O mundo em calções

O feio fim de um homem bonito

Nunca ninguém teve grandes dúvidas que o charmoso Koblet tomava todos os produtos dopantes que lhe vinham parar às mãos. 

O feio fim de um homem bonito

A beleza tem o seu quê (muito!) de subjetivo. Mas há sempre quem esteja disposto a dizer que algo ou alguém é bonito e ponto final, sem dar abertura a discussões. Foi o que se passou, com frequência na vida de Hugo Koblet – era um fulano bonito e mais nada. As mulheres que o dissessem, já que caíam, positivamente, a seus pés. Quantos homens quereriam estar na pele de Hugo, sobre o qual tombavam chuvas desse obscuro objeto de desejo, como diria Buñuel? Jock Wadley, um dos grandes jornalistas do seu tempo, habitual seguidor da Volta a França e da Volta a Itália, diria dele: «He was the most charming of men to talk to!». René de Latour, um franco-americano que dedicou toda a sua vida a fazer reportagens sobre ciclismo, conseguiu descrever o charme de Koblet por um prisma mais abrangente:

«Koblet não tinha inimigos. Nem um! O seu sorriso fácil e amável vinha do mais profundo de si próprio e todos sabíamos, desde o primeiro momento em que o conhecemos, que era um homem sem rancores, algo de muito raro para quem competiu ao mais alto nível nas estradas onde a intensa luta física conduz, quase inevitavelmente, à disputa e à inveja». Enfim, o mamífero não encantava apenas mulheres. Também fazia derreter o coração dos homens.

Hugo nunca foi alheio à vaidade. Os elogios sabiam-lhe bem, afagavam-lhe a alma, e ele aproveitava para se pentear com Byllcream, com o cabelo puxado para trás, e enfrascar-se de perfume com um dândi de Hollywood. Aos 25 anos, o filho de Adolf e Héléna Koblet, padeiros em Zurique, atingia o ponto mais alto da sua vida sobre duas rodas ao tornar-se no primeiro não-italiano a vencer o Giro d’Italia. Já não era paenas um gajo giro. Era um campeão. Algo que talvez não sonhasse quando se esforçava pelas ruas de Zurique com a sua pasteleira, distribuindo pão de saca em saca.

Aliás, convenhamos: desde garoto que tinha pinta de campeão, com o seu estilo muito particular. Só que, felizmente, para se ser campeão não basta ter estilo, se não Danny Zuko, ou melhor, John Travolta, teria sido campeão do mundo da brilhantina em 1978 com uma perna às costas, mesmo que isso não lhe desse muito jeito para dançar com a Olivia Newton-John debaixo de uma bola de espelhos. Enfim Koblet venceu a Volta a Itália, penteou-se com esmero, e entregou-se aos jornalista que escorriam água da boca por umas palavras suas. Prometeu que o melhor ainda estava para vir. E estava mesmo.

Em 1951, Hugo Koblet ganhou a Volta a França. A sua aura apagava o brilho de estrelas como Louison Bobet, Gino Bartalli ou Fausto Copi. Era aquela irreversível vantagem de ser um tipo bem apessoado que acabava as etapas tão fresco e penteadinho como se logo a seguir fosse dançar num baile de debutantes.

Jacques Trello, um cantor francês, aplicou-lhe um cognome à altura: ‘Pedaleur de Charme’, expressão utilizada em 2010 pelo diretor Daniel von Aarburg para titular uma longa-metragem dedicada à sua vida. O grande sedutor, que casou com uma modelo chamada Sonja Bühl, elemento estranho num mundo de homens brutos, o cavalheiro que cheirava a água-de-colónia em vez de tresandar a suor como os seus companheiros de estrada, fascinava qualquer um que se lhe chegasse perto.

Nunca ninguém teve grandes dúvidas que o charmoso Koblet tomava todos os produtos dopantes que lhe vinham parar às mãos. Era hábito generalizado no ciclismo do seu tempo e também ninguém nos avisou, entretanto, que esse mau hábito já acabou. Depois de uma longa viagem ao México, regressou à estrada e, apesar de um segundo lugar no Tour, nunca mais voltou a ser o mesmo. Houve quem culpasse as anfetaminas pelo seu apagamento. Mas não houve quem não alimentasse, com um motivo ou outro, o mistério do seu estado fantasmagórico. Recorreu a psiquiatras que não souberam explicar-lhe a alteração da sua identidade. Deixou a competição, instalou-se em Caracas, na Venezuela, como representante de marcas como a Alfa Romeo, a FIAT e a Pirelli. Dois anos mais tarde, regressou a Zurique em silêncio. Sonja ficou na América do Sul. Hugo arranjou um pequeno apartamento em cima de uma bomba de gasolina, mergulhou na depressão e foi inundado por reclamações de dívidas provenientes de todo e mais algum cabeça de porco. Em novembro de 1964, no dia 6, uma testemunha confirmou que o vira conduzir perigosamente o seu Alfa Romeo pela estrada que ligava Zurique a Esslingen. Contou que os movimentos da viatura eram erráticos e inseguros. Pouco tempo depois, o automóvel de Koblet foi encontrado esborrachado contra uma pereira. Hugo estava lá dentro. O peito rebentara no choque contra o volante, a cara estava desfeita por estilhaços do para-brisas, o coração deixara de bater. Tinha 39 anos. Quem olhasse para o seu cadáver não seria capaz de adivinhar que fora um homem bonito.
afonso.melo@newsplex.pt

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