Cultura

Matt Groening. A cabeça por trás da criação dos bonecos amarelos

Em 2009, tornou-se a série “mais longa da história da televisão americana”, contando com 30 temporadas. Foi ainda considerada a melhor série do século XX, pela revista Time. ‘Os Simpsons’ nasceram em 1989, da cabeça de Matt Grorning. Este ano, o filme, com o mesmo nome, faz 15 anos. Mas, afinal, quem é o cérebro por trás de uma das séries mais conhecidas do mundo?

Matt Groening. A cabeça por trás da criação dos bonecos amarelos

Nunca foi um excelente aluno, talvez porque o destino já havia escolhido que caminho percorreria. Nas aulas, passava o tempo de olhos postos no caderno a criar mundos que só ele conhecia. Pela falta de atenção àquilo que acontecia no quadro, os professores não o viam com bons olhos e chegou mesmo a ser expulso da escola pela diretora – factos que o inspiravam a criar personagens.

Nessa altura, ninguém podia adivinhar que o jovem Matt Groening se tornaria num dos cartoonistas, produtores e guionistas de animação com mais sucesso das últimas décadas, depois de ter criado o universo dos bonecos amarelos Os Simpsons, em 1989. A série de animação que ainda hoje faz sucesso em todo o mundo, que já conta com mais de 700 episódios exibidos e que é descrita como uma “sátira do estilo de vida de uma família de classe média dos EUA, que mistura vários aspetos da condição humana”, originou mais tarde um filme com o mesmo nome, que comemora, este ano, o seu décimo quinto aniversário. Mas qual o caminho que Groening percorreu até aqui? Quem é a cabeça por trás de uma das série de animação mais conhecidas do planeta?

 

À busca de um sonho

O também criador da série de animação de ficção científica Futurama e Desencantamento nasceu em Portland, em fevereiro de 1954. Filho de um cineasta, publicitário, escritor e cartoonista com ascendência alemã e canadiano, e de uma professora norueguesa e americana, partilhava o espaço com os seus quatro irmãos, sendo as pequenas Lisa e Maggie que deram nomes a duas das conhecidas criaturas do universo Simpson. Os seus pais, Homer e Marge, também inspirariam o casal principal da série.

Devido à sua paixão pelo desenho, de 1972 a 1977, frequentou o The Evergreen State College, em Olympia, Washington, uma escola de artes liberais que descreveu, em algumas entrevistas, como “uma faculdade hippie, sem notas ou aulas obrigatórias, que atraía todos os esquisitões do noroeste”. Nessa altura, o aspirante a cartoonista trabalhou como editor do jornal da universidade, The Cooper Point Journal, para o qual também escreveu artigos e desenhou caricaturas.

Segundo o El Mundo, em 1977, com 23 anos, Groening mudou-se para Los Angeles com o objetivo de se tornar escritor. Durante essa transição, foi obrigado a desdobrar-se por uma série de empregos precários para conseguir sobreviver: fez de figurante no filme When Every Day Was the Fourth of July, do realizador Dan Curtis, em 1978; serviu às mesas; trabalhou como copeiro em restaurantes; trabalhou numa loja de discos, chamada Hollywood Licorice Pizza; numa estação de tratamento de esgotos; foi motorista e ainda realizou serviços de ghostwriting (em português, Escritor Fantasma) para um realizador já reformado.

Esse período foi o suficientemente inspirador para que fizesse nascer aquela que viria a ser a sua primeira grande criação. Enquanto lutava para encontrar um emprego estável, na garagem suja do seu minúsculo apartamento, Groening começou a desenhar cartoons protagonizados por um coelho patético e oprimido chamado Binky, que enviava para os seus amigos como um retrato da sua vida sombria em Los Angeles. Matt fez milhares de fotocópias que distribuiu também entre os seus vizinhos para se dar a conhecer até conseguir editá-los pela primeira vez em 1978 na revista Wet, com o nome Life in Hell. Dois anos depois, o jovem conseguiu um emprego no Los Angeles Reader, (trabalho que foi a alavanca da sua carreira enquanto cartoonista). Distribuía jornais, atendia telefones e ajudava na edição. Até que mostrou os seus desenhos ao editor, James Vowell, que ficou impressionado e acabou por lhe dar um lugar no jornal. Life in Hell, que inspirou a série Os Simpsons, fez a sua estreia oficial como uma história de quadrinhos no Reader em abril de 1980.

 

A criação dos simpsons

Quando em 1987 recebeu a ligação do diretor e produtor James L. Brooks para fazer uma série de animação baseada em Life in Hell, para o The Tracey Ullman Show (1987-1989), a sua vida mudou para sempre. Groening desenvolveu um novo conjunto de personagens – os Simpsons – numa série que conta as peripécias da família com o mesmo nome e que tem como personagens principais o infeliz pai Homer, a sua esposa de cabelos azuis, Marge e os seus três filhos, o indisciplinado Bart, a inteligente Lisa e a bebé Maggie. A série estreou no final de 1989, tornando-se, segundo o Britannica, uma série semanal um ano depois.

Segundo a mesma publicação, Os Simpsons foi amplamente considerado um dos programas mais inteligentes da televisão por causa do humor satírico de Groening e da complexidade dos seus personagens. O programa estabeleceu-se no canal Fox como uma presença assídua em horário nobre. Em 1990, a série ganhou o primeiro dos seus mais de 20 prémios Emmy e, em 2009, tornou-se a série de horário nobre “mais longa da história da televisão americana”, contando com 30 temporadas. Foi ainda considerada a melhor série do século XX, pela revista Time.

Aliás, os personagens da produção não são amarelos por acaso. Segundo o seu criador, na hora de escolher a cor, este não queria as cores convencionais de desenhos animados a que estamos habituados. Quando uma animadora apareceu com os Simpsons amarelos, Groening percebeu que essa seria a cor perfeita: “Quando as pessoas estiverem a fazer zapping pelos canais e virem piscar um flash amarelo, vão perceber logo que se trata dos Simpsons”, explicou numa entrevista em 2007, no mesmo ano em que foi lançado um filme sobre baseado na própria série e realizado por David Silverman.

No filme, Homer é responsável por uma enorme calamidade em Springfield quando, acidentalmente, polui o rio com lixo tóxico. E, claro – como nos habituou na série –, pelo caminho e ao tentar melhorar a situação e salvar todos os habitantes da cidade, mete-se em problemas cada vez maiores.

Em 1999, Groening lançou uma nova série animada, Futurama, sobre as aventuras de um entregador de pizza do século XX que foi transportado para o ano de 2999. Em janeiro de 2016, foi anunciado que Groening estava em negociações com a Netflix para desenvolver uma nova série, Desencantamento, que foi lançada em 2018. Situado no reino medieval conhecido como Terra dos Sonhos (Dreamland, na versão original), a série segue a história de Bean, uma princesa rebelde e alcoólatra, o seu ingénuo companheiro elfo e o seu destrutivo “demónio pessoal”, Luci.

Groening ganhou 13 Primetime Emmy Awards, onze por Os Simpsons, dois por Futurama e um British Comedy Award pela sua “contribuição notável para a comédia”. Em 2002, ganhou o Prémio Reuben da National Cartoonist Society pelo seu trabalho em Life in Hell e, em 2012, recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

Instalado numa das ruas mais exclusivas de Malibu encontra-se a mansão de Matt de quase 600 metros quadrados pela qual, segundo o El Mundo, pagou 12 milhões de dólares em 2011, cerca de 11 milhões de euros. O cartoonista vive com a sua segunda esposa, a artista argentina Agustina Picasso, com quem tem sete filhos, Nathaniel de 9 anos, dois pares de gémeos, Luna e India Mira, de 7, Sol Matthew e Venus Ruth, de 4 e ainda Nirvana, com apenas 2. Em janeiro deste ano nasceu Satori. Além deles, Groening também adotou Camila, filha que Agustina teve no seu relacionamento anterior. Do seu casamento anterior com a também argumentista e realizadora Deborah Caplan, teve dois filhos, Homer, com 33 anos, e Abraham, de 31.

Além de se ter tornado numa referência televisiva mundial, Os Simpsons são conhecidos por acertar em acontecimentos e factos do futuro, como o ataque às Torres Gémeas, a eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA, a crise do Ébola e até o aparecimento de um vírus proveniente da Ásia, que muitos acreditam ser o novo coronavírus. Em 1993 a série mostrou que um dos mágicos de Siegfried and Roy seria atacado por um tigre de bengala branco durante uma das suas apresentações. Coisa que realmente aconteceu dez anos depois. Durante um episódio exibido em 2005, mostrou-se que a canábis foi legalizada no Canadá. Em 2018, o país legalizou a canábis como droga recreativa. Já em 2012, os Simpsons mostraram Lady Gaga a voar sobre os espetadores num espetáculo, e na vida real, em 2017, a artista concretizou-o na apresentação do Super Bowl.

Segundo o guionista, tudo isso não passa de uma coincidência.

Na quarta-feira, a plataforma Star+ lançou um episódio especial da família dos bonecos amarelos, intitulado Os Simpsons Encontram os Bocellis em Feliz Navidad.

 

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