não durou nem 24 horas.  
 


Há várias décadas que a cidade de Valência recebe a primavera com Las Fallas. Durante meses preparam-se os monumentos e as efémeras estátuas de madeira e papel machê - massa feita com papel picado embebido na água, coado e depois misturado com cola e gesso - que o fogo acaba por devorar num espetáculo “único”. De 15 a 19 de março, dia de São José segundo a Igreja Católica, as ruas foram ocupadas pelas típicas festividades espanholas caracterizadas por um desfile de gigantescas figuras satíricas. Atualmente a festa converteu-se num grande atrativo turístico já que é vista como “o carnaval da cidade de Valência” e foi em 2016, declarada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Mas quem diria que a queima de sobras das carpintarias da idade média, se transformaria numa festa que atrai mais de um milhão de visitantes? E será que os monumentos agradam a todos?

Reza a lenda que a origem da celebração remonta-se aos parots dos carpinteiros. Com a chegada da primavera e dos dias longos, os profissionais faziam uma fogueira para se livrar das lâmpadas a óleo com braços de madeira. E, este ano, não foi exceção: durante meses carpinteiros, escultores e pintores, em espanhol considerados “artistas falleros” construíram grandiosos ninots ou monumentos falleros que satirizam tudo e todos, ilustram temas e ainda problemas sociais, locais e regionais. As criações chegam mesmo a atingir os 30 metros de altura. Outra das tradições é que semanas antes do início do festival, as esculturas são submetidas às opiniões da população. Depois disso, o que mais se destaca nas duas categorias existentes  - adulta e infantil - acaba por se salvar da fogueira, ganhando o direito de ocupar um lugar no Museo Fallero de Valencia, na Plaza Monteolivete. 

Mas nem tudo é “festa”. Um dia depois do começo das cerimónias, uma das fallas sofreu de “vandalismo”. A escultura em questão intitulada Vita Activa e criada pela artista Anna Ruiz Sospedra foi realizada sob a figura de uma mulher nua sentada no chão com as pernas abertas e, ao que parece, foi um fracasso nas festividades. O trabalho de Ruiz “convida à reflexão sobre liberdade sexual e superação de padrões ultrapassados ​​e sexistas”, mas nem todos pareceram “querer refletir”. Segundo o El País, na manhã do dia 16 de março, a mulher foi “mutilada” na área genital. “Um grupo de pessoas deve ter dado pontapés no monumento e, depois de conseguir parti-lo, fugiu”, escreveu o jornal espanhol.  

A “incompreensão” da autora “Não consigo entender, porque acho que é um nu muito natural que não acho ofensivo. Surpreende-me porque era justamente por esta ‘falha’ que falava da necessidade de quebrar o tabu dos órgãos genitais. Não há nada a esconder!”, explicou a artista de 43 anos ao El País. “Está claro que eles [responsáveis pelo ato] não pararam para ler os cartazes e perceber o seu significado”, acrescentou a autora da obra que ardeu na noite de sábado. Além disso, Ruiz destacou que na maioria das vezes o corpo da mulher “tem sido usado mais para o consumo erótico e pornográfico”, e por isso com este trabalho pretendia mostrá-lo “a partir da sua força e beleza”. A artista não acredita que este tenha sido um ato de vandalismo “sem intenção”: “Se fosse um simples ato de vandalismo, daqueles que resultam de comportamentos de pessoas bêbadas ou que não se comportam, talvez o tivessem chutado no pé por ser engraçado. Mas não! Foram os genitais!”, explicou. “Não acho o monumento ofensivo, afinal, todos nós nascemos de uma vagina e fomos alimentados por seios. Não acho que possa ser algo condenável!”, reforçou ainda a artista, que se dedica ao World of Fallas desde 2008. Além da Vita Activa, este ano a criadora também “plantou” outra falla - a figura de um homem nu deitado, também com o propósito de refletir - a que chamou Jo Visc, em português Eu Vivo.  

Nessa mesma manhã, Ruiz tentou reconstruir a parte destruída aproveitando os pedaços espalhados pelo chão para que o dano fosse o menos percetível possível, mas mesmo assim, a escultura nunca voltou ao normal. “A chuva intensa que caiu ontem à noite e esta manhã complicou bastante a reconstrução porque o revestimento estava encharcado”, explicou a artista ao jornal espanhol no dia 17 de março.

A receção da obra Mas ao contrário daquilo que os responsáveis pelo ato podem ter considerado, nas primeiras 24 horas em que a figura da mulher nua foi instalada na rua, as reações que chegaram à artista foram geralmente “muito positivas”, e, segundo a mesma, não deixou de surpreendê-la que as pessoas tirassem fotos sobretudo do sexo, que na sua opinião mostra que “algo natural ainda é um tabu” e quando é mostrado gera duas visões, “ou alegria ou gozo”. Ruiz elucidou ainda que este monumento fallero é “uma introspeção” e mostra o estado de espírito em que se sentia quando desenhou o projeto, pois percebeu que depois da maternidade e outra série de eventos “não tinha tempo para a reflexão e pensamento”. No momento dessa “realização”, lembrou-se de um livro de Hannah Arendt que se refere “precisamente ao diálogo que devemos ter com nós mesmas”. Procurou, por isso, reivindicar “todas as mulheres”: “Na realidade todas as pessoas que precisam de introspeção. Devemo-nos perguntar como somos, o que somos e em que momento estamos”, sublinhou.

Por sua vez, o presidente da comissão fallera, Salvador Martínez, denunciou que se trata de um ato de vandalismo, ocorrido por volta das quatro horas da manhã. “É triste porque foi um fracasso que tem muita aceitação, muitas pessoas vinham ver e opinar sobre isso… Mas é para isso que servem os fracassos”, defendeu. Já a vice-presidente do governo de Valência e também ministra da Igualdade, Mónica Oltra, foi ao encontro do monumento vandalizado para mostrar o seu apoio à comissão. A responsável rejeitou “a violência sexista que simbolicamente” ocorreu, mas defendeu que na sociedade esta ocorre em “mulheres de carne e osso”. 

O plug anal de Paul McCarthy Em outubro de 2014, uma escultura em forma de plug anal - brinquedo sexual - gerou polémica em França, acabando também por ser vandalizada. Insuflável e intitulada de Árvore, a obra era da autoria do artista norte-americano Paul McCarthy, autor de uma outra escultura em forma de fezes e de uma outra de um Pai Natal com um pénis. A instalação havia sido fixada na Place Vêndome, o epicentro do luxo e do requinte parisiense no âmbito do percurso ‘Hors les Murs’ da Feira Internacional de Arte Contemporânea (Fiac). “Tudo começou com uma brincadeira. Apercebi-me que o plug anal tinha uma forma semelhante às esculturas de Brancusi, um célebre escultor italiano do século XX. A seguir, vi que se assemelhava a uma árvore de Natal. Mas não deixa de ser uma obra abstrata. As pessoas podem sentir-se ofendidas se a virem como um brinquedo anal, mas para mim é uma obra abstrata”, explicou na altura o cantor ao jornal francês Le Monde.

Segundo a mesma publicação, logo durante a fixação da escultura, o artista foi agredido. Um homem esbofeteou-o três vezes, gritando-lhe que não era francês e que a escultura “não representava nada naquela praça”. E, o grupo conservador “Printemps” concordou, afirmando que a escultura “desfigurou” a Place Vêndome e a cidade de Paris foi “humilhada” com o gesto do artista. Não tardou até que a obra tivesse sido “desinsuflada”, depois de alguém ter desligado a árvore da eletricidade. Segundo o The Guardian, “os indivíduos esperaram até ao guarda olhar para outro lado e cortaram os cabos que mantinha a estrutura no lugar”. Depois disso, a instalação não voltou a ser reerguida. 

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