Viagem à Índia

'Michael, My brother'...

De repente a chuva em bátegas, gotas de água do tamanho de bagos de uva. É o céu que chora de alívio da canícula. E a Terra estremece por inteiro a começar pela base dos coqueiros...

'Michael, My brother'...

DR  


COLVA – Os pescadores de Kartanataka vão puxando os barcos para terra, para o maior conforto das dunas, escondendo-os entre coqueiros e palmeiras. Tão cedo não voltarão ao trabalho. «EEE-OOO-EEE-OOO»: há um que marca o ritmo à força de gritos e, agora, é a vez de o Jesus is my Saviour deslizar teimosamente sobre os troncos de árvore que definem o seu caminho contrário à teimosia das marés. Em Goa, em maio, cai sobre nós uma certa nostalgia. «End of season», queixa-se o Anthony. «Everybody’s gone». Ainda resisto mais uns dias, preso à proa do convés da sua cabana de madeira que entra decididamente pela praia com o orgulho de uma velha caravela. As monções estão a caminho, vão chegar no princípio de junho. O vento é bruto e morno, sopra de noroeste, vai trazendo nuvens e empurrando as correntes do Índico. Na praia não há turistas. Só pescadores que, ao fim da tarde, mergulham nas barracas de uma aldeola pronta a ser desfeita. Uma fímbria de sol espontâneo, fervente no calor que ultrapassa os 35 graus, uma quietude de fim de estação  de fim do mundo que só volta a viver lá para setembro ou outubro, logo se vê. O ritmo das seivas faz ia entrar em nós uma inesperada tristeza, como na Praia da Barra da minha adolescência, a esplanada vazia do Café Farol, os amores de agosto enterrados na areia, as gaivotas na esteira dos barcos que adentravam a barra do porto. Perpassa uma ternura entre os que ficamos. Estamos a despedir-nos. Não há ternura nos cães, flibusteiros do areal. Rosnam e mordem-se uns aos outros numa necessidade de posse. Ladram atrás dos porcos que brotam do mato, impõem-se às vacas sagradas que passeiam imponentes na rebentação das ondas. Só não mordem o esquema do silêncio, como diziam os madiés dos Olivais-Sul. Faz calor. Muito calor. Um calor de adeus e nada mais. Sem promessas. O mundo é mesmo assim tão pequeno que caiba todo numa simples memória? Numa página de jornal? Olho para a pia partida escondida debaixo do soalho da cabana na qual sou capitão de Colva, desobedecendo aos mostrengos dos Invernos. Vejo o Neves, lá nos Viveiros, dependurado num escadote a roubar as tampas das campainha que tocavam para os intervalo e o Roxo, o diretor: «O que é que você está aí a fazer?». E o Neves, respondendo como eu, neste preciso momento: «Estou aqui a compor...». Componho-me por dentro. À força. As mulheres entram no mar. Vestidas. Os saris e os sarongs enfunam-se em jeito de alforrecas gigantes de cores múltiplas – azul-aflito, verde-excitado, vermelho-gesticulante... A sensação palpável das cores.

Casamento fora de horas
No Longuinhos, aqui atrás, lugar mais finório de Colva, alguém se casa. A música aos berros. É um concurso. Subimos o volume também aqui. Mais do que um concurso: uma guerra. Mas nós estamos virados para o mar e contra o vento. Por isso, são eles a suportar aquilo que der na gana das nossas orelhas. Há vinte e dois anos, mais ou menos, que Colva passou a ser o lugar mais cândido daquele homem que já não sou se não aqui. Conheci o Michael Fernandes, meu irmão, sou família da sua família, padrinho da Abeni, sua filha, aprendemos a repartir a nostalgia: eu tenho, como quase todos, nostalgia do passado, ele tem uma soberba nostalgia de um futuro que para mim já é passado. Pois. Não é fácil de entender. Façam de conta que têm 17 anos, se é que já os não têm, e procurem qualquer coisa no fim da cada um dos vossos Verões como se fossem potes de ouro no fim de um arco-íris. Michael não é como o Daniel de Elton John, não caminhou para Espanha, sempre quis ser português, algo que ainda hoje não consigo entender. Se pudesse trocava com ele e era indiano. Também não é mais velho do que eu, como diz a canção, é dez anos mais novo. Mas tem as suas cicatrizes que falam à noite por entre esta batalha de colunas a atirar músicas de um lado para o outro das dunas que parecem trincheiras. Por mim, ficava assim: «Michael my brother you are not older than me/Do you still feel the pain of the scars that won’t heal?/Your eyes have died but you see more than I/You’re a star in the face of the sky».

Do fundo da madrugada não surge, sequer, a mais pequena de todas as estrelas. Há pouco, a Lua mostrou-se em forma de uma unha. Em C, portanto diminuindo. A Lua é mentirosa. Troca as letras conforme os quartos.

Estou aqui há mais de vinte anos, mas as raízes não me doem desde que começaram a crescer. A chuva desaba sobre nós em bátegas, súbita, cada gota do tamanho de um bago de uva. É  toda a Terra que se emociona num choro que faz estremecer os coqueiros pela base. O céu chora no alívio da canícula. Ou, se calhar, são apenas as nuvens dos meus olhos.

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