Opiniao

O nosso amigo Santiago Bernabéu

Santiago Bernabéu tinha uma especial predileção por Eusébio, ficou com os olhos postos nele desde a final europeia de Amesterdão, tentou mais de uma vez contratá-lo para o Real Madrid.


Por Manuel Pereira Ramos, Jornalista

Em dezembro fará 75 anos que o Belenenses se deslocou a Madrid para participar no desafio inaugural do Estádio de Chamartin, perdeu 3-1 contra o Real, Pedro Escartin anulou-lhe um golo limpo e Cândido de Oliveira, enviado especial de A Bola, escreveu Magnifica exibição dos jogadores lisboetas como título da sua crónica. Apesar da derrota passou à história por ser a primeira equipa visitante a jogar num campo que se tornou famoso, que possui uma história invejável com inolvidáveis noites europeias e uma final dum campeonato do mundo, a casa que foi de Figo, Cristiano Ronaldo, Secretário e José Mourinho, o relvado onde Futre ganhou duas Taças do Rei e João Alves marcou um golo fabuloso que deu ao Salamanca a única vitória da sua história sobre o Real Madrid. Daqui a uns meses, quando concluam as obras, passará a ser o melhor e mais moderno estádio do planeta futebol e o Belenenses, o genuíno, poderá orgulhar-se de ter estado lá no dia do seu nascimento como o esteve no das suas bodas de prata.

A presença da turma de Belém nesse importante ato foi possível graças á deferência de Santiago Bernabéu que se empenhou em que, na grande festa, devia estar presente o então campeão de Portugal. Depois de ter sido jogador, treinador e dirigentes do clube, chegou à presidência e, no desempenho desse cargo, achou que era fundamental para o futuro da instituição dispor dum novo estádio onde pudessem entrar os cada vez mais numerosos adeptos, comprou uns terrenos que na altura estavam ainda fora da cidade, mandou fazer a construção e a finais de 1947 as portas abriram-se de par em par pela primeira vez. Sete anos mais tarde o recinto foi melhorado, a sua capacidade aumentada e, embora contra a sua vontade, Santiago Bernabéu consentiu que ele fosse batizado com o seu nome que ainda hoje perdura e perdurará ao longo dos tempos e enquanto o Real Madrid existir. Construir o novo estádio foi uma grande amostra de visão do futuro, mas Bernabéu não ficou por aí, formou uma boa equipa de futebol com grandes jogadores entre os quais Alfredo Di Stéfano era a grande referencia e apoiou com todas as suas forças a criação da Taça dos Campeões Europeus que o Real Madrid conquistou cinco vezes de forma consecutiva tornando-se no autêntico rei do futebol europeu. Paralelamente criou também a secção de basquetebol que, como o futebol, proporcionaria ao clube grande número de títulos tanto domésticos como internacionais, com tudo isto Santiago Bernabéu foi um presidente ímpar que, quando faleceu em 1978, deixou atrás de si um trabalho extraordinariamente bem feito reconhecido ao mais alto nível do desporto mundial.

O Benfica também teve o seu ‘homem do estádio’, o presidente Joaquim Ferreira Bogalho que lutou tudo o que pôde para conseguir que a Câmara Municipal cedera os terrenos, que inventou mil formas para juntar dinheiro para construir o Estádio da Luz e que não parou até chegar aos festejos da inauguração, em dezembro de 1954, e dos que fizeram parte um desafio amigável contra o Real Madrid que aí esteve com todas as suas grandes figuras e com Santiago Bernabéu, que ofereceu uma estatueta de D. Quixote, à frente da comitiva. Mas Bogalho fez muito mais do que isso, revolucionou o futebol do Benfica trazendo do Brasil a Otto Glória e também criou o Lar do Jogador, uma casa que servia de residência para os jovens jogadores, sobretudo para os vindos do Ultramar, que não tinham casa de família onde ficar. Aproveitando a sua presença em Lisboa, o presidente do Benfica convidou, orgulhoso, o seu colega do Real Madrid a visitar o Lar mas, aí, o caldo entornou-se, Santiago Bernabéu observou o ambiente e, ligeiro e sincero de palavra como sempre foi, vai e espeta à queima roupa «Lo que veo no me gusta nada, tantos chicos jóvenes juntos en una casa muchas horas sin nada que hacer es peligroso, un dia una miradita, al siguiente un paso más, perdona que te diga querido amigo, pero creo que esto es una fábrica de maricones, mientras yo mande, nada parecido se hará en el Real Madrid». Joaquim Ferreira Bogalho engoliu em seco, fez que não percebeu, não teve em conta o aviso e o Lar manteve-se durante mais duma década a cumprir as funções para o que tinha sido criado, Bernabéu, por seu turno, cumprindo a sua palavra, continuou a dispersar por pensões de Madrid os jogadores que, no inicio das suas carreiras, vinham provar a sua sorte no Real, situação que se manteve até que, há bem pouco, o clube construiu, na cidade desportiva de Valdebebas, um edifício com quartos duplos, cinema, auditório e salas onde os jovens futebolistas, obrigados a estudar, assistem às aulas que lá lhe vão dar os professores, um autêntico luxo.

Santiago Bernabéu tinha uma especial predileção por Eusébio, ficou com os olhos postos nele desde a final europeia de Amesterdão, tentou mais de uma vez contratá-lo para o Real Madrid, o jogador gostava da ideia mas não o deixavam sair, sendo impossível a transferência, Bernabéu convidou-o, em compensação, para jogar, com o Real, contra o Belenenses no desafio dos 25 anos de vida do estádio que foi, ao mesmo tempo, de despedida de Paco Gento e deslocou-se propositadamente a Lisboa para, a 25 de setembro de 1973, assistir à festa de homenagem prestada ao ‘Pantera Negra’, deu-lhe uma bonita prenda e esteve acompanhado pelo treinador Miguel Muñoz que dirigiu o Misto Mundial que nessa noite defrontou o Benfica. 

Uma noite, em Madrid, D. Santiago salvou-me a mim e ao saudoso Carlos Pinhão, de uma situação bastante complicada. O Carlos que tinha ido para fazer a crónica para A Bola dum desafio importante apercebeu-se, à entrada, que se tinha esquecido da credencial de jornalista, já não dava tempo para ir ao hotel buscá-la e não havia nem uma só entrada nas bilheteiras, nisso estávamos sem saber que fazer quando, de repente, vemos ao nosso lado a Santiago Bernabéu, contei-lhe a nossa desesperada situação e ele tranquilizou-nos: «Venham comigo, queridos amigos portugueses» e levou-nos para um camarote muito mais cómodo e melhor situado que o destinado à imprensa. Mas a sua sempre grande amabilidade não lhe impediu de, em defesa dos interesses do Real Madrid, pregar uma partida ao Benfica. Foi na Primavera de 1974, o clube português procurava treinador e escolheu a Miljan Miljanic com quem o presidente Borges Coutinho chegou a acordo, tudo estava apalavrado e só faltava a assinatura do compromisso, Bernabéu soube disso e mandou com urgência ao secretário da direção, Agustin Dominguez, a Belgrado, com plenos poderes para contratar o técnico jugoslavo. Dois dias depois Miljanic já assistiu ao Atlético-Real Madrid no Vicente Calderón e aí passou-me a mensagem que quis enviar aos benfiquistas: «Estou muito agradecido ao Benfica por se ter interessado por mim, teria sido uma grande honra ser seu treinador, mas peço-lhes que compreendam que o Real Madrid é o Real Madrid», o Benfica teve de conformar-se e dar a outro jugoslavo, Milorad Pavic, a direção técnica da equipa, uma maldadezinha de Santiago Bernabéu que não chega, nem de longe, para ensombrecer a grande amizade e admiração que sempre teve para com Portugal e os portugueses.

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