Opiniao

O Brasil vai bem

O Brasil vai bem

por Cleber Benvegnú*

Um pouco do que ocorre no Brasil se explica pelos fatos de hoje; mas muito se explica pelos fatos do passado. Um pouco se explica pelos fatos internos; mas muito se explica pelos fatos externos. Agora explicou eu: o processo de polarização e rivalização política que o país vive se personificou de maneira mais clara nas figuras de Lula e Bolsonaro nos últimos anos, mas vem sendo fomentado de antanhos. E segue, além disso, um receituário muito parecido à guerra de narrativa ideológica de outros países da América e da Europa.

A questão é que esse processo todo, aqui, eclodiu com alguns anos de atraso. As ideias de apropriação cultural, proposta por Antonio Gramsci, repousaram em nossas universidades, com mais vigor, nas décadas 70 e 80. A partir disso, criou-se uma incrível hegemonia cultural progressista nos vetores de formação da opinião pública nacional: academia, classe artística, movimentos de base da Igreja Católica, escolas de comunicação, aparelho judiciário, pedagogia, sindicalismo, funcionalismo público, ONGs (organizações não-governamentais) e jornalismo, dentre outros.

O governo militar, que cuidara de fazer estradas e grandes obras, não só perdeu a guerra da comunicação como deixou granjear a dinâmica cultural da luta de classes, do politicamente correto e de todas as pautas progressistas. A esquerda, enfim, açambarcou corações e mentes do país, praticamente esvaziando a riqueza da dialética política. A tal ponto que isso tomou uma pintura de status social, praticamente como uma condição para participar de certos círculos de decisão.

Tal processo de dominação foi tão bem acabado que, durante anos, as eleições presidenciais do país apresentavam apenas candidatos que se posicionavam da extrema-esquerda até, no máximo, a centro-esquerda. O PSDB, partido social-democrata de Fernando Henrique Cardoso, cumpria o papel de fazer essa contrabalança, em que pese tivesse uma cosmovisão semelhante à dos seus adversários. Tanto que o próprio Fernando Henrique revelou, mais de uma vez, sua simpatia ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao próprio Lula, que o sucederia na presidência. Sempre foi uma briga entre amigos do mesmo campo.

Mas, parafraseando nosso poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, «tinha uma pedra no meio do caminho» – e ela atendia pelo nome de Jair Messias Bolsonaro. Foi ele quem conseguiu personificar a rejeição a anos dessa supremacia. Beneficiário de uma reação que já aparecia em diversos cantos da sociedade brasileira – Bolsonaro teve a coragem de apresentar-se como catalisador desses valores de direita, por assim dizer. Soube compreender e vocalizar a alma majoritária de uma nação de base judaico-cristã, com um crescente componente evangélico e uma formação majoritariamente conservadora. Bolsonaro encontrou terreno já palmilhado por intelectuais como Olavo de Carvalho – especialmente ele – e por movimentos de formação de jovens em ideias conservadoras nos valores e liberais na economia.

Nesse contexto, foi peça fundamental o uso das redes sociais, cuja estratégia foi e é comandada por Carlos Bolsonaro, filho do atual Presidente. Mas a reação à esquerda, no Brasil, embora possa ter tido estratégia, nunca teve um comando central. Ela virou um levante genuinamente popular, por meio de uma experiência orgânica, voluntária, difusa e consistente de apoio e sustentação.

Tudo o que estamos vivendo agora, em grande medida, é rescaldo do que, essas poucas linhas tentou resumir. Todo um sistema de interesses e de poder, que estava montado e arquitetado sobre as bases anteriores, foi desmontado. Ruiu. A propósito: ruiu inclusive o sistema de corrupção que fomentou o escândalo de corrupção da era Lula. Claro que o entorno de Bolsonaro não está imune a erros e conchavos, mas é fato que, com ele, o jogo do poder trocou de mãos ou de configuração no Brasil – e isso trouxe sérias desacomodações e consequências.

O antigo sistema de poder esperneia, se movimenta; está incomodado. Parte dele, claro, como era de se prever, já se moldou e inclusive hoje serve e sustenta Bolsonaro politicamente. Todavia, parece claro que nada mais é como antes. O presidente brasileiro enfrentou a mídia, diminuindo suas verbas; enfrentou os sindicatos, diminuindo suas arrecadações; enfrentou a elite artística, diminuindo os recursos de incentivo aos famosos; enfrentou os partidos políticos tradicionais, formando um ministério majoritariamente técnico; enfrentou os barões do empresariado, tirando-lhes o monopólio do crédito estatal; enfrentou os bons modos, quebrando protocolos, liturgias e estabelecendo um canal direto com a população; enfrentou as ONGs europeias, reivindicando a titularidade da Amazónia; enfrentou a Justiça Eleitoral, questionando as urnas eletrónicas; enfrentou a visão estatista, abrindo privatizações e aprovando leis de liberdade económica; enfrentou a elite judicial, discordando publicamente de suas medidas; enfrentou as corporações públicas e privadas, tirando do prejuízo e lançando ao lucro as estatais do país. Da petroleira à empresa de correspondências, as empresas públicas saíram de rombos da era petista para lucros recordes na nova era. São apenas números e dados; constatações.

E o tal sistema, como era de se esperar, se moveu – às vezes com gestos desordenados, noutras com gestos claramente ordenados e coordenados. A demonstração mais clara disso é a anulação da condenação do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de ter sido preso por corrupção em julgamento com contraditório, ampla defesa e revisado em todas as instâncias. E mais: com provas robustas de enriquecimento ilícito pessoal, a ponto de ruborizar qualquer estudante inicial de Direito. Todavia, os ministros constitucionais escolhidos pelo próprio PT, de uma hora para outra, decidiram que nada mais daquele processo valia. Não só soltaram Lula como tornaram-no elegível. E agora os crimes prescreveram. É semelhante ao que vimos em Portugal, onde o também socialista José Sócrates teve aliviadas, as graves acusações contra si – e agora alega perseguição.

Temos no Brasil, portanto, o enfrentamento dos dois maiores líderes de massa das últimas décadas: Lula e Bolsonaro. Cada um ao seu estilo, eles falam ao coração do povo. Temos também o confronto de duas visões de mundo claramente diferentes. E temos, ainda, como tentei demonstrar, o levante de um gigantesco complexo de forças e interesses contra o atual Presidente da República – tanto que, apesar de exercer tal posto, semanalmente tem decisões tolhidas pela suprema corte do país. Foi impedido de escolher seu nome para a direção da Polícia Federal e, mais recentemente, até de baixar impostos.

O Brasil que muitas vezes a Europa não vê, portanto, tem bem mais do que as narrativas globalistas – e simplistas – tentam mostrar. Bolsonaro não é um político sem defeitos, tampouco comanda um governo sem defeitos. Mas o fato é que sua gestão e seu tempo histórico materializaram uma inflexão da cultura política brasileira e, ao mesmo tempo, um confronto bem delimitado. E se separar da análise toda essa disputa, naturalizando-a como parte do processo democrático, ainda sobrará um país que vacinou em quantidade e velocidade impressionantes, que cuidou da economia e dos mais necessitados durante a crise e que, com uma vocação inabalável para a produção de alimentos, está se abrindo cada vez mais para a inovação, as parcerias e os experimentos de futuro.

Não sem problemas, não sem suas conhecidas mazelas, mas o Brasil vai bem – inclusive porque sua perspetiva como Nação é ainda mais espetacular do que alcançou até aqui. A menos que decida retroceder.

 

*Jornalista, advogado e empresário – sócio-fundador da agência de reputação Critério. Analista de rádio e jornal, também foi Secretário-Chefe da Casa Civil do Rio Grande do Sul e Secretário da Comunicação do Estado do Rio Grande do Sul

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