Manuel Cargaleiro. Ceramista e pintor português

'Não acredito na criatividade, acredito no trabalho!’

O seu nome está marcado na história da cerâmica, não só em Portugal, como em toda a Europa. O seu estilo faz dele um artista singular e colorido, apesar de afirmar que ‘artistas são os outros’. Hoje, aos 95 anos, e uma mão cheia de prémios e condecorações, continua a pegar no barro e nos pincéis com a mesma paixão. 

'Não acredito na criatividade, acredito no trabalho!’

DR  


Foi homenageado nesta segunda-feira pela Câmara Municipal de Lisboa, com a atribuição da Medalha de Honra da Cidade. Este é um dos muitos reconhecimentos do seu trabalho. Como recebe estas condecorações? Sente que as tem recebido de maneira diferente com o passar dos anos? 

Não muda muita coisa. Acho que esta homenagem que me foi prestada pela Câmara Municipal de Lisboa, no fundo, fala pela capital. A Câmara representa a população de Lisboa. Estão aqui os meus amigos, as minhas pessoas… Está aqui uma vida de mais de 90 anos. Estas homenagens resultam de uma vida de dedicação. Apaixonei-me desde muito jovem pelo barro, pela cerâmica e depois pela pintura. Esta última, é uma atividade mais íntima, mais fechada, que atinge um público grande. Mas a cerâmica é pública. Tem tantas vertentes: a cerâmica utilitária, decorativa, para o grande público, para a decoração das cidades… Dediquei-me muito a isso (referindo-se à última em particular). Lisboa é a minha casa. Foi aqui que comecei a trabalhar, foi aqui que fiz a primeira exposição… Nasci na Beira Baixa, depois viajei para França, trabalhei muito em Itália, mas sabe, vou, mas volto sempre! Esta homenagem é o resultado deste amor e dedicação pela cidade. Foi aqui que conheci pintores, poetas… «Um abraço! Tu mereces isto, trabalhaste muito aqui», é isto que sinto que me estão a dizer.

E, para si, qual a magia do seu trabalho? 

A cerâmica é a expressão mais antiga do homem. Quando o homem descobriu o fogo e viu que o barro se petrificava com o fogo, começou a modelar. Esse gesto é fabuloso… Pensarmos nas primeiras vezes que o homem modelou… As crianças, quando lhes dão uma bolinha de barro, começam a modelar, fazer um boneco. Acho isso muito bonito. Por acaso hoje não tenho aqui barro, se não começava já a fazer alguma coisa. Em toda a altura e em todo o lado! A cerâmica é qualquer coisa de apaixonante…

Mesmo passados tantos anos…

Comecei a trabalhar muito novo na Fábrica Viúva Lamego… Há uns anos, uma galeria contactou-me para me dizer que tinham um prato meu, se o queria comprar e que já era muito antigo. Claro que o quis ir ver. O prato não era muito bonito (risos), mas quando o virei ao contrário sabe o que tinha lá escrito? Um bocado pretensioso (risos), em letras grandes: «Cargaleiro, 1949, Fábrica Viúva Lamego». Evidentemente que quis ficar com o prato! É a prova que nesse ano eu já estava a trabalhar na Fábrica. Depois, deram-me o Atelier, dentro da Fábrica. É por isso que digo aos outros operários que lá estão que eu sou o mais antigo. Já viu que estou a trabalhar há mais de 70 anos? Com esta idade, continuo a ir à Fábrica. Continuo apaixonado pelo meu trabalho!

Sempre soube que ia ser artista? Como se vê enquanto artista?

Nunca pensei ser artista! Artistas eram e são os outros. Eu sou eu! (risos) Sabe que penso nisso… Tenho muito respeito pelos outros, sempre admirei os meus colegas. Sempre tive a ideia de fazer uma espécie de museu, com sentido didático, para os outros. Quando fiz uma exposição na Escola António Arroio, acabaram por me convidar para ser professor. Não estava nada à espera. Dentro da sala de aula, éramos todos iguais. Estávamos todos a aprender. Sabe o que eu fazia? No princípio da aula dizia que, quem quisesse ir ao cinema, podia ir, quem quisesse namorar, podia ir, mas quem quisesse ficar a pintar tinha efetivamente de ficar a fazê-lo, se não metia-lhe falta e mandava-o para a rua. (risos) Depois, começávamos a trabalhar. Orientava um bocadinho, mas eu próprio ficava a pintar. Quem fizesse o melhor trabalho, ficava com o trabalho que eu estava a fazer. A artista Emília Dadão foi uma dessas alunas. Já ganhou vários prémios! Foi minha aluna do primeiro ao último ano e, uma vez ou duas, ganhou os meus quadros porque fez o melhor trabalho. Há uns anos, convidou-me para ir jantar a sua casa e quando lá cheguei, estavam lá os desenhos que eu lhe tinha dado. São as ligações, as partilhas. 

Como chegou ao estilo tão pessoal que o caracteriza? 

Acho que o grande problema na vida é ser sincero. A arte é um bocado como a psicologia. A grande dificuldade para um psicólogo é saber se o paciente consegue dizer a verdade, a sua verdade. Normalmente as pessoas mesmo consultando um especialista, mentem, porque se sentem infelizes na verdade. O artista tem de dizer a verdade! Tem de ser claro! Eu sou muito honesto nas coisas que faço! E acho que começa pela observação. Quando era pequeno e ia à igreja com os meus pais no Monte da Caparica, não ficava atento à missa. (risos) Em vez de estar a ouvir o padre, ficava o tempo todo a admirar os azulejos. Achava aquilo uma coisa fantástica. Mais tarde, comecei a guardar pedacinhos de azulejo, a colecionar… Tenho milhares e milhares! Desde o século XVI até aos dias de hoje! Tenho a história dos azulejos em Portugal! Estão todos na minha fundação. Depois também comecei a colecionar cerâmica moderna e antiga, de todas as regiões de Portugal! Depois estendi-me para a Europa. Sinto-me bem, sou feliz a trabalhar. Tenho a Isabel ao meu lado que me tem ajudado. Sem ela não tinha realizado muitas das obras que realizei. Provavelmente já nem estaria aqui. Já estou muito velho… De cabeça estou bem, mas infelizmente o corpo não perdoa.

Houve alguma fase da vida em que sentiu que teve uma crise criativa? Ou seja, alguma vez teve dificuldade em criar obras novas?

Ui! Tantas vezes! Isso acontece a todos nós! Mas sabe o que faço? Tenho vários ateliers, em Paris, Itália, Lisboa, em Sintra, na Fábrica, tenho outro numa quinta que era dos meus pais… Tenho 20 quadros começados em Paris, mais 20 por terminar em Itália, e por aí sucessivamente. Quando me aborreço ou não tenho inspiração, deixe-os descansar. Ontem, por exemplo, passei uma bela tarde. Tinha aqui um óleo de 1965, já estava a ficar um pouco estragado. Pintei o fundo todo outra vez. Um quadro de 1965. Agora estou aqui todo vaidoso a olhar para ele! Ficou muito melhor!

E nunca teve medo que a criatividade se esgotasse? Acabar de fazer quadros ou repetir-se?

Acredito que não há criatividade. Há trabalho! O grande Matisse dizia: «Se o artista não está a trabalhar quando o talento passa, a obra não se faz!». O que é preciso é estarmos a trabalhar. Há uma corrente estética em que os artistas trabalham muito a obra, fica tudo muito pintado e muito pintadinho… O importante é a pessoa se expressar. Fazer, fazer, desenhar, desenhar. Há não muito tempo, comprei um livro sobre o ‘Gesto’ do Picasso, aquele homem fazia uma escrita automática, não tinha letras, fazia riscos. Nós temos é de nos exprimir. 

Tem rotinas de trabalho? Ou essa liberdade também se estende ao método? 

Para decorar uma estação de um metro, por exemplo, primeiro fazia estudos. Claro que não era ao acaso, espontaneamente, como quando estou no Atelier com outras obras. Sabe uma coisa? Antes, quando me faziam uma encomenda, ou quando eu pensava fazer um grande trabalho, não dizia nada, não fazia nada e dava-me espaço para pensar. Se acordasse a meio da noite era capaz de pensar nesse trabalho, mas não dava importância nenhuma. Portanto, quando fazem uma encomenda absorvo isso, como um desafio. Tenho mesmo de ter tempo para pensar no trabalho. Sou mesmo capaz de passar três a quatro meses a pensar nele… Não é encomendar um par de botas… As coisas depois vão surgindo e vou montando os pensamentos. 

Admira muito os seus colegas. Nunca existiu uma certa rivalidade com Vieira da Silva? Para ver quem fazia o melhor quadro? Ou os colegas ajudam-se sempre?

Meu Deus! É a primeira vez que alguém me faz uma pergunta assim… Nunca houve! O meu respeito pela Vieira da Silva, tal como pelos meus outros colegas de trabalho, era gigante! Sentia-os como mestres. A minha relação com a Vieira e com o marido, que era um grande professor, era muito próxima. Tínhamos uma grande amizade, uma grande admiração. Tanto pessoalmente como profissionalmente. Mas nunca tive rivalidades com ninguém. Exatamente por essa minha relação com eles. Por gostar muito da arte dos meus colegas. Na realidade, sabe quem foram, para mim, os meus grandes mestres? Os artistas anónimos que trabalharam no século XVI, XVII e XVIII em cerâmica. É uma grande escola! Se vir a cozinha do Mosteiro de Alcobaça, com aqueles brancos diferentes, aquilo é genial! Sentia que, às vezes, havia colegas que estavam extremamente infelizes porque não conseguiam realizar-se, exprimir-se. E, o pior de tudo, nem conseguiam defender a própria vida, do ponto de vista material. Tinha muita pena. Eu, por exemplo, se não vendia pintura, vendia cerâmica. Nunca tive de me preocupar muito. A minha mãe dizia-me algumas vezes: «Não te preocupes, mais depressa se acaba a boca, do que a sopa!». De maneira que, nunca me preocupei muito com isso. Há uma coisa que sempre fiz, ou de uma maneira ou de outra: trabalhei muito. Houve muitas épocas, sobretudo quando era jovem, em que vivi com muito pouco, mas sempre me orientei muito bem. Felizmente! 

O que tem Paris de especial?

Há quem diga que é a luz! Mas acho que Paris é especial porque lá há um grande convívio entre artistas! Lá, estamos completamente em contacto com gente fantástica. A força de todos ajuda, entusiasma! Vemos pessoas de todo o lado, artistas super diferentes. 

Muitos artistas sacrificam muitas coisas à obra, nomeadamente à família. Sente isso? Sacrificou muitas coisas? 

Sempre gostei muito da minha família. Sempre fui muito ligado aos meus pais, ao meu irmão, à minha sobrinha… Além disso, considero que os amigos são a família que escolhemos. Também sempre lhes dei muita importância, acho que nunca me esqueci de ninguém. A minha família é toda a gente que me quer bem!

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