O mundo em calções

O segredo que o mestre não sabia

Parece que Pelé morreu há uns dias, há boatos a correrem por toda a parte, imagens de velórios e funerais, mas está claro que não acredito em nada disso, se Pelé morresse algum dia, ele que é eterno, o que seria de nós, os simples humanos?

O segredo que o mestre não sabia

Gostava de samba. Gostava muito de samba. De Ataulfo Alves, por exemplo: «O meu nome ninguém vai jogar na lama/Diz o dito popular/Morre o homem fica a fama/Quero morrer numa batucada de bamba/Na cadência bonita do samba...». Depois, uns anos mais tarde, o próprio Ataulfo escreveu um samba para ele: «No velho esporte/tua fama não desliza/teve Domingos da Guia/sem falar do Mestre Ziza». De ouvidor de samba a personagem de samba, a vida de Zizinho marcou, e muito, a vida de Pelé. Já devem ter percebido, entretanto, que Zizinho e Mestre Ziza são a mesma pessoa. Só que Zizinho foi no início, antes de ter direito a ter mestre no nome. Por causa da língua, é normal que os velhos cronistas a serem citados pelos novos cronistas sejam aqueles que escrevem em português ou, quanto muito, em castelhano como Eduardo Galeano ou Jorge Valdano. Brasileiros é mato, claro. Até porque os grandes cronistas da imprensa portuguesa já morreram todos, paz à sua alma, e os que ainda podiam alegrar-nos a existência com as suas prosas floridas deixaram de ser publicados, não sei se por vontade própria ou alheia. Há milhares e milhares de frases publicadas sobre Zizinho, Tomás Soares da Silva de nome de batismo, dono do meio campo do Bangu, do Flamengo, do São Paulo e da seleção brasileira. Escrito o que escrito ficou, cite-se um dos cronistas que não escrevia nem em português nem em castelhano, Wilhelm Meisl, por acaso irmão do selecionador austríaco, Hugo Meisl: «Não se trata apenas de um craque, dos muitos que andam espalhados pelo mundo. Este é um génio, um homem que possui todas as qualidades que podem ser idealizadas para um profissional chegar mais próximo da perfeição». Lá está: deve ter sido essa proximidade com a perfeição que encantou Edson Arantes do Nascimento, por extenso Pelé.

Parece que Pelé morreu há uns dias, há boatos a correrem por toda a parte, imagens de velórios e funerais, mas está claro que não acredito em nada disso, se Pelé morresse algum dia, ele que é eterno, o que seria de nós, os simples humanos? Pelé adorava Zizinho. Naquele Mundial maldito de 1950, Edson tinha dez anos. Viu o pai chorar agarrado a um radiozinho de pilhas. Aflito, prometeu-lhe: «Não chora não papai! Eu vou ganhar uma taça dessas para você». Ganhou três.

Enquanto o Brasil chorava, o resto do mundo falava dos grandes heróis do Mundial que se jogara pela primeira vez após a II Grande Guerra, doze anos após o último. Havia Obdúlio Varela, El Grán Capitán, Alcides Gigghia, autor do golo da vitória uruguaia, Juan Schiaffino que foi para o Milan e ganhou a alcunha de Dio del Calcio. Para o jovem Edson Arantes do Nascimento, a quem o pai, seu Dondinho, tratava carinhosamente por Dico, nenhum desses nomes nomes interessava. Quando falava de futebol, falava de Zizinho. Nunca o tinha visto jogar, limitara-se a ouvi-lo jogar através do transístor, mas parecia que conhecia todas as suas jogadas de cor, sobretudo o pontapé de bicicleta que repetia vezes sem conta no baldio onde o clube de garotos que tinha fundado, o Sete de Setembro, disputava as suas renhidas peladas contra a vizinhança. Na sua autobiografia, Pelé escreveu: «Zizinho era o jogador que eu mais idolatrava. Seguramente, ainda era suficientemente bom para ser escalado para o Mundial de 1958, mas despediu-se.

Sentia que o seu tempo tinha chegado ao fim. Foi uma pena:  é recordado por mim como o melhor jogador brasileiro que nunca ganhou um Campeonato do Mundo!» Zizinho não estava longe de cair da tripeça. Afinal tinha quase 37 anos e, entretanto, uma imensidão de jovens de talento tinha surgido no Brasil. Além disso havia aquele terrível ferrete que marcou todos os grandes da sua geração: a derrota frente aoUruguai perante mais de 200 mil pessoas.

Houve aquele dia em que Pelé enfrentou o seu ídolo. Foi em 1957. Zizinho estava no São Paulo e Pelé no Santos, como sempre esteve até sair para o Cosmos de Nova Iorque. Mestre Ziza elevou-se nas alturas com um arcanjo, querendo provar que ainda estava acima do jovem que queria seguir suas pisadas. O jogo foi inolvidável. E tudo o que nessa tarde Zizinho fez em campo foi digno do título de mestre. Pelé, que tão poucas vezes o vira ao vivo, abriu a boca de espanto e deixou que uma baba bovina lhe escorresse pelos cantos da boca: «Foi tudo magistral! Seus passes, seus remates, seu posicionamento. Senti-me muito excitado por poder, finalmente, jogar contra ele.  E foi absolutamente surpreendente! Zizinho deu uma autêntica lição de futebol. Ele, o mestre. O São Paulo ganhou-nos por 6-2!» Se a derrota doeu no coração do menino que nasceu em Três Corações, a desilusão ficou fora de jogo naquela tarde de sol. Zizinho foi ele próprio. Sabia tudo do jogo. Menos explicar 1950: «Pode ter acontecido uma onda negativa naquele dia. Numa partida de futebol, existe uma força maior que a gente não compreende, mas que existe, existe.

Não sei como é, mas existe uma força maior que dirige a partida. Não sei de onde vem. Talvez venha da multidão que forma pensamentos positivos ou negativos. É uma força...» Vá-se lá explicá-la.
afonso.melo@newsplex.pt

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