O Mundo em Calções

Dez bascos sem garrafa de rum

Em 1934 o Brasil ainda não era apavorante como começou a sê-lo a partir de 1958. Quem era de horrorizar hipopótamos eram os uruguaios, campeões olímpicos e do mundo, e os argentinos, finalistas do primeiro de todos os Mundiais, em Montevidéu, quatro anos antes.

Dez bascos sem garrafa de rum

Zamora, o grande Ricardo Zamora, Ricardo Zamora Martinez de nome completo, guarda-redes que passou pelo Espanhol, pelo Barcelona e pelo Real Madrid com tanta elegância, tanta personalidade e tanto aplomb, como gostavam de dizer os personagens mais pomposos do Eça, que ganhou a alcunha de ‘El Divino’, parecia estar numa ilha.

Ricardo era catalão, natural de Barcelona onde nasceu no dia 14 de fevereiro de 1901. Tinha 33 anos e ainda era o Grande Zamora que levava uma boneca de pano para dentro da baliza como amuleto. Nesse dia 27 de Maio de 1934, olhava para o campo à sua frente e via Ciriaco Errasti, Jacinto Quincoces, Leonardo Cilaurren, Jose Muguerza, Martín Marculeta, Ramón de Lafuente Real, Jose Iraragorri, Isidro Lángara, Simón Lecue e Gorostiza. Uma equipa tremenda! Quase que a fazer lembrar Robert Louis Stevenson e a Ilha do Tesouro: «Fifteen men on the dead man’s chest-/...Yo-ho-ho, and a bottle of rum!/Drink and the devil had done for the rest-/...Yo-ho-ho, and a bottle of rum!».

Não havia nenhuma garrafa de rum, mas o avançado-centro Guillermo Gorostiza Paredes, um mamífero de ombros largos e peito enfunado, que abria defesas como se fosse uma quilha de um barco, não teria recusado um copo ou dois. Afinal, não foi por acaso, que morreu de cirrose aos 57 anos. Também não eram quinze homens sentados no caixão de um morto, eram onze, e o morto não se deixava matar com facilidade já que era uma seleção do Brasil que contava com gente de categoria como Leônidas da Silva, Heitor Canalli e Waldemar de Brito. Tirando Ricardo Zamora, a equipa da Espanha, conhecida pela Fúria, era composta por dez jogadores bascos. A vitória seria especialmente festejada em Guipuzcoa. O ambiente no país não era saudável. Adivinhava-se a terrível Guerra Civil que aí vinha e que acabaria por matar mais de meio milhão de pessoas.

O jogo teve lugar na Via Giovanni di Prà, em Génova, no bairro de Marassi e no Estádio Luigi Ferraris, antigo capitão do Genova e herói da I Grande Guerra. Oitavos-de-final do primeiro Mundial de Itália. A Espanha-Basca venceu por 3-1, dois golos de Iragorri, um de Gorostiza e um de Leônidas da Silva, a quem os brasileiros atribuem a invenção do pontapé de bicicleta, ainda que sejam contrariados por todos os sul-americanos que falam castelhano que decidiram conceder, nem de propósito, essa honra a um basco, Ramón Ignacio Unzaga Asla, nascido em Deusto, Distrito n.º 1 de Bilbao, e que emigrou para o Chile com 14 anos, acabando por jogar no Escuela Chorera e no Club Fúbol Estrella del Mar. Por isso é que o pontapé de bicicleta tem a alcunha de chilena.

Em 1934 o Brasil ainda não era apavorante como começou a sê-lo a partir de 1958. Quem era de horrorizar hipopótamos eram os uruguaios, campeões olímpicos e do mundo, e os argentinos, finalistas do primeiro de todos os Mundiais, em Montevidéu, quatro anos antes. Mas o Uruguai, cujos dirigentes levaram bastante a mal a Itália não ter estado presente no seu Campeonato do Mundo, respondeu com uma digníssima ausência. E a Argentina, cujos dirigentes levavam muito, mas muito, a mal a insistência dos italianos em nacionalizarem jogadores argentinos, como Enrico Guaita e Raimondo Orsi, que tinham jogado a final do Mundial anterior, apresentou-se com uma equipa de segunda-apanha. Para a Itália de Mussolini, nada melhor. Acabou por ser campeã do mundo com naturalidade e uma ou outra ajudazinha arbitral. Para o futebol em si, foi pena, porque os sul-americanos tinham um estilo de jogo muito particular e arrebatadamente ofensivo. Algo que de nada serviu ao Brasil pois também a Espanha tinha um estilo muito particular e não se chamava Fúria por acaso e sim pela forma exuberante como lutava por todas as bolas durante todos os minutos.

Era provável que Ricardo Zamora, o catalão, não se sentisse completamente confortável naquela seleção em que só ele não era basco. O sentido de independência dos bascos sempre foi muito aceso e Zamora viria a cair, em breve, na pior das armadilhas, tornando-se numa espécie de boneco-propaganda do Nacionalismo de Francisco Franco, aceitando alegremente a Ordem da República e a Gande Cruz da Ordem de Cisneros das mãos do próprio Caudillo. É verdade que chegou a representar a seleção da Catalunha, mas nunca foi firme na defesa dos ideais catalães e conseguiu somar em seu redor bastantes antipatias quando se tornou guarda-redes do Real Madrid, símbolo maior do poder da capital. Nem a bonequita de trapos lhe valeu. 

Gorostiza, pelo contrário, vestiu sempre com orgulho a camisola do País Basco, sendo uma das figuras da seleção basca numa muito falada viagem à União Soviética durante a Guerra Civil, quando o futebol parou em Espanha. Deve ter sido algo de inesquecível para Guillermo, um grande aficionado do vodka. Por ele, que se lixasse o rum. O fígado não foi da mesma opinião.

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