Cultura

Smetana e Fauré: Os heróis do silêncio

Fazem com Beethoven (que é Beethoven e, por isso, um caso à parte) a trilogia dos grandes surdos da música clássica. A doença, provocada num e noutro por motivos diversos, não os impediu que continuarem a compor até aos dias das suas mortes.

Smetana e Fauré: Os heróis do silêncio

É preciso ter percorrido uma, duas, três, vinte vezes os corredores de um manicómio para se perceber que não é apenas um lugar de loucos, é o lugar onde todos se libertam dos seus fantasmas e assumem as suas geralmente variadas personalidades. Quem não entra lá louco tem todas as probabilidades de sair de lá louco. Quem entra lá louco tem todas as possibilidades de sair de lá morto.

Beethoven (ou Ludwig Van, como o tratava Alex, a personagem psicopata de Stanley Kubrik em Laranja Mecânica) foi apedrejado nas ruas de Viena como se louco fosse, só porque fazia gestos largos nos quais estava escondida a música que ia compondo enquanto caminhava, a música que a sua surdez o impedia de ouvir. Mas sentia-a. E de que maneira.

O Grande Surdo foi único em todos os sentidos e, por isso, liberto-o de estar presente nesta crónica de corpo inteiro, recorrendo a ele apenas como personagem etéreo que paira sobre dois outros grande compositores que, como ele, terminaram as suas carreiras e as suas vidas numa espécie de oco do mundo. (Aliás, enchi aqui várias páginas sobre ele aquando do 250º aniversário do seu nascimento).

Beethoven pode ter passado por louco, ter levado com umas pedradas atiradas por fedelhos que não eram capazes de entender a tremenda grandeza daquele homem vestido com displicência e cujo cérebro fervilhava de combinações geniais, mas nunca esteve internado num manicómio como Bredrich Smetana, que nasceu no dia 2 de Março de 1824 – 124 anos após Ludwig Van –, em Litomyšl a leste de Praga, junto à tradicional fronteira entre a Boémia e a Morávia, não escapou às grades da casa dos loucos.

Aquele que terá sido, muito provavelmente, o maior compositor checo de todos os tempos – com licença de Antonin Dvorák, não por acaso um dos seus voluntariosos seguidores -viu-se mergulhado na incompreensão daqueles que o rodeavam a partir de Setembro de 1874. Tinha apresentado há bem pouco tempo a sua ópera mais recente, As Duas Viúvas, e voltara a provocar dissidências entre os melómanos do seu tempo. Se muitos lhe devotavam uma enorme admiração e respeito, também houve críticos capazes de publicar em jornais frases assassinas como esta: «Smetana faz com que a ópera checa nos aborreça de morte pelo menos uma vez por ano». Ou seja, cada vez que as trazia a público.

Smetana foi um revolucionário e não há revolucionário que não faça medrar ódios em seu redor. Depois de concluídos os seus estudos musicais na Escola Premonstratensian de Plzeň, preparado para surpreender o mundo com a sua arte, ficou a saber que o pai, Frantisek, perdera grande parte da sua fortuna e que não havia mais dinheiro à disposição para levar uma existência exuberante como até então.

Estávamos em Agosto de 1843 e Bedrich (que é o nome checo para Friedrich) pôs-se a caminho de Praga com 20 florins no bolso, e teve a arte e o engenho (e a cunha da mãe rica de uma moça que namoriscava) para se tornar aluno do mestre Josef Proksch, que lhe ensinou as bases da composição e o apresentou a gente da craveira de Lizt e Berlioz, bem como Robert e Clara Schumann.

Foi no ambiente que conspirava contra o poder totalitário dos Habsburgos que Smetana preparou as suas primeiras obras e, como tal, deixou que se impregnassem desse tom de rebeldia que tinha o maior exemplo na escrita de Ján Kollár, o poeta húngaro que escreveu A Canção da Liberdade. As raízes revolucionárias dessa malta jovem e entusiasta foi esmagada pela intervenção do exército imperial comandado pelo príncipe de Windisch-Grätz. Bedrich, que fora apanhado a erguer trincheiras na Ponte Carlos, foi desprezado pelos defensores da ordem estabelecida e viu-se, positivamente, na rua.

Entretanto, com apenas quatro anos, o pequeno Gabriel Urbain Fauré fazia os familiares e as visitas lá de casa, em  Pamiers, Ariège, sul de França, ficarem embasbacados como peixes fora de água com a sua habilidade majestosa para a música, tocando piano como um adulto, logo ele que nunca tivera ninguém que o ensinasse. Um autodidata, portanto. Sexto filho do casal Toussaint-Honoré Fauré e Marie-Antoinette-Hélène Lalène-Laprade, tal como Smetana nascera rodeado de dinheiro.

Com a diferença que continuou rodeado por ele ao longo da vida. Impressionados com a verve da criança, os pais enviaram o jovem Gabriel para Paris estudar na École de Musique Classique et Religieuse, mais famosa pelo nome de École Niedermeyer, fundada pelo músico Abraham Louis Niedermeyer. Pelo caminho, o nosso extraordinário Ludwig Van já tinha morrido há vinte anos. Completamente surdo, de tal ordem que mandara cortar as pernas ao piano para que quando tocasse ou compusesse pudesse encostar uma orelha ao chão e sentir a vibração dos sons que produzia.

O desgosto de Bredich

Bredrich Smetana tinha encontrado em Franz Lizt um compagnon de route, embora, ao contrário do que ele esperava, o enorme pianista húngaro nunca se mostrasse disposto a emprestar-lhe nem um florim para que abrisse a escola de música que era o seu grande projeto.

Apesar disso, abriu um estúdio que tinha capacidade para receber dez alunos e foi-se tornando um cada vez maior apoiante das ideias independentistas checas em relação ao Império Áustro-Húngaro, o que não o impediu de aceitar o cargo de pianista da corte do arquiduque Fernando. O dinheiro falava mais alto e ninguém prepara suculentas refeições temperadas com idealismo. Chegou mesmo a compor A Sinfonia Triunfal, dedicada a Fernando, que este teve o descaramento de recusar por sentir que não tinha uma melodia que a aproximasse do hino austríaco.

A partir de 1854, a vida de Bredrich Smetana começou a correr francamente mal em todos os aspetos. Primeiro, morreu a sua segunda filha, Gabriela, de tuberculose; no ano seguinte, foi a vez da mais velha Bedřiška, de escarlatina, com apenas quatro anos, e que era o seu grande  orgulho por demonstrar uma muito precoce habilidade para o piano. Smetana verteu o duplo desgosto numa peça para esse mesmo instrumento, um Piano Trio em Sol Menor e viu o desgosto ser ainda mais amargo quando a crítica simplesmente arrasou o seu trabalho.

Mas Deus, se é que ele existe, ainda não tinha acabado a sua tarefa destrutiva em relação a Bredich: enquanto a sua mulher, Katerina, era diagnosticada com tuberculose, a quarta filha do casal, também Katerina, que acabara de nascer, foi igualmente levada pela sinistra Senhora da Gadanha.

Estávamos em Julho de 1856. Parecia que nada poderia correr pior ao pobre Smetana, ainda um rapazinho de apenas 32 anos. A sua carreira era basicamente desprezada, consideravam-no um compositor débil e sem grande atrevimento, ao ponto de Bredrich ter escrito aos pais esta simples nota de adeus: «Praga não me quer. Vou tentar a vida em Gotemburgo».

A opção pode ter sido estranha, mas a verdade é que a Suécia recebeu Smetana de braços abertos e ele ganhou de um dia para o outro o reconhecimento que nunca lhe tinham dado no seu país. Mas gente continuava a morrer em seu redor, primeiro o pai, Frantisek, depois a mulher, Katerina, que não tardou a substituir por uma das suas maiss atraentes pupilas, Fröjda Benecke, da qual se tornara amante mal chegara a Gotemburgo. Compunha muito. Macbeth e asBruxas, Étude in C, Hakon Jarl, tendo remodelado a sua Sinfonia Triunfal. Distribuía o seu tempo entre a Praga que o desprezara e a Suécia que o amou. Ao ponto de, em Abril de 1861, ter sido convidado para uma sessão de peças suas ao piano na presença da família real sueca, em Estocolmo.

Durante esse tempo, Fauré entretinha-se a colecionar prémios atrás de prémios na sua escola parisiense. Era naturalmente dotado para o piano. Encontrou um professor de luxo em Camille Saint-Säens e fomentou com ele uma amizade que perdurou até à morte deste último que foi igualmente seu sogro.

Depois de concluir os estudos, aceitou o cargo de organista na igreja de Saint-Sauveur, em Rennes, na Bretanha, e tornou-se, por sua vez, professor de alunos avulsos. Faltava-lhe fé. Algo que incomodou profundamente o padre de Saint-Sauveur, que tratou de o dispensar rapidamente, bem como o responsável pela igreja de Notre-Dame de Clignancourt, a norte de Paris, para onde foi sob as graças de Saint-Säens e não aguentou mais do que meia-dúzia de semanas. A guerra Franco-Prussiana tinha eclodido e Gabriel não teve pejo em oferecer-se para o serviço militar, batendo-se na frente de batalha com tamanha coragem que, no final do conflito, recebeu a Croix de Guerre.

A derrota da França, o avanço da Comuna, as convulsões sociais, tornaram Paris um lugar pouco seguro para se levar uma vida sossegada própria de um compositor. Fauré foi viver para a Suíça. Na altura as suas obras distinguiam-se claramente dos compositores do seu tempo como Gounod ou César Frank, que se lançavam nas elegias e nas odes patrióticas. Só mais tarde é que a música de Fauré ganhou uma aura dramática, como em L’Absent, Seule! e La Chanson du Pêcheur. Em 1871, Gabriel estava de volta a Paris para ser chefe de coro da Église Saint-Sulpice e para fundar a Société Nationale de Musique.

A sinistra ameaça

Uma ameaça sinistra pairava sobre os dois compositores que haviam regressado a casa. Bedrich Smetana começou a sentir um insuportável som de apito contínuo, algo que terá sido provocado por um acidente na infância com a explosão de um pacote contendo pólvora a poucos metros de distância. Entregou-se nas mãos dos mais eminente otorrinolaringologistas de Praga, mas os sintomas agravavam-se com a idade.

A deficiência atingiu tal gravidade que se viu obrigado a demitir-se do seu último emprego, maestro do Teatro Provincial. Estava absolutamente surdo do ouvido direito. Duas das suas composições na altura, que titulou como Da Minha Vida, atingiam sons extremamente agudos e alguma anarquia numa passagem que deveria representar um baile de camponeses com o acorde de Mi do primeiro a ser tão gritante que muitos consideraram que Smetana estava a tentar reproduzir o som que o atormentava a toda a hora. Tornou-se num homem confuso.

Os distúrbios mentais foram-se acumulando, tinha dificuldade em reconhecer caras, a fala foi afetada ao ponto de entrar em afasia. A incoerência envolveu-o. Deixou de andar e de falar, tinha ataques de fúria e alucinações constantes. Foi internado no manicómio de Kateřinky e morreu no dia 12 de Maio de 1884. A causa da morte foi registada como demência senil, mas os amigos mais próximos sabiam que ele contraíra a sífilis uns anos antes. Praga chorou a sua morte esquecendo a ingratidão a que o devotou.

Dois anos após a morte de Bedrich Smetana, Gabriel Fauré ocupava o cargo de chefe organista da Madelaine mas não demorou muito a tomar o lugar de professor no conservatório substituindo Jules Massenet. Teve muitos alunos célebres, como Maurice Ravel, Florent Schmitt, Charles Koechlin, Louis Aubert, Jean Roger-Ducasse ou George Enescu. Ser presidente do conservatório era um passo inevitável, mas deixava Fauré cada vez com menos tempo para compor. Ainda por cima começou a ter graves problemas auditivos.

Quando terminou a ópera Pénélope e um ciclo de concertos aos quais chamou La Chanson d’Ève, as dores já se tinham tornado insuportáveis e não conseguia distinguir as notas umas das outras tal como se dentro do seu cérebro habitasse uma cacofonia contínua.

Em 1920, incapaz, teve de abandonar o cargo que ocupava. Lutava furiosamente para conseguir levar até ao fim o seu Quarteto de Cordas à medida que ia ficando cada vez mais surdo e mais frágil fisicamente. Fumava como uma chaminé, o que também não ajudava grandemente, pelo contrário. Terminou a obra dois meses antes de morrer mas recusou terminantemente a oferta feita por alguns dos seus alunos para tocá-la exclusivamente para ele. A música, razão da sua existência, doía-lhe demais. Uma pneumonia veio, violenta, e matou-o. No dia 4 de Novembro de 1924, desaparecia da face da Terra mais um dos heróis do silêncio. 

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