Internacional

Após protestos, megacidades chinesas aliviam confinamento

Em Cantão há menos restrições, apesar do surto continuar. Pode servir com uma experiência social para uma reabertura, apontam virologistas.


Sob pressão de multidões furiosas, as autoridades chinesas já desapertaram o confinamento em duas megacidades: Chongqing e Cantão, que têm mais de 18 e 31 milhões de habitantes, respetivamente. O controlo do regime de Xi Jinping sobre a sociedade chinesa enfrenta um desafio sem precedentes.

Em Cantão, na noite anterior à cedência das autoridades, chegou a haver confrontos violentos com a polícia de choque, que avançou sobre manifestantes protegidos por escudos e fatos brancos contra a ameaça biológica. Vídeos mostravam a multidão a derrubar barreiras de confinamento e a retaliar atirando objetos contra a polícia. Depois, mais de uma centena de agentes tomaram de assalto este bairro confinado, contou uma testemunha à France Press, saindo de lá com vários detidos.

Por mais que as autoridades chinesas o neguem, tudo indica que terá sido a raiva dos habitantes a levar ao alívio das restrições em Cantão. O motivo certamente não foram considerações epidemiológicas, dado a megacidade estar a enfrentar o seu pior surto desde o início da pandemia, com quase sete mil novos casos de covid-19 registados na quarta-feira.

Mesmo assim, as autoridades locais anunciaram o fim das sucessivas rondas de testes massivos na cidade, levantando os confinamentos nos distritos de Haizhu, Baiyun, Fanyu, Tianhe, Conghua, Huadu e Liwan. Em Conghua as escolas até voltarão a abrir para ensino presencial. avançou, avançou a Reuters, voltando ainda poder-se ir a estabelecimentos como restaurantes ou cinemas.

Já o distrito onde decorriam confrontos violentos com a polícia esta terça-feira, Haizhu, continuará em confinamento. Algo que certamente dará muito jeito à polícia chinesa perseguir os moradores que se revoltaram.

O desapertar do confinamento em Cantão – em simultâneo com Chongqing, no sudoeste do país, onde será permitido que contactos próximos daqueles que derão positivo à covid-19 passem a sua quarentena em casa, em vez de ir para centros de isolamento – parece ser indicador de uma mudança brusca da posição do regime chinês. Que tinha insistido na sua política de “tolerância zero” perante a covid-19 por ordem de Xi.

“Acho que vão fazer um teste aqui em Cantão e ver se funciona, se mesmo  que façam menos testes em massa e não executem confinamentos tão estritos ainda assim conseguem manter a covid-19 sob controlo”, explicou Jin Dong-yan, virulogista da Universidade de Hong Kong, em declarações ao Financial Times. “Se funcionar podem tentar fazer o mesmo noutras cidades”.

Afinal, desde sexta-feira – quando um incêndio causou pelo menos dez mortos em Ürümqi, incluíndo crianças, havendo alegações que as vítimas não conseguiram escapar por as saídas de emergência estarem fechadas devido ao confinamento – que se assiste a atos de desobediência civil por toda a China, a uma escala sem precedentes durante o reinado de Xi.

Ainda esta terça-feira as autoridades chinesas mandaram os estudantes do ensino superior para casa, para evitar que as universidades continuassem a ser um ponto de encontro para dissidentes, enchendo de polícia as ruas de Xangai e Pequim. Uma demonstração de poderio contra “forças hostis” por trás dos protestos, nas palavras do órgão encarregue da segurança do partido comunista, que pediu mão dura, avançou a agência Xinhua.

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