Internacional

Exercícios militares chineses em redor de Taiwan deixam Ásia em sobressalto

O Presidente da Coreia do Sul até fugiu de Nancy Pelosi, quando esta visitou o país, não fosse Pequim chatear-se. Já o Japão viu cair mísseis nas suas águas, enquanto os EUA cancelam exercícios nucleares.  


As águas em redor de Taiwan estão cheias de navios de guerra da China, que cercou este território. Colocando ainda mais de uma centena de aeronaves no ar, tanques anfíbios na praia, como se prontos a invadir, e disparando mísseis para o estreito, havendo até especulação na imprensa taiwanesa que alguns possam ter sobrevoado a ilha, algo que tem o seu peso psicológico. É o maior exercício militar que a China alguma vez fez, tendo Taiwan enviado 22 caças para tentar afastar aeronaves que se aproximaram demasiado, avançou a Reuters, e pondo os seus próprios sistemas de mísseis em alerta. 

Trata-se de um jogo perigoso, que pode muito facilmente correr mal. Ainda esta quinta-feira o Governo do Japão se queixou que cinco dos mísseis balísticos chineses foram parar à sua zona económica exclusiva, algo que nunca tinha ocorrido. Já o Pentágono, que tinha sido contra a ida de Nancy Pelosi a Taiwan, exatamente por estar bem consciente de que isso levaria a uma escalada da parte da China, tenta apressadamente diminuir as tensões.

A força aérea americana chegou até a adiar os testes de rotina dos seus mísseis balísticos intercontinentais Minuteman III, capazes de carregar ogivas nucleares, avançou o Wall Street Journal. Não fosse o seu lançamento, a partir de uma base militar na Califórnia, na costa do Pacífico, ser mal interpretado por Pequim. Da última vez que os Estados Unidos tiveram de adiar os testes dos Minuteman III, corria o mês de março, a Rússia acabara de invadir a Ucrânia e Vladimir Putin colocara os mísseis nucleares russos em estado de prontidão. 

Se de repente a China imita a Coreia do Norte, disparando mísseis para as águas dos outros, como acusou o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan, fá-lo em reação à visita da presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Levando até a que o próprio Presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol, evitasse encontrar-se com Pelosi durante a visita desta a Seul, avançou o canal sul-coreano TBS, havendo quem o acusasse de ceder a Pequim. É que os EUA podem ser um aliado crucial para a Coreia do Sul, mas a China é o seu maior parceiro económico. 

“Pelosi é a política número três nos EUA, e, se isto fosse no passado, o Presidente ou o ministro dos Negócios Estrangeiros teriam tentado reunir com ela”, considerou Kim Heung-kyu, director do US-China Policy Institute na Ajou University, falando ao Korea Times. “O Governo parece ter decidido não politizar excessivamente o assunto e antagonizar desnecessariamente a China”, explicou.

Consternação Em Washington, Joe Biden teve a posição de frisar o direito da dirigente democrata de visitar Taiwan. Dificilmente poderia ter feito outra coisa sem parecer que cedia perante ameaças de Pequim, ou sem antagonizar a ala democrata, da qual Pelosi faz parte, que exige que se seja mais duro com a China. Mas o facto de Pelosi ter decidido visitar Taiwan agora, quando a Casa Branca tentava convencer ou pressionar Xi Jinping a não ajudar o seu amigo Putin a contornar as sanções ocidentais, tem causado alguma exasperação na Casa Branca. Há semanas, desde que canais diplomárticos chineses foram postos a par, que conselheiros de Biden tentam pintar esta visita como decisão pessoal de Pelosi, avançou a CNBC.

Contudo, na arena internacional, as ruturas internas dentro da administração americana interessam pouco. De facto, a perspetiva da América quanto a Taiwan sempre foi confusa, tendo apostado na política de “uma só China” e na chamada “ambiguidade estratégica” desde que se reaproximou de Pequim, nos anos 70. Isso significa reconhecer teoricamente Taiwan como parte da China, enquanto facilita que este território, na prática, se mantenha um Estado soberano, com as suas próprias eleições, leis e políticas económicas. Ao mesmo tempo que os EUA se mantêm ambíguos quanto ao que farão caso a China invada, nunca se comprometendo explicitamente a defender Taiwan, mas sugerindo que talvez o façam.

Entretanto, na própria constituição foi explicitado que é um dever da Casa Branca dar meios a Taiwan para se defender, tornando-se naquilo que analistas descrevem como “porco-espinho”. Ou seja, uma ilha tão carregada de armas e mísseis americanos que dificilmente a China conseguiria invadir sem sofrer baixas pesadas. E se houve uma coisa que a guerra na Ucrânia ensinou foi a não subestimar o preço que se pode pagar por uma invasão, sobretudo quando se enfrentam estados com amigos tão poderosos quanto os Estados Unidos.

Entretanto, em Taiwan, é sabido que a pressão chinesa, que historicamente sempre foi uma constante, vai aumentar.
Além dos nervos causados por um exercício militar tão perto da sua costa, este território passou a estar sujeito a sanções ainda mais pesadas. Mais de uma centena de empresas taiwanesas foram proibidas de operar na China continental, tendo sido restringida a venda de areia e gravilha a Taiwan, algo essencial para este território que está no meio de um boom da construção, além de serem fundamentais para os semicondutores. E o receio é que Pequim escale a situação ainda mais, talvez até impondo um bloqueio à ilha. O que cortaria o mundo da indústria de semicondutores taiwanesa, que tem uns 90% da produção mundial dos chips mais avançados, algo com impactos económicos globais brutais.

A esperança de Taiwan é que, sem os seus chips, o próprio setor industrial chinês sofreria profundamente. Mas quem sabe se Xi não estará disposto a isso para sufocar este território porque anseia? É que apesar das tensões, Taiwan mantém a China como seu principal parceiro comercial, tendo as exportações taiwanesas para a China, em 2021, sido avaliadas no equivalente a quase 185 mil milhões de euros.

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