O Mundo em Calções

A paixão pelas montanhas da Águia de Toledo

Bahamontes foi o primeiro espanhol a vencer a Volta a França e ainda é considerado o maior trepador de sempre

A paixão pelas montanhas da Águia de Toledo

Alejandro comeu fome.------- Como escreveu sobre ele José Carlos Carabias: «Bahamontes representa un viaje al centro de la vida, al pasado de un país, a la guerra, el hambre y el deporte que se practicaba por rabia y honor». O desporto de Alejandro Martín Bahamontes foi o ciclismo. Chamavam-lhe a Águia de Toledo. Quando era muito miúdo, todos o tratavam por Martín em Santo Domingo-Caudilla, onde nasceu no dia 9 de Julho de 1928.

Depois, a mãe, Victoria, no dia do seu batismo, mudou de ideias em relação ao nome. O Alejandro caiu e ficou Federico, por causa do tio, o patriarca da família. O pai, Julián Martín, fora herói da Guerra de Cuba, demasiado velho para ser recrutado para a Guerra Civil Espanhola que não tardou a rebentar. Alejandro, agora Federico, não gostava de armas nem de guerra. Engajado pelas forças nacionalistas de Toledo, onde estudava num colégio de freiras, conseguiu escapulir-se.

Tornou-se um desertor. Mas manteve-se vivo. Foge para Madrid com a família. É a vez de Julián ser alistado à força pelo Exército Republicano como Cabo de Intendência. Federico vive escondido entre mulheres: a mãe, as tias e as irmãs habitam uma cave reles na calle General Molla. Quando a guerra acaba, regressam a Toledo com tudo o que têm albardado a uma mula. Serão camponeses numa herdade de nome Loches. 

Nos campos de Castilla-la-Mancha os garotos que atacam as oliveiras à força de varas fazendo tombar as azeitonas em lençóis largos de serapilheira são conhecidos como mochuelos. O trabalho é duro e de sol a sol. Fede faz de tudo: quando termina a apanha da azeitona, carrega com sacos de cereais às costas na Quinta de Mirabel; no Cerro de Los Palos é aprendiz de carpinteiro pela manhã e guardador de vacas pela tarde; no pouco tempo que tem livre, junta pedras e areia para reconstruir a casa dos pais junto ao Convento de San Pablo; comprou a sua primeira bicicleta por 30 duros.

«A maior das minhas mestras foi a fome!». Em Menasalbas, em 1947, participou numa prova de ciclismo: ficou em segundo. Um ano depois correu a Toledo-Puente del Guadarrama-Cabañas de la Sagra-Toledo. Era Julho e Castela fervia de calor e os horizontes bailavam em frente dos olhos dos homens como nos livros de Cervantes. Ganhou.

Levántate y mira la montaña/De donde viene el viento, el sol y el agua/Tú que manejas el curso de los ríos/Tú que sembraste el vuelo de tu alma», cantou trinta e alguns anos mais tarde Victor Jara, o poeta preso, torturado e assassinado pelos lacaios de Pinochet que atiraram o seu cadáver estropiado para uma sarjeta de uma favela de Santiago. Bahamontes mirava a montanha. A montanha era o lugar onde a Águia de Toledo sentia que precisava de pousar.

Na sua primeira Volta à França, em 1954, conseguiu vestir a camisola do Prémio da Montanha mesmo apesar de ter desfeito os raios da roda traseira da bicicleta no Col de la Romeyère. Parou na beira da estrada a comer um gelado enquanto esperava por ajuda. Deixou que o olhar se prologasse a todo o comprimento dos vales e voltasse a subir ao topo. Sentia-se em casa. 

Federico tornou-se um bom amigo do seu adversário italiano, Fausto Coppi. Certa vez convidou-o para ir caçar com galgos num terreno perto de Talavera de la Reyna. Fausto aproveitou o momento para lhe dizer: «Fede, pensas demais nas etapas de montanha, desgastas-te muito com elas. Concentra-te na corrida em geral. A montanha virá por acréscimo». Estávamos em 1959. Nesse ano, Federico Martín Bahamontes passava a ser o primeiro corredor espanhol a vencer o Tour.

Bahamontes é, ainda hoje, provavelmente o maior trepador da história da Volta à França. Ganhou essa modalidade oficial nas provas de 1954, 1958, 1959, 1962, 1963 e 1964, o ano em que pôs um ponto final na carreira depois de voado sobre o Tourmalet. Em 2013, quando se comemorou o Centenário do Tour, foi-lhe atribuída a distinção por votação de todos os jornalistas do L’Équipe. Abriu um loja de bicicletas em Toledo e continuou a receber cartas e cartas enviadas pelos seus aficionados de toda a Europa.

Às vezes chegavam com apenas uma indicação: «F. Bahamontes. España». Outras limitavam-se a vir com o desenho de uma águia pedalando uma bicicleta. Não havia funcionário da Sociedad Estatal Correos y Telégrafos que não soubesse ou não saiba quem é o grande Bahamontes. Aos 94 anos, continuamente impelido a ir ao encontro das montanhas cujas estradas dominava como nenhum outro nem antes nem depois dele, Bahamontes continua a pensar se terá sido a convicção da mãe de lhe mudar o nome de Alejandro para Federico que lhe abriu as portadas do sucesso. Mas, afinal, que importância tem um nome? A menos que ele seja Bahamontes.

Os comentários estão desactivados.