Internacional

Humilhação eleitoral deixa Macron sem ter para onde se virar

A direita tradicional, fragilizada, hesita em associar-se a um Presidente tão impopular. A esquerda radical ameaça com uma moção de censura e a extrema-direita já proclamou o óbito político de Macron, cuja agenda legislativa fica pendurada.


Emmanuel Macron nem teve tempo de processar a sua humilhação nas eleições legislativas deste domingo, passando a ressaca da noite eleitoral a procurar desesperadamente apoios. França está à beira da ingovernabilidade, tendo a coligação que apoia o Presidente francês, que sempre sofreu de impopularidade crónica, ficado a 44 deputados de uma maioria absoluta. Deixando o espetro político fraturado e a agenda legislativa de Macron pendurada.

O Presidente francês não tem muito para onde se virar. De momento tenta aproximar-se da direita tradicional, representada por Os Republicanos, que conseguiram eleger 61 deputados. Contudo, mesmo estes não parecem nada entusiasmados com a ideia de se juntar a Macron.

Afinal, trata-se de um partido que tem vindo a sofrer duras quebras com o fim do bipartidarismo francês. Enquanto Os Republicanos tentam tornar-se de novo a cara do conservadorismo francês, associarem-se numa coligação com Presidente tão impopular não é considerado um cenário provável. Além de que este partido está partido ao meio, entre os moderados que poderiam virar facilmente pró-Macron e a ala dura. Não espanta que o próprio presidente de Os Republicanos, Christian Jacob, tenha anunciado que pretendem “ficar na oposição”. Uma possibilidade apontada, para evitar uma crise interna no partido, seria a abstenção.

Já a imprensa francesa tem citado fontes próximas do Presidente a sugerir que, caso não consiga montar uma coligação, este poderá convocar eleições antecipadas. O certo é que quaisquer esforços para obter parceiros parlamentares serão dificuldados pela queda de dois dos seus operadores políticos mais experimentados, o ex-ministro do Interior Christophe Castaner bem como o próprio presidente do Parlamento, Richard Ferrand, que foram derrotados nos seus círculos eleitorais, acabando escorraçados da Assembleia Nacional, o Parlamento francês.

 

A vitória dos extremos

Tudo indica que os dois grandes vencedores da noite eleitoral – uma coligação verde e vermelha apelidada Nova União Popular Ecologista e Social (Nupes), assim como a Reunião Nacional (antiga Frente Nacional), de extrema-direita – não têm vontade nenhuma de se coligar com Macron.

No que toca à Nupes, encabeçada por Jean-Luc Mélenchon, teve uma estreia estrondosa, conseguindo uns incríveis 131 deputados. Esta coligação, bem consciente da fragilidade do “arrogante” Presidente francês, nas palavrs de Mélenchon até já ameaçou o Governo com uma moção de censura. Afinal, o Executivo “não pode simplesmente continuar como se nada se tivesse passado”, declarou Manuel Bompard, um dos deputados eleitos pelo Nupes.

Já a extrema-direita, que obteve uma subida significativa, chegando aos 89 deputados, declarou o óbito político de Macron. “Agora é um Presidente minoritário”, frisou. Notando que “este é um evento histórico” e que “o seu plano de reforma das pensões foi enterrado”.

Num país conhecido pela energia dos seus protestos e onde os direitos laborais são sempre um tema quente, a oposição à proposta de reforma das pensões do Presidente francês, que pretendia aumentar a idade de reforma dos 62 para os 65 anos, é uma das poucas posições que o Nupes e a Reunião Nacional têm em comum. A extrema-direita quer que a idade de reforma se mantenha como está, enquanto a esquerda radical até quer descê-la para os 60 anos.

 

O adeus de ministros

A humilhação de Macron foi agravada pela derrota de vários dos seus ministros, que perderam os seus postos de deputados e logo tiveram de se demitir do Executivo. Foi esse o caso da ministra da Saúde, Brigitte Bourguignon, do ministro do Mar, Justine Benin, assim como da ministra do Ambiente, Amélie de Montchalin, que fora vista como uma das grandes promessas do Governo de Macron.

Na prática será a primeira vez que um Presidente francês se vê obrigado a governar com uma maioria relativa desde a década de 1980, nos tempos de François Mitterrand. Contudo, também foi uma noite eleitoral histórica por outros motivos, como pela eleição de Rachel Kéké, de 47 anos, que conseguiu o feito de se tornar a primeira empregada das limpezas eleita como deputada francesa.

“Eu sou a voz dos sem voz”, declarou a nova deputada do Nupes, nascida na Costa do Marfim. “Sou empregada de quartos, sou empregada de limpeza, agente de segurança, auxiliar de saúde, assistente ao domicílio, sou todas estas profissões invisíveis. E na Assembleia Nacional, estas profissões serão visíveis”, assegurou Kéké, que se destacou durante uma greve de 22 meses das empregadas de quarto do hotel Ibis Batignolles em Paris, entre 2019 e 2021, exigindo melhores condições laborais e salários. É uma “guerreira”, descreveu-se a nova deputada francesa. Que ainda por cima conseguiu bater uma antiga ministra do Desporto, Roxana Maracineanu, no círculo eleitoral Val-de-Marne, na segunda ronda das legislativas, por 50,30% dos votos contra 49,70%.

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