O Mundo em Calções

O segredo de Nel Tarleton

Era assim que Tarleton falava, entaramelando as palavras. A origem da palavra scouse parece ter vindo de lobscouse, um género de lagosta do Mar do Norte, embora a doutrina tenha outras escapatórias. Eis-nos, assim, perante um sotaque de pescadores de lagostas, algo que o pai de Nelson não apreciava grandemente já que era mais solene do que o filho, um funcionário público de fato barato e gravata preta, fininha, que mal dava para tapar a fileira de botões que lhe descia pela barriga, if you know what I mean.

O segredo de Nel Tarleton

Nelson Tarleton podia ser um finguelinhas, assim um bocado para o fraca figura, mas era um sujeito solene. Solene até a beber água. Solene como uma estátua de praça pública e pombo no ombro. Mas de estátua tinha pouco. Escorregava como uma enguia nos momentos em que os adversários o empurravam contra as cordas e procuravam mantê-lo ali preso, impossibilitado de usar o seu direto que equivalia a uma martelada nos queixos.

Scousers: é assim que o resto da Inglaterra chama aos de Liverpool. Um terrível sotaque das docas torna-os praticamente ininteligíveis. É do diacho, digo-vos eu. Só para verem, uso um episódio que ocorreu comigo numa daquelas belas noites britânicas, chuvosas, ventosas e frias, que fazem as delícias de qualquer esfaqueador de senhoras de Whitechapel. Viajando sozinho de automóvel de Manchester para Liverpool e encontrando-me meio desorientado pelas ruelas sórdidas de Warrington, vi-me obrigado a pedir informações a um transeunte que me pareceu, à primeira audição, ser proprietário do mais cerrado dos sotaques scouser que alguma vez existira. O homenzinho fez-me gestos fortes e decididos, explicou-se cheio de certezas, mas nunca na vida tinha ouvido um arrazoado tão pouco razoável de expressões que, embora parecendo vagamente familiares, não o eram de todo. Como não se resolvia a apontar-me qualquer direção, farto de tentar perceber o que não era capaz, meio baralhado com os pontos cardeais depois de um sem-número de voltas por entre ruas de sentido único que me tinham desviado continuamente do meu destino, supliquei-lhe, by Jove, que se deixasse de tergiversações mais próprias de um italiano e que me indicasse claramente, como um bom inglês, o caminho a seguir. Ele encolheu os ombros e desistiu de se tentar exprimir, com um ar bem mais desanimado do que o meu, o que me deixou com a impressão de que a culpa, se calhar, fora minha. Só então reparei na placa colocada sobre a porta do qual o vira sair: Liverpool Hospital for Deaf People.

Era assim que Tarleton falava, entaramelando as palavras. A origem da palavra scouse parece ter vindo de lobscouse, um género de lagosta do Mar do Norte, embora a doutrina tenha outras escapatórias. Eis-nos, assim, perante um sotaque de pescadores de lagostas, algo que o pai de Nelson não apreciava grandemente já que era mais solene do que o filho, um funcionário público de fato barato e gravata preta, fininha, que mal dava para tapar a fileira de botões que lhe descia pela barriga, if you know what I mean.

Tarleton filho sofreu e bem ter passado a infância numa casa dos subúrbios de Liverpool cheia de brechas e com humidade suficiente para criar um universo de fungos. Aos dois anos já tinha sido apanhado pela tuberculose, motivo porque se manteve para sempre um trinca-espinhas e nunca tenha pesado mais do que 63 quilos. O que não o impediu que, no preciso dia o seu 20.º aniversário, 14 de janeiro de 1926, subisse ao ringue do Liverpool Stadium, em St. Pauls’s Square com Bixteth Street, um local mítico do desporto scouser, que tanto servia para combates de luta livre como de boxe e ainda dava para uma perninha por parte de alguns grupos musicais que precisavam de um palco para se exibirem. Ao fim de dez rounds tinha batido o seu opositor, George Sankey, aos pontos. O povo gostou do seu estilo libertário e da forma como procurava incessantemente colocar-se na posição perfeita para desferir golpes do queixo ou nos sobrolhos dos que com ele combatiam. Uns dias mais tarde foi convidado para fazer uma tournée nos Estados Unidos. Foi. E voltou para disputar com Johny Cuthberth o título de pesos-pluma do Reino Unido. O Liverpool Stadium teve gente pendurada até nos ferros da canalização, mas o empate teimou. Então, a ganância dos organizadores levou a desforra para um recinto que suportasse ainda mais gente, o Anfield Football Ground, casa do Liverpool Football Club. Nel, como era tratado pelos compinchas, ganhou e mais facilmente do que se esperava. Era uma rocha. Corpo ridículo de pequeno e ossudo, cabelo riscado a meio com brilhantina, calções puxados para cima, quase sobre o diafragma. Típico lutador de rua para o qual a estratégia não era nada de importante. O objetivo era, if I may say so, ir às fuças do tipo que lhe estava na frente e Nel tornou-se tão bom nisso que nos 148 combates da sua carreira nunca sofreu um Knock-Out.

Entre 1934 e 1940, Tarleton pôs em diversas ocasiões o seu título de campeão britânico de pesos-pluma em disputa. Perdeu-o mas reconquistou-o por três vezes, a última das quais em 1945. Estava com 39 anos e custava-lhe muito a controlar a respiração durante os combates. Foi aconselhado pelos médicos a desistir. Acedeu, contrariado. Sabia que era algo inevitável desde aquele dia de fevereiro de 1909 em que a pneumónica o atirara para a mesa de operações onde lhe tirarem um pulmão. Poucos eram os que conheciam o seu segredo.

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