Cultura

The Script no Campo Pequeno. A noite em que a música foi "a nossa verdadeira religião"

Volvidos quatro anos do último concerto, e um ano depois do regresso prometido - que não aconteceu devido à pandemia -, os irlandeses encantaram Portugal com êxitos como "Breakeven" ou "For The First Time", mas também músicas não tão conhecidas do grande público.

Bruno Gonçalves
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Por Maria Moreira Rato (Texto) e Bruno Gonçalves (Fotografia)

“A música é a nossa verdadeira religião. Ela não quer saber de quem somos. Daquilo em que acreditamos. De quem amamos”. Esta é uma frase que Danny O’Donoghue, vocalista dos The Script, costuma dizer frequentemente e, na noite de ontem, esta descreveu perfeitamente a atmosfera vivida no Campo Pequeno. Em que aproximadamente 6 mil pessoas, das mais variadas idades e nacionalidades, se juntaram para ouvir a banda irlandesa que conta com 14 anos de carreira, tendo lançado o primeiro single, “We Cry”, em 2008.

Depois da jovem Joana Almeirante se ter apresentado em palco naquele que foi, nas suas palavras, um sonho que concretizou e um palco que queria pisar há muito, Danny e o baterista Glen Power, assim como os restantes músicos, sendo a ausência do guitarrista Mark Sheehan notada, principalmente pelo clube de fãs português, a banda que já vendeu, pelo menos, mais de 30 milhões de álbuns – segundo a contagem oficial de 2017 –, começou a noite com “Superheroes”, do álbum “No Sound Without Silence” (NSWS), de 2014, garantindo aos portugueses que “quando se luta por algo durante uma vida inteira, quando nos esforçamos para que algo corra bem”, aprendemos a voar como um superherói. E, assim, “a cada dia, a cada hora, transformamos a dor em poder”. No final, presentearam a audiência com “Rain”, de “Freedom Child”, de 2017, que tem ritmos latinos que animam qualquer público (tendo tido direito a um guarda-chuva aberto numa das primeiras filas!).

Após Danny ter dito que tiveram o “fucking best for last” [o melhor no fim da tour], chegou a vez de refletirmos acerca da Jenny, “uma menina pobre que vive num mundo rico. Deu o nome Hope à sua bebé quando tinha apenas 14 anos e esperava um mundo melhor para a mesma, mas a maçã não cai muito longe da árvore”. Parece que estamos a contar uma história, no entanto, este é o poder da narrativa que encontramos em quase todas ou mesmo todas as canções dos The Script. Nesta mesma música, temos mais exemplos: como o de Mary, que queria pertencer ao mundo da polícia, “que sonha com isto desde que era pequena”, sendo “que pensou que podia mudar o mundo, sempre a tentar abrir caminho para as mulheres num mundo masculino”. O problema? “A vida aconteceu: casa, filhos, dois carros”, um marido que bebe, o dinheiro “não vai muito longe” e, por isso, Mary sabe que o seu salário “não chega muito longe”.

Regressámos a NSWS com “Paint The Town Green”, uma ode à Irlanda, em que passámos pelo rio Liffey, a Luas Line e muitos outros pontos estratégicos de Dublin com uma explosão de verde, com referências a Lisboa pelo meio, que fizeram todos sorrir e gritar ainda mais. “Agora vamos a uma música que nos trouxe até aqui e que é a razão para muitos de vós estarem aqui hoje”. Quando Danny se sentou no palco e se ouviram os primeiros acordes de “The Man Who Can’t Be Moved”, de “The Script” (2008), o álbum de estreia, a audiência estava ao rubro e preparada para cantar a plenos pulmões: “'Cause if one day you wake up and find that you're missing me / And your heart starts to wonder where on this earth I could be / Thinking maybe you'll come back here to the place that we'd meet / And you'll see me waiting for you on the corner of the street / So I'm not moving, I'm not moving”. É provável que a maior parte das pessoas a tenha cantado, pois é o segundo single da banda e atingiu posições extraordinárias, entre os anos de 2008 e 2010, nas mais variadas tabelas, como a US Billboard Hot 100 ou o Top 40 e o Top 100 dos mais variados países.

Quem não sabia ficou a saber que Danny conheceu Glen quando vivia em Los Angeles, ainda que, em Dublin, vivesse a cerca de dez minutos do agora melhor amigo. Nesse mesmo dia, Glen cantou músicas dos Bee Gees num karaoke e este facto chegou para que todos rissem com os pormenores do início da amizade entre ambos e, deste modo, o arranque do grupo juntamente com Mark. Mas entre a alegria e a melancolia o caminho não é tão longo quanto possamos achar e, por esse motivo, quando começaram a cantar e tocar “Before The Worst” o ambiente rapidamente se tornou mais “pesado”. E continuou quando decidiram cantar “If You Could See Me Now”, do álbum “#3”, de 2012, na audiência, mas Danny, descontraidamente, foi buscar uma imperial e os fãs rejubilaram. “So if you've lost a sister, someone's lost a mom / And if you've lost a dad, then someone's lost a son”, lembraram, e muitas lágrimas escorreram pelas caras de todos aqueles que ouviram com atenção cada palavra. Principalmente, neste período pós-pico pandémico em que tanta gente perdeu tantos familiares e amigos para a covid-19.

Desafiando a The Script Family, Danny perguntou, como habitualmente, se alguém permitiria que ligasse ao/à ex-namorado/a. Caroline (talvez Carolina?) deixou que Diego (provavelmente Diogo? Só Danny e a rapariga nos poderão revelar os verdadeiros nomes) falasse com Danny e a audiência entrou em apoteose a entoar “Nothing”, de Science & Faith (2010), antes de se juntarem, mais uma vez, como uma família, para fazerem os The Script entender que não estiveram, não estão nem jamais estarão sozinhos. Depois desse momento, foi a vez de se dar destaque a “Something Unreal”, de Sunsets & Full Moons (2019): “My heart has been rewired / I've been living online / There's ideas of living Lord / But this ain't mine, it's pretend / Lord, oh, it's pretend, yeah”.

Foi durante estes minutos de confissão em formato musical que Danny ganhou coragem para, posteriormente, partilhar que a pandemia constituiu um período em que se apercebeu dos vícios e problemas que tinha e, igualmente, das pessoas boas que tem em seu redor. Curiosamente, seguiu-se “Arms Open”: “I can't uncry your tears / I can't rewind the time / I can't unsay what's said / In your crazy life / My love, my arms are open” e a quantidade de casais e amigos que se abraçaram e beijaram foi impressionante e emocionante. Voltámos a 2008 com “Talk You Down” e a 2010 com “For The First Time”, e a vontade de ouvir muitas mais músicas era tanta que quando a banda agradeceu aos portugueses pelo carinho e amor demonstrados, foi cantado repetidamente: “Oh, these times are hard / Yeah, they're making us crazy / Don't give up on me, baby”.

E os irlandeses não desistiram. Voltaram ao palco do Campo Pequeno com “No Good In Goodbye”, sempre enérgicos, e não se esqueceram de começar o remate final com a icónica “Breakeven”, um dos seus maiores sucessos. “Obrigado por um fim tão incrível da nossa tour. Precisava mais disto do que vocês. Adoramo-vos tanto! Obrigado por tudo”, realçou Danny, antes de terminar com “Hall Of Fame” e pedir que cada pessoa pegasse no telemóvel apenas para ligar a lanterna e, com o resto da The Script Family, criar um mar de luminosidade. “Cada luz representa uma pessoa que sente dor, que sente prazer…”, explicou, depois de ter despido e atirado o colete, transmitindo, como já é seu apanágio, que todos somos iguais independentemente das nossas pequenas diferenças.