O Mundo em Calções

Um cavalheiro não faz batota

Se na América se jogava basebol desde 1839, o que torna o jogo quase pré-histórico, em Inglaterra ganhou um toque de popularidade quando, no ano de 1870, desembarcaram - positivamente já que viajaram de paquete - na Grande Ilha três equipas de prestígio como eram Boston Red Stockings, os Chicago White Stockings e os Philadelphia Athletics.

Um cavalheiro não faz batota

Os ingleses não são grandes adeptos do basebol, que deixam mais para os primos do outro lado do Atlântico, esses sim, capazes de fazerem de Babe Ruth ou de Joe DiMaggio figuras nacionais com direito a serem cantados por Edward Nelson - «Ruth! Ruth! Oh, you, Babe Ruth!/You are in all our themes…/Your kind face holds a place in every Yankee lad’s dreams/They love you/Your true sharp eyes of blue/Idol of all forsooth…» - ou Paul & Garfunkel - «Where have you gone, Joe DiMaggio?/Our nation turns its lonely eyes to you/Woo, woo, woo/What’s that you say, Mrs. Robinson?/Joltin’ Joe has left and gone away/Hey, hey, hey». Giuseppe Paolo DiMaggio Jr. bebia como uma esponja e fumava como uma chaminé. Acabou enterrado com um cancro no pulmão. George Herman Ruth Jr. acabou a vida no fundo de uma garrafa e foi enterrado com um cancro na base do cérebro. Para heróis da pátria, foi o que se pôde arranjar, mas não seria por isso que os ingleses não lhes dariam valor. Afinal se há povo dedicado à dipsomania ele vive do lado de lá do Canal da Mancha, logo a seguir às rochas brancas de Dover.

Dizem uns - há vários que recusam a tese - que foi um bombeiro natural de Nova Iorque chamado Alexander Cartwright que colocou pela primeira vez no papel as primeiras vinte regras de um jogo cuja organização foi promovida pelo Knickerbocker Base Ball Club of New York, clube do qual era presidente. Para o que aqui nos traz, está muito bem, dê-se o mérito a Mr. Cartwright, não vem daí mal à crónica. Entretanto, enquanto andava à procura das origens desse clube supimpa que é o Forest, de Nottigham, Robin Hood, Little John, Friar Tuck e por aí fora, deparei-me com o entusiasmo que os seus adeptos dedicavam ao basebol no final do século XVIII, orgulhando-se intensamente de terem sido campeões de Inglaterra em 1900. Aqui há gato, pensei para com os meus botões, embora não tivesse obtido deles nada mais do que um olhar contrariado saído de duas casas cosidas a fio. Ou melhor, há americano. E havia.

Se na América se jogava basebol desde 1839, o que torna o jogo quase pré-histórico, em Inglaterra ganhou um toque de popularidade quando, no ano de 1870, desembarcaram - positivamente já que viajaram de paquete - na Grande Ilha três equipas de prestígio como eram Boston Red Stockings, os Chicago White Stockings e os Philadelphia Athletics. O inglês mais popularucho, isto é, o que prefere futebol ao râguebi e ao críquete, deixou-se levar pelo entusiasmo dos rapazes que batiam numa bola com um pau cilíndrico em vez daquela espécie de raqueta muito monobloco que é o instrumento principal de um jogo que pode durar dois dias e tem obrigatórias paragem para que adversários se juntem debaixo de uma tenda para cumprirem o imperioso compromisso do chá.

Na sua complexa idiossincrasia pode dizer-se que um bom inglês não pode ver nada aos outros que não queira ter para si. Foi por isso que começaram por ser piratas e depois desataram a roubar países até fazerem um império no qual o sol nunca se punha, embora os Habsburgos já se gabassem disso antes deles. Lá está: até frases inteiras roubam, se para aí estiverem virados. Resolveram, dessa forma, arranjar um campeonato de basebol só para eles, convencidos (outra das peculiaridades da tal idiossincrasia) de que iriam promover um espetáculo nunca visto até aí. Pois, parece que há ingleses que não conseguem entender a idiossincrasia inglesa. A resposta foi, no mínimo piedosa. E o campeonato organizou-se, sim senhores, a partir de 1890, mas os ideólogos tiveram de se contentar com quatro clubes fundadores: o Aston Villa, o Preston North End, o Stoke e o Derby, todos eles com equipas de futebol e apenas o Derby com um campo em condições para se transformar naquele naco de pizza relvado sobre o qual o basebol se disputa. Era no Ley’s Recreation Center que ganhou o pomposo (outra nota idiossincrática) nome de The Baseball Ground.

Como a coisa não era para brincadeiras, cada jogador tinha direito a um salário de 15 Libras, mais uns pences para gastos, e o Derby chegou a contratar jogadores norte-americanos, o que não o impediu de perder a tal final de 1900 para o vizinho Nottingham que, entretanto, não quisera ficar atrás e decidira adotar a modalidade.

Foi, de certa maneira, uma vingança. Porque sob o comando do melhor jogador das Ilhas Britânicas, um tal de Dan Allsopp, o Derby vencera o Forest no ano anterior por 14-3. Dan era um bocado troca-tintas e por mais meia Libra trocou de clube levando os rapazes de Nottingham a um triunfo glorioso por 37-7. Com o Aston Villa acusado de praticar a batota de forma consecutiva nos seus jogos, o campeonato desacreditou-se e durou pouco. Nos anos 70 surgiria outra tentativa com o Forest transformado em Nottingham Lions. De nada valeu. «This is not our business, old chap!», comentariam os cavalheiros nos seus clubes. E um cavalheiro nunca faz batota. Ou pelo menos não é apanhado a fazê-la. «For God sake!».

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