O mundo em calções

Um salto demasiado alto para Gretel

Poucos dias antes da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, Margaretha bateu o recorde alemão.

Um salto demasiado alto para Gretel

O telefone de Gretel tocou a horas tardias. Estranhou quando ouviu a voz do outro lado do fio falar alemão. Há dois anos que se encontrava a viver em Inglaterra e só o pai ou a mãe é que lhe telefonavam falando a língua materna. Ou, neste caso, é melhor dizer paterna. Não que a mãe não fosse alemã. Era sim, chamava-se Paula Stern de nome de solteira e casara com um comerciante: Edwin Bergman. Mas a política comunicacional na Alemanha insistia no termo Vaterland, Terra-do-Pai, pelo que fazia sentido que a língua também mudasse de género.

Gretel era o diminutivo de Margarethe. Tinha nascido em 1914, numa cidadezinha do Baden-Württemberg que ficava na confluência da estrada que ligava Ulm a Ravensburg;Lauphein. Dedicara-se desde muito miúda ao atletismo, sobretudo ao salto em altura, e conseguiu, pelo Ulmer SV, ser campeã da Alemanha do Sul, saltando 1m51. Isto foi no ano de 1931. Em 1932, voltou a conquistar o mesmo título. Ninguém tinha muitas dúvidas que estávamos perante a melhor saltadora germânica e que esta viria, um dia, a bater o recorde do mundo.

Gretel Bergmann tinha um problema muito grave para quem viva na Alemanha no início dos anos 30: era judia. E quando o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei subiu ao poder, em Janeiro de 1933, sob a mão de aço de um fulano sem escrúpulos e de bigodinho grotesco, a imitar Charlie Chaplin, a sua vida nunca mais voltou a ser a mesma. O Ulmer SV despachou-a, fechando as portas a todos os atletas judeus. Valia que Edwin atingira um patamar económico bastante satisfatório e conseguiu mandar a filha estudar para Inglaterra. Estudar e saltar: em 1934 tornou-se campeã de salto em altura das Ilhas Britânicas. Elevara a fasquia para 1m55.
Margharetha não gostou do tom de voz ríspido que escutou ao telefone nesse príncipio de noite, em Londres. Mas as instruções eram simples e não davam direito a serem contrariadas. O Ministério do Desporto da Alemanha ordenava-lhe que viajasse até Berlim para se juntar à equipa olímpica alemã que seria a mais completa e numerosa que iria participar nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Gretel limitou-se a engolir em seco. Foi-lhe transmitido explicitamente que a sua não comparência valeria represálias aos pais. Por isso, apanhou um avião e voou.

Adolf Hitler e o seu estratega, Joseph Goebbels, estava determinado a fazer dos Jogos de Berlim uma bandeira que anunciasse a todo o universo a modernidade da nova Alemanha e a força imparável dos atletas de raça ariana. Quando o presidente do Comité Olímpico Americano, Avery Brundage, começou a demonstrar publicamente o seu receio pelo tratamento de que seriam alvo os atletas americanos negros ou judeus, avançando com a ameaça de não comparência da equipa americana em Berlim e lançando a ideia de que os Jogos deveriam ter lugar noutro país sem os preconceitos rácicos da Alemanha nazi, o bigodinho ridículo tremeu de raiva. Adolf ainda não declarara guerra ao mundo inteiro e ainda não estava completamente enlouquecido pela noção (falsa) de a sua vontade ser incontornável. Por conselho de Goebbels, fez com que os principais figurões da organização desportiva alemã convidassem e recebessem Brundage e os seus acólitos para que pudessem ver, ao vivo, as condições excecionais em que as Olimpíadas iriam decorrer, testemunhando que a tão propalada ideia de evicção racial protagonizada pelo seu governo não passava de um tigre de papel. Um grupo de bem-postos senhores americanos deslocou-se a Berlim, ficou satisfeito com o que viu, e até foi informado de que havia atletas judeus na equipa olímpica alemã. Bem, se não havia, não tardaria a haver.

Gretel tornou-se, assim, após um simples telefonema, uma poderosa arma de arremesso para Gobbels. Obedecendo a um programa de treinos preparado para ela ganhou o campeonato de Württemberg em 1935 e, no dia 30 de Junho de 1936, na véspera do início dos Jogos, bateu o recorde alemão do salto em altura atingindo a marca de 1m60, a sua melhor até então. Os serviços de propaganda nazi foram pródigos na forma como fizeram chegar a Inglaterra, a França e, sobretudo, aos Estados Unidos, a sua grande pedra no sapato, os ecos dos êxitos de Margaretha, a rapariga judia que representava a Alemanha talvez, afinal, não tão racista quanto isso.

A quinze dias da cerimónia de abertura, Goebbels entendeu que Gretel era dispensável. Podia ser a melhor saltadora em comprimento do país, com boas hipóteses de ganhar medalhas, mas tinha esse terrível defeito de ser judia. Por isso recebeu uma carta simples e direta: fora banida da equipa por desleixo. Dora Ratjen ficou com a responsabilidade de elevar o nome da Alemanha na modalidade. Infelizmente para ela e para Adolf, veio a descobrir-se mais tarde que era um homem que tinha sido criado como rapariga. O seu nome desapareceu dos arquivos, tal como o de Gretel.
afonso.melo@newsplex.pt

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