O Mundo em Calções

Valia a pena acreditar n’O Bailarino

O estilo dançante de Waldemar de Brito, jogando em pontas como se em pliés, encaixou na magia do San Lorenzo.

Valia a pena acreditar n’O Bailarino

O antecessor do atual São Paulo FC tinha um nome bem mais romântico: São Paulo da Floresta. Podia ser assim ao jeito de um Nottingham Forest sul-americano mas, como acontece com todos os românticos, a sua existência foi curta (de 1932 a 1935) porque os deuses exigiram a sua companhia lá nesse lugar do qual ninguém volta para contar as maravilhas que as religiões nos prometem. Renasceu como simplesmente São Paulo depois da fusão de vários clubes mais pequenos, foi-se a floresta mas ficaram os dedos, sobretudo os dos pés, mais úteis para se jogar futebol, e ficou também a memória do seu maior jogador, Waldemar de Brito, ao qual muitos chamaram de O Bailarino, tal era dançante a sua forma de jogar em pontas como se fizesse pliés, figura etérea que tanto rodava sobre si próprio como em volta dos adversários, um fantasma realista que não perdia a noção do lugar onde a baliza se encontrava e, por isso, marcava golos atrás de golos, primeiro no Syrio, depois no Independência, finalmente no Floresta. No campeonato paulista de 1933 tornou-se o artilheiro-mor com 21 golos. Ninguém duvidava da sua crescente categoria. Mas a verdade é que, de um dia para o outro, com o fim do Floresta, ficou sem clube. Um desperdício. Mas por pouco tempo.

O Bailarino mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro e jogar no Botafogo. Da floresta para a estrela solitária. E do Botafogo para o San Lorenzo de Almagro, a equipa do futebol bailador que, pouco depois da sua passagem por lá, viajou pela Europa devastando campos de futebol como o cavalo de Átila o Huno, sob cujas patas a relva não voltava a crescer. Entre Dezembro de 1946 e Abril de 1947, o San Lorenzo entreteve-se a esculhambar todas as equipas que se atravessaram na sua frente, entre as quais um misto de Benfica-Sporting-Belenenses (10-4) e o FC Porto (9-4), já depois de ter destruído uma seleção catalã (7-5) e o Real Madrid (6-1). Waldemar já não lá estava mas deixara saudades. Muitas saudades. Pode muito bem ter sido o jogador brasileiro mais amado na Argentina. O seu estilo formoso de futebol em ziguezague e toques bem medidos que, de repente, com a aproximação à baliza contrária podia transformar-se numa explosão brutal, encaixava na perfeição no jogo dos argentinos, ele próprio perto da perfeição. Na Península Ibérica, mesmo já sem Waldemar de Brito, o San Lorenzo levantou ondas gigantes de entusiasmo, os bilhetes para os jogos eram vendidos por fortunas no mercado negro, e o diretor do jornal El Mundo, teve uma observação certeira sobre aquilo que os sanlorencistas tinham acabado de fazer em Espanha e em Portugal: «La piedra que cae en el lago turbando su tranquilidad». Sim. Não houve quem esquecesse as formidáveis exibições do San Lorenzo. Era pura e simplesmente impossível esquecer espetáculo tão profundamente completo tanto na sua faceta emocional como na sua faceta estética.

Waldemar de Brito tinha deixado, pouco antes, a preciosa companhia de Armando Farro, René Pontoni e Rinaldo Martino, com os quais formara uma linha avançada tremenda. Chamaram-lhe El Ciclón. Voltara para São Paulo e, agora, para o São Paulo FC. Jogava como nunca e marcava golos como quem bebe água. A partir dos trinta anos, todavia, os joelhos começaram a ceder e a lentidão com que executava movimentos que antigamente eram feitos em milésimos de segundo foi fazendo com que os clubes não o aturassem por muito tempo. O futebol é um mundo ingrato. O Bailarino era descartado sem palavras. Passou pelo Fluminense e pela Portuguesa sem ninguém dar por ele. No Palmeiras jogou 15 partidas e marcou 5 golos. Finalmente, na Portuguesa Santista soltou um suspiro triste e pendurou as botas. Não dava para mais. Jogara 17 vezes pela seleção do Brasil e marcara 20 golos. Estivera no Mundial de 1934, em Itália.

Reformou-se de jogador convencido de que iria ser treinador. Não foi. Ou foi mas por pouco tempo, apenas cinco anos, no Bauru. Divertia-o mais ser olheiro. Correr todos os campos das redondezas, ver a garotada nas peladas e marcar mentalmente com uma cruz a giz aqueles que pensava irem dar grandes craques. Um dia apareceu no campo de treinos do Santos excitado com um menino quase enfezado que vira jogar num torneio de juvenis pela equipa jovem do Bauru, o Baquinho, contra o Flamenguinho. Vitória por 12-1 com sete golos de Dico, como apelidavam o menino. Dona Celeste, a mãe do miúdo, fincou os pés no chão: não queria que ele fosse profissional de futebol como o pai, Dondinho, que ficara marcado para a vida por causa de um joelho desfeito. Waldemar falou com o presidente do Santos, Athiê Jorge Cury, e prometeu-lhe: «Não o deixe ir embora não. Esse aí vai ser o melhor do mundo!» Valia a pena acreditar n’O Bailarino. Athiê acreditou. Usou toda a diplomacia que tinha para convencer Dona Celeste a deixar que o fedelho entrasse para os juniores do Santos, mas ele era bom demais para jogar com juniores e, aos 16 anos já era titular da equipa principal. Entretanto, os colegas tinham deixado de o tratar por Dico. Ficara Pelé. Aí e na hora da nossa morte...

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