O mundo em calções

Imitando o homem que furava a água

 Às 4 e meia da manhã, dormia a sono solto quando os membros da organização palestiniana que montaram o ataque passaram silenciosamente à sua porta, que ficava ao lado dos quartos dos atletas da delegação israelita. 

Imitando o homem que furava a água

Houve um tempo em que nós éramos o rio. Ou melhor: confundíamo-nos com o rio. Se alguma coisa na minha vida custa a explicar é aquela sensação de Águeda em setembro quando o calor apertava à tarde e as noites começavam a chegar cada vez mais cedo. Nostalgia serve, mas é pouco, muito pouco. E a consciência de que algo se perdeu e não volta nunca mais. A irreversibilidade não devia fazer parte da vida. Mas faz. Não há mais nenhum de nós a mergulhar até ao fundo como Tarzan em busca de um crocodilo pérfido ou trepando a um choupo para vigiar as margens com a argúcia de Sandokan, o príncipe de Mompracem, a ilha-que-desaparecia. Não há mais o Afonso e o Zé Cura, nem o Grego, o Noronha e o Manholas, meninos do rio, senhores dos milheirais do Fojo, das Lavadeiras ou do Poço do Conde, donos particulares do sol a pino.

Houve um setembro em que tudo mudou. Apareceu um indivíduo de bigodinho à ator barato de filme pornográfico, ou talvez apenas à Burt Reynolds a fazer papel de brutamontes nas sessões de sábado do cinema CEFAS, que mudou o rio e, com ele, nós, os habitantes das correntes. O nome era agudo, inconfundível. Tão pontiagudo como o seu próprio significado: Spitz. De repente, já nenhu de nós queria mais ser Tarzan ou Sandokan, o Tigre da Malásia, desprezávamos os nossos próprios nomes e apelidos. Todos passámos a ser Mark Spitz e a querer imitar Mark Spitz, o homem das sete medalhas de ouro ganhas todas no mesmo dia, o dia 4 de setembro de 1972. O dia em que as piscinas do Sport Algés e Águeda, ali ao Redolho, com os seus tapumes de madeira a marcarem a distância de 25 metros, as fitas de pequenas boias de plástico vermelhas e brancas a marcarem da linha oito à linha um, que era aquela na qual não tínhamos pé, e onde o velho Bério nos gritava de um lado para o outro a tentar dar as suas aulas de natação no centro do mais completo caos, passaram a ser as piscinas olímpicas de Munique. Há nomes fundamentais, como dizia Nelson Rodrigues: «Vejam o caso de Napoleão. Alguém poderia ter um nome mais napoleónico?». Spitz: ninguém poderia ter um nome tão revelador de ser capaz de voar na água.

Agora, assim, à distância de cinquenta anos, ainda tenho mais dificuldade em escrever o que Mark Spitz, Mark Andrew Spitz, Mark the Shark, nascido em Modesto, na Califórnia no dia 10 de fevereiro de 1950, fez connosco nesse Setembro. O rio deixou de ser um local para brincadeiras e passou a ser o espaço perfeito para que cada um de nós imitasse os movimentos de Spitz até à quase perfeição. Não se tratava apenas de sermos rápidos, tratava-se do estilo, da elegância. Do estilo em qual quer estilo: crawl, bruços, costas, mariposa. Tratava-se daquele movimento em livres quando a cabeça mergulhava no espaço de duas respirações, brotando o monóxido de carbono para as águas, e só se erguia muito, muito ligeiramente, a fim de aspirar oxigénio pelo canto da boca. Tratava-se, em bruços, de erguer o dorso sobre a superfície, recurvado como uma concha de tartaruga, e baixá-lo em seguida com todo o peso do peito, largando o ar pelas narinas e aproveitando o impacto para ganhar mais uns milímetros. 

Spitz, quando era menino, não tinha o rio, tinha o mar, mas nós, em Setembro, já tínhamos trocados o mar da Barra pela candura do Águeda. Viveu em Honolulu, no Havaí, e mergulhava logo pela manhã em Waikiki Beach. «Atirava-se às ondas com um ânsia e uma vontade que parecia que pretendia suicidar-se», contava a mãe, Leonor. Em 1968, nos Jogos Olímpicos do México, já detinha dez recordes mundiais e prometeu ganhar seis medalhas de ouro. Teve de contentar-se com duas. Mais uma de prata e outra de bronze. Quatro anos depois, foi medalha de ouro em todas as provas que participou. Tinha 22 anos. 

Nessa madrugada dourada do homem de nome pontiagudo que furava as águas, um grupo de terroristas atacou a Aldeia Olímpica de Munique, o que conduziu à morte de vários atletas e treinadores israelitas. Spitz, que era judeu, tinha festejado até tarde. Às 4 e meia da manhã, dormia a sono solto quando os membros da organização palestiniana que montaram o ataque passaram silenciosamente à sua porta, que ficava ao lado dos quartos dos atletas da delegação israelita. Na manhã seguinte, comentou para as televisões: «É trágico!». Apanhou o avião seguinte para Londres e não quis saber mais do que restava dos Jogos. Não voltou a competir. Tinha cumprido todas as suas promessas, realizara os seus sonhos e os dos outros, não sentia vontade de continuar a bater-se por mais medalhas.

Afinal, fora único. Gostava dessa sensação. Desistiu também do seu futuro como dentista, passou por Hollywood para participar nuns filmes, ganhou muito dinheiro como empresário. Spitz: o nome encaixava-se-lhe como uma luva de pelica. Todo ele anos 70, desde o bigodinho-porno aos calções stars-and-stripes. Nós continuámos no rio até Setembro chegar ao fim, aperfeiçoando gestos dele. Depois, como sempre, oVerão passou. Com aquela nostalgia tão inimitável de Verões no fim...
afonso.melo@newsplex.pt

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