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Manuela Eanes defende obra de Johnson Semedo

'Se cada um de nós cumprisse a sua responsabilidade social, teríamos um mundo muito melhor', diz Manuela Eanes, lembrando o mérito de Johnson Semedo.

Manuela Eanes defende obra de Johnson Semedo

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Após muitas aventuras e desventuras, João Semedo Tavares – mais conhecido por Johnson Semedo –, morreu, no passado dia 30 de novembro, aos 50 anos. O fundador da Academia do Johnson perdeu a vida precocemente devido a problemas de saúde. Ficou conhecido por trabalhar com crianças e jovens de bairros carenciados da zona da Grande Lisboa, que inspirou e apoiava através de atividades desportivas sociais, tendo assumido a sua passagem pela prisão e feito disso uma lição de vida a transmitir. 

Quem privou com Johnson Semedo foi Manuela Eanes, primeira-dama de Portugal entre 1976 e 1986. «Visitei a Academia do Johnson este ano, por ser uma das 10 instituições finalistas do Prémio Manuel António da Mota, que, todos os anos, desde 2010, distingue instituições que desenvolvem um trabalho de excelência na área social, seja no combate à pobreza e exclusão social, no apoio ao envelhecimento activo, no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, na luta contra a COVID-19, entre vários outros temas», começa por contar ao Nascer do SOL.

«Cada membro do Conselho de Curadores da Fundação Manuel António da Mota visita duas instituições finalistas e a Academia do Johnson foi uma das que eu visitei este ano», avança, recordando que conheceu João Semedo Tavares nessa mesma data. «Conheci o Johnson no dia da visita, que realizei acompanhada pela Inês Mota, também membro do Conselho de Curadores. Mais tarde, falei com o jornalista Francisco Nascimento, que realizou a reportagem para a TSF, parceira da Fundação para este Prémio», narra a fundadora e presidente honorária do Instituto de Apoio à Criança.

«Fiquei muito impressionada e sensibilizada com o trabalho que a Academia está a dinamizar com toda a comunidade, incluindo o acompanhamento de centenas de crianças e jovens oriundos de meios sociais e económicos desfavorecidos e suas famílias, assim como com atividades com pessoas mais velhas, que tinham ali um ponto de encontro e de apoio», afirma Manuela Eanes, confessando que se sentiu comovida «com o facto de muitas e muitas crianças e jovens se referirem ao Johnson como ‘pai’. Por aqui se vê o impacto do Johnson na vida destas crianças e jovens».

«Fiquei também muito impressionada com o próprio Johnson, um exemplo de dedicação dinâmica à sua comunidade, com todo este apoio na área da solidariedade, dando-lhe um horizonte de esperança e de dignidade. Com a sua alegria contagiante e irradiante personalidade, Johnson era um homem de causas, um lutador como poucos, e uma figura incontornável de um Portugal mais justo, mais fraterno e mais solidário», recorda pouco mais de uma semana depois da despedida do homem que deixou claro que o crime não compensa e que o futuro passa pela educação e pelo desporto, como o futsal, modalidade em que era jogador e treinador.

«Houve logo uma empatia imediata com o Johnson, até porque também tínhamos trabalhado com ele no Instituto de Apoio à Criança, no Projeto das Crianças de Rua, criado em 1989 e considerado a nível europeu como projeto inovador, no âmbito dos Projetos de Luta contra a Pobreza, dinamizados pelo presidente Delors», sublinha a antiga primeira-dama. 

«Nascido em São Tomé e Príncipe, em 1972, e criado no bairro da Cova da Moura, Johnson Semedo, com um percurso de vida muito duro, decidiu usar a sua experiência para trabalhar na prevenção de situações de risco de crianças e jovens, promovendo a educação e os valores da cidadania. E este seu exemplo é ímpar porque, ao assumir o seu passado, Johnson constitui um exemplo, para os jovens do seu bairro e, no fundo, para todos nós, de que o Homem pode sempre ser melhor e fazer mais, por si e pelos outros», frisa. «Aliás, costumo dizer, citando Mounier, que ‘só existimos quando existimos para os outros’, e o trabalho do Johnson e o processo de reconstrução da sua vida são o exemplo real de que é possível viver segundo esta máxima».

«Por considerar que se trata de um projeto exemplar – visto a Academia prestar apoio escolar, pedagógico e educativo diários, organizar atividades extracurriculares de futsal, judo, teatro, música e dança; dispor de uma oficina de mentores; e apoiar a reinserção de jovens reclusos, trabalhando em rede e com os serviços da comunidade –, considerei ser minha obrigação fazer algo para que este projeto, não tendo ganho o primeiro prémio, fosse apoiado de outra forma», indica, notando que «projetos semelhantes deveriam existir em todos os bairros, maioritariamente com pessoas carenciadas, para evitar situações de pobreza e prevenir, sobretudo com os jovens, problemas de marginalidade e delinquência».

«Já que a Academia não tem nenhum apoio estatal e conta apenas com o apoio de duas instituições privadas, falei com a Ministra da Solidariedade, Ana Mendes Godinho, muito sensível a este trabalho solidário e de prevenção, que me disse que já tinha previsto uma visita à Academia para estabelecer um protocolo de cooperação», revela.

«Adicionalmente, para que fosse assinado um apoio regular de cooperação, falei também com o Rui Pedroto, Presidente Executivo da Fundação Manuel António da Mota, e com a Inês Mota, que tinha visitado comigo a Academia e conhecido tanto o trabalho da Academia como o próprio Jonhson, que, com a sua personalidade carismática, nos contou todo o trabalho que faziam, mostrou as instalações e nos falou, com um entusiasmo contagiante, dos excelentes resultados alcançados». 

«Penso que o trabalho desenvolvido pelo Johnson é, já, muito conhecido e reconhecido. Nas redes sociais e na comunicação social, as reações à sua morte e ao legado que deixou foram enormes. E, não só pelas pessoas que apoiou, pelos colaboradores e voluntários da Academia e pelas pessoas do bairro do Zambujal e da Cova da Moura, mas também por muitas e muitas outras pessoas, desde empresários, instituições e escolas onde o Johnson fazia palestras motivacionais, colegas dos vários cursos de empreendedorismo e gestão social que Johnson fez até pessoas anónimas que foram tocadas por reportagens sobre o seu percurso e trabalho», aponta.

«E, mais recentemente, a visita do Presidente da República à Academia, onde assistiu a um jogo de Portugal no Mundial, o que constitui o reconhecimento, ao mais alto nível do Estado, do mérito do Johnson e do seu trabalho solidário e de profunda responsabilidade com a sua comunidade». Importa lembrar que Marcelo Rebelo de Sousa lamentou, desde logo, a morte de João Semedo Tavares, apresentando as suas sentidas condolências à família e amigos de João «Tavares Semedo, fundador da Academia do Johnson, associação que tantas vidas tocou no concelho da Amadora e no país».
«Se cada um de nós cumprisse a sua responsabilidade social, teríamos um mundo muito melhor. Porque, na realidade, é responsabilidade social de todos os cidadãos contribuir para preservar e desenvolver a sociedade que, por herança ou opção, compartilham. Responsabilidade social, esta, que se realiza e expressa de múltiplas maneiras. Entre elas se conta, obviamente, a cívica, com reconhecida interação com todas as outras, sejam elas a familiar, a profissional ou a política», afirma Manuela Eanes.

«Estou confiante de que os jovens que trabalham na Academia, tal como os voluntários que ajudam no desenvolvimento do projeto, e muitas outras personalidades que trabalham em instituições de solidariedade social parceiras da Academia, irão encontrar a melhor forma de este projeto continuar a cumprir os seus objetivos. O Johnson será, como sempre foi, a figura inspiradora deste projeto. Mas, até como forma de honrar a sua memória, este projecto tem de continuar e crescer», assevera. 

«Como já disse, é fundamental a existência de projetos semelhantes ao do Johnson e ao projeto Crianças de Rua, do Instituto de Apoio à Criança, em bairros onde vivem maioritariamente pessoas carenciadas e onde os jovens não se sentem motivados para estudar. Trabalhar com estes jovens – por vezes, com projetos de vida muito difíceis – em projetos, onde lhes é proporcionado apoio escolar, pedagógico e educativo diários, com atividades extracurriculares atrativas, com o apoio de mentores, permite a estes jovens perceber que é possível e desejável ter uma vida longe da marginalidade e da delinquência, e que só poderemos ser um Portugal melhor quando todos os Portugueses viverem com dignidade e se sentirem parte de uma comunidade que todos respeita e com todos se preocupa».

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