Desporto

Quando ir ao chão é uma virtude

Luís Vasconcelos é economista de profissão e campeão do mundo de jiu jitsu por paixão. Em Abu Dhabi, mostrou ser o melhor na arte suave de ir ao chão.

Quando ir ao chão é uma virtude

por João Sena

O jiu jitsu é uma arte marcial com origem no Japão, que ganhou forma de competição no Brasil e, agora, tem um campeão mundial português. Luís Vasconcelos viajou até aos Emirados para vencer  na categoria -120 quilos e conquistar a medalha de ouro. Dominou a arte do kickboxing, foi tricampeão nacional, antes de passar, em 2018, para o jiu jitsu, onde venceu tudo o tinha a vencer. O lutador português considera esta modalidade «uma arte mais exigente do que o boxe e o kickboxing» e muito importante para a formação da personalidade «é um desporto muito técnico, que exige foco e poder de concentração. Por outro lado, o atleta ao trabalhar para ser o melhor ganha importantes ferramentas para a vida».

Considera-se um «viciado em desporto e atividade física» e admite «para mim é fundamental ter um objetivo competitivo». Quando deixou o kickboxing foi a uma aula experimental de jiu jitsu e ficou cliente «gostei imenso e paguei as mensalidades para o ano inteiro. É uma atividade física levada ao extremo e não me deixa desviar para outros problemas do dia a dia». A adaptação foi relativamente fácil devido à sua apurada preparação física «estive no corpo de fuzileiros e sempre fiz muitos treinos de força pura. Percebi que neste desporto a força é fundamental, por muita técnica que o meu adversário tenha, eu com a força consigo controlá-lo», mas salienta «no futebol, um jogador falhar um golo e não tem grandes consequências, em desportos de combate o erro pode causar uma lesão cerebral ou um braço partido».

 

Campeão sem esperar

Foi desafiado pelo seu treinador, Bruno Borges, a participar naprincipal  competição internacional do ano, que reuniu representantes de todos os continentes, e onde se sagrou campeão do Mundo na categoria -120 quilos. Qualificaram-se para o torneio de Abu Dhabi os melhores lutadores de cada categoria dentro de cada país. «Venci o campeonato nacional e isso garantiu-me o apuramento». Cada combate tem cinco minutos de duração e, no final, ganha o lutador que tiver mais pontos, a não ser que alguém seja forçado a desistir. As coisas começaram a correr bem logo à chegada. Como havia número ímpar de atletas na categoria – 120 quilos, a organização decidiu passar o lutador português diretamente para as meias-finais porque era o que tinha mais pontos acumulados nas provas nacionais. No combate das meias-finais defrontou o atleta dos Emirados Árabes Unidos que tinha literalmente ‘atropelado’ o lutador da Roménia. «Quando cheguei ao tapete tremi e pensei duas vezes na minha vida. Além de ser o atleta da casa, tinha dois metros de altura e pesava 117 quilos». Apesar do adversário ser assustador, venceu o combate «graças à estratégia do meu treinador. Disse-me tudo aquilo que devia fazer e funcionou, apliquei um golpe na garganta e venci por sinalização». No final do combate, o atleta dos Emirados quis falar com Luís Vasconcelos «achei estranho ele estar feliz, apesar de ter perdido em casa. Explicou-me que pertencia às forças especiais dos Emirados e a sua profissão era representar o país na luta jiu jitsu. Além disso, por ter sido medalhado na prova principal ia receber um prémio três mil euros, duas semanas de férias e regalias para a família. Se tivesse conquistado a medalha de ouro recebia um automóvel». Na final, lutou com o atleta do Cazaquistão e conquistou a medalha de ouro «não estava à espera de ganhar» admitiu, e a partir de agora tem objetivos bem definidos «quero manter o título nos próximos três anos».

A realidade jit jitu em Portugal é completamente diferente daquela que se vive em outros países. Há uma federação que não é tutelada pelo IPDJ por opção própria. «Qualquer federação para ser reconhecida pelo Estado tem de ter utilidade pública desportiva e isso garante verbas, só que depois não há escrutínio e as pessoas gerem o dinheiro como querem porque o IPDJ não fiscaliza. Por esse motivo, a federação de jiu jitsu não pediu, nem tem interesse em ter utilidade pública desportiva» explicou Luís Vasconcelos.

O facto de não existirem apoios oficiais é ultrapassado com engenho «os lutadores têm um ego enorme e toda a gente quer ser o melhor do mundo, mesmo que pague do próprio bolso. Todos os atletas têm a sua profissão, eu sou economista, e tentam arranjar pequenos patrocínios. Há um Prize Money para quem ganha provas internacionais, ou seja, andamos o ano inteiro a pagar as provas nacionais para depois irmos ao Mundial e tentar recuperar esse investimento. Estamos a lutar contra profissionais, numa modalidade profissional, mas somos totalmente amadores», e deu o seu exemplo «fui às minhas custas e tive de meter dias de ferias para poder competir», salientando ainda a «dificuldade em conciliar vida profissional com a vida desportiva». Luís Vasconcelos defende que o «Estado devia fomentar a modalidade através de uma maior cobertura mediática dos eventos e de apoio logístico, uma maior exposição podia trazer mais apoios».

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