Sociedade

Turistas recebidos em Belém com tapumes

Os jardins da Praça do Império, no coração turístico de Lisboa, continuam entaipados ao fim de um ano de obras. E a câmara ainda não tem uma data certa para devolução do espaço aos lisboetas e seus visitantes.


Após a polémica dos brasões florais, que já foram definitivamente retirados da Praça do Império, em Lisboa, a verdade é que as obras de restauração continuam e não há ainda um prazo para a sua conclusão naquela que é uma das zonas mais nobres para o turismo da capital.

Confrontada pelo Nascer do SOL, a Câmara Municipal de Lisboa avança que os tapumes deverão ser retirados lá para outubro ou novembro. Mas não se compromete com uma data.

Fonte da CML reconheceu, porém, que houve trabalhos que não estavam previstos que tiveram de ser realizados, contribuindo para a derrapagem dos prazos.

Também o presidente da Junta de Freguesia de Belém, Fernando Rosa, não tem ainda a certeza de quando a Praça será reaberta ao público na sua plenitude.

«Ontem de manhã, fiz um ofício para a CML, para o Presidente, com conhecimento dos vereadores Ângelo Pereira e Diogo Moura. Queria que me confirmassem a data exata da cerimónia de inauguração e se já estariam lá os brasões em pedra da calçada», começa por explicar, em declarações ao Nascer do SOL, Fernando Rosa. «Em princípio, o que está combinado é que será cumprido aquilo a que a CML se comprometeu connosco e a Nova Portugalidade. Impediu-se que se substituísse o nome para Praça da Lusofonia e que se mantivessem os brasões em pedra da calçada. Vamos avançar com isto porque é uma característica de Lisboa, vai ser património da UNESCO e era engraçado, pelo menos, ficarmos com esse tipo de brasões que estavam antigamente em flores (agora em arbusto). Assim já não dá problemas com a manutenção».

«Empenhámo-nos nisto. Foram feitas duas moções e a CML decidiu ceder. Foi importante a comunicação social não ter deixado isto morrer. Com todas as coisas boas e más, foi uma época de Portugal e deve ficar perpetuada através dos brasões. O que está mais bem tratado é o da Ordem de Cristo. Inclusivamente, há quem pense que é do Belenenses!», diz, admitindo que tem esperança de que o projeto se mantenha como delineado.

«Estou muito contente. Houve uma altura em que esta luta esteve quase perdida. A CML fez marcha atrás e aceitou as nossas sugestões. Espero que a inauguração aconteça já com os brasões porque são parte integrante da Praça do Império. Ainda ontem de manhã enviei um email para pedir a confirmação oficial. Estava previsto, antes da Avenida da Índia, numa estrada entre essa e a Praça do Império, nesse sítio estava previsto um montinho de relva... Porque permitia que os cidadãos estivessem ali sem ruído, sossegados», recorda o autarca.

«Por exemplo, quem estivesse nos Jerónimos não via o mar, a vista ficava tapada! A obra, na totalidade, tem o valor de 900 mil euros. É claro que não estamos a falar apenas dos brasões, mas sim de toda a Praça. Quanto à Junta de Freguesia de Belém, temos as deliberações todas. A política é a arte do possível: por isso... Acharam que era uma rendição nossa termos aceitado a substituição, mas não», sublinha o presidente da Junta.

 

Um tema que nunca foi consensual

Como o Nascer do SOL noticiou em setembro do ano passado, há exatamente um ano, a reprodução dos brasões em calçada portuguesa foi a solução proposta por Sá Fernandes, antigo vereador do Ambiente, Clima e Energia, Estrutura Verde e Serviços Urbanos, ao movimento Nova Portugalidade. Outra das hipóteses em cima da mesa era a colocação de placas com os brasões.

O certo é que os brasões florais, últimos exemplares da escola de jardinagem de Lisboa, foram mesmo arrancados e não voltam lá.

À época, já esta polémica se arrastava, sendo que milhares se insurgiam contra o projeto de restauração daquela praça de referência na zona de Belém. Entre as muitas personalidades que assinaram as petições contra a remoção dos brasões florais incluem- -se os ex-Presidentes da República António Ramalho Eanes e Aníbal Cavaco Silva, mas também o ex- -primeiro-ministro e ex-presidente da Câmara de Lisboa Pedro Santana Lopes ou o antigo ministro Bagão Félix e o sociólogo António Barreto. Ramalho Eanes e Cavaco Silva não assinaram a petição da Nova Portugalidade, mas ambos manifestaram apoio público à causa: «A Praça do Império é, toda ela, uma homenagem à gesta dos Descobrimentos, feito de que os Portugueses se devem orgulhar. Portugal soube manter uma amizade sólida com os países de expressão portuguesa, baseada no respeito mútuo e numa cooperação continuamente aprofundada. Espero que se tenha o bom senso de recuperar e preservar os brasões florais que evocam a memória da nossa presença Além Mar e devem ser hoje celebração dessa proximidade entre países irmãos», dizia, em fevereiro de 2021, Cavaco Silva. Já Ramalho Eanes, ao i, esclarecia que apesar «de não assinar petições», demonstrava-se solidário com a causa da Nova Portugalidade, discordando do projeto da autarquia

Como o Nascer do SOL destacara igualmente, o sociólogo António Barreto, também em fevereiro do ano passado, deixara duras críticas às intenções da CML, considerando uma demagogia querer refazer-se o jardim mas não «demolir o Mosteiro dos Jerónimos», considerando que existe um «universo de abdicação da História, da sua negação, quando devia haver era um enorme esforço de fazer cada vez mais História e mais rigorosa». Barreto observava ainda como «durante 100 anos se falava da escravatura como uma vantagem, com orgulho, e é verdade que a escravatura não merece o menor orgulho» mas «aconteceu».

 

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