O Mundo em Calções

Quando alguém, no Minnesota...

Mike pode ter sido melhor do que o seu irmão mais  novo, mas foi Tom que ficou famoso por conseguir estar no ringue durante 15 assaltos a fugir de Jack Dempsey.

Quando alguém, no Minnesota...

De cada vez que me deparo com a história de alguém no Minnesota vem-me à memória a voz de John Lennon: «Mind a young guy coming from his little town in Minnesota  [ele pronunciava Minneshota] just to catch a man that take his chicken out of him...». Uma espécie de entrada para, em seguida, contar a história do pobre Rocky Racoon. Também é verdade que raramente me deparo com histórias de gente do Minnesota, esse Estado dos US of A que fica colado ao Canadá, lá no norte, e tem fama de ser mais povoado por vacas do que por homens (e mulheres). Já a toponímia do local é mais romântica: mine, em língua sioux, quer dizer água e sota corresponde à expressão cor do céu. Águas cor do céu, portanto. Só lhe fica bem.

Além da enorme comunidade de gado vacum, o Minnesota possui também uma fortíssima influência irlandesa graças às vagas de emigrantes vindos lá da Ilha Verde. Os Gibbons, por exemplo, instalaram-se no território a partir de 1880 e produziram dois moços notáveis, Michael e Thomas, que tinham uma tendência irresistível para se meterem em cenas de pancadaria, saindo delas incólumes, sacudindo a poeira das mangas dos casacos de tecido ordinário.

Mike Gibbons aprendeu cedo o valor dos punhos e dos bíceps. Vítima de bullying nas ruas de Saint-Paul, a cidade que os pais escolheram para viver, juntou-se ao YMCA, a Young Men’s Christian Association, e tratou de se dedicar à prática do boxe de forma a deixar os metediços de nariz à banda. Não era por acaso que os Village People cantavam: «Young man, there’s no need to feel down/I said, young man, pick yourself off the ground/I said, young man, ‘cause you’re in a new town/There’s no need to be unhappy». Mike não tinha intenção de ser infeliz. Esmurrava quem quer que fosse com violência suficiente para aos 19 anos já ter abraçado a carreira profissional na classe de pesos-médios. Tinha um moto de vida: «Quando te encurralam num beco sem saída ficar lá aos murros durante uma hora não é a primeira coisa em que pensas». Algo que o levou a um estilo de combate imediato, procurando abater adversários aos primeiros golpes.

 A Irlanda é terra de trevos e não faltarão por aquelas bandas os de quatro folhas. Sorte. A sorte de Mike. Aproveitou o assassínio de Stanisław Kiecal, mais conhecido no mundo do boxe como Stanley Ketchel, varado na manhã do dia 14 de outubro de 1910 por um tiro de espingarda disparado à queima roupa por um pulha chamado Walter Dipley, para reclamar para si o título mundial de pesos-médios que estava nas mãos de Ketchel. Os responsáveis pelas competições mandaram-no dar uma curva ao bilhar grande, como seria de esperar, e isso foi o mais perto que o mais velho dos manos Gibbons esteve de ganhar qualquer coisa que se visse, embora continue a ser considerado pelos especialistas na matéria como um dos melhores boxeurs americanos de todos os tempos.

Nessa altura, o boxe profissional no Minnesota era clandestino. As apostas tinham sido proibidas em 1892 pelo que os combates se disputavam em caves soturnas nas quais o suor parecia escorrer pelas paredes perante um montão de gente que se acotovelava para poder espreitar os jabs e uppercuts dos opositores.

Tommy Gibbons foi, durante muito tempo, uma espécie de sparring-partner do mano mais velho, auxiliando-o nos treinos, imitando o seu estilo bamboleante que parecia provocado por uma preguiça congénita. Talvez ninguém desse nada por ele e todas as atenções estivessem viradas para o futuro brilhante que Mike prometia e para os muitos punhados de dólares que ia embolsando nos seus combates longe da ribalta. Na Irlanda, além de trevos, também existe ironia a rodos, e estão por aí os livros de George Bernard Shaw para nos recordarem disso para sempre. Só mesmo por ironia é que Thomas se tornou mais famoso do que Michael. E através de um episódio que levou a família à ruína.

Um grupo de proprietários e especuladores de Mount, uma terriola de mineiros no interior do Minnesota decidiu investir num combate entre Tom Gibbons e o campeão mundial de pesos-pesados Jack Dempsey. Um acontecimento sensacional mas que custou a ninharia de 300 mil dólares só para convencerem Jack a aparecer no ringue. Os Gibbons puseram a sua parte. Durante 15 assaltos, Tom andou a saltitar de um lado para o outro, fugindo dos terríveis punhos do Malhador de Manassa e sobreviveu para contar a história, embora não tenha ganho um tostão pelo risco que correu e tenha visto os seus financiadores caírem na falência. Para compensar, uns anos mais tarde, acabaria por ser eleito para o cargo de xerife de Ramsey County. Como os Village People tinham razão: «Young man, young man, pick yourself off the ground».

 

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