Vida

Acabar o secundário pelo mundo fora

Mais de 100 jovens portugueses acabaram os estudos secundários em colégios da United World Colleges, uma organização fundada em 1962 pelo Lord Mountbatten para promover a paz. Actualmente há nove portugueses espalhados pelo mundo numa experiência que muda a vida. Jónatas Pires, da banda Pontos Negros, fez amigos de 80 países diferentes. As candidaturas estão agora abertas.

É uma espécie de Erasmus, mas para estudantes dos últimos dois anos do ensino secundário. Só que enquanto no programa internacional de intercâmbio universitário os alunos integram ambientes académicos onde são eles os estranhos, nos colégios UWC (United World Colleges) todos os alunos são estrangeiros.”É uma experiência que muda a vida para sempre”, diz Jónatas Pires, vocalista do grupo Pontos Negros, que entre 2004 e 2006 frequentou o UWC do Adriático, em Duíno, perto de Trieste (Itália).

Jónatas, agora com 25 anos, soube dos colégios através do pai, que vira um artigo num jornal e lhe sugeriu que se inscrevesse. “Achei interessante, sem ter ficado ultra entusiasmado, mas não quis partir o coração ao meu pai e candidatei-me sem estar nada à espera de ser seleccionado”. Até porque sentia que os outros candidatos eram “melhores a inglês”. Além disso, nota, “aos 16 anos, o mundo parece-nos inacessível” e no primeiro mês do primeiro namoro da vida a mudança para o estrangeiro pareceu ao rapaz de Queluz um bocadinho inconveniente.

Antes de o ano escolar começar a família toda meteu-se no carro e foi levar o miúdo_à nova morada. Para poupar nas despesas a avó fez “uma bôla de carne gigantesca” e foi o que comeram durante os dois dias e meio de uma “viagem espectacular” que antecedeu a descoberta de um mundo inteiramente novo. “Cheguei ao Adriático e a minha vida mudou”, assegura Jónatas. Em primeiro lugar, em vez de ter de se decidir por uma área (estava a frequentar Jornalismo, uma paixão que entretanto se desvaneceu, no ensino técnico profissional), poderia escolher as disciplinas que quisesse, sendo que Matemática e Português eram obrigatórias. “E isto faz muito mais sentido, porque aos 16 anos é muito difícil escolher um caminho definitivo”, sustenta o músico, que também é tradutor profissional e está a terminar um mestrado de Tradução.

Além da experiência académica, Jónatas destaca a componente relacional, pessoal e cultural. “Vivi com umas 200 pessoas de 80 países diferentes. Estamos habituados a ser todos iguais e ali somos todos diferentes”. Tendo também como ponto obrigatório o voluntariado social, todas as quintas-feiras a turma de Jónatas deslocava-se a um lar onde conversavam e faziam actividades com idosos. “Os alunos UWC têm muito orgulho na componente social do ensino e é uma coisa que fica para sempre”. Actualmente, Jónatas é um dos mentores do projecto Tudo É Vaidade (www.tudoevaidade.com) que transforma as receitas da venda de álbuns em 71 refeições servidas diariamente a crianças das escolas de Rabo de Peixe, nos Açores, uma das freguesias mais pobres de Portugal.

A organização UWC foi criada em 1962 com o objectivo explícito de, como diz o seu site oficial, unir jovens de um mundo que vivia no conflito latente da Guerra Fria, de forma a criar laços duradouros para fomentar a paz entre os povos. E esse objectivo no pós-11 de Setembro não é menos relevante. À beira do Adriático Jónatas Pires presenciou um debate entre estudantes de Israel e da Palestina sobre o conflito entre as duas nações. “É muito diferente uma discussão académica e uma outra entre pessoas que perderam familiares neste conflito. Mas o mais interessante é que têm opiniões contrárias e conseguem viver juntos”. Tal como viviam juntos alunos iraquianos e norte-americanos no auge da Guerra do Iraque.

Clara Cruz, presidente da direcção da UWC Portugal desde 2012, também foi aluna do colégio do Adriático, em Duíno. Conhecedora da história da associação, explica: “Originalmente os colégios foram feitos para dar mais bases e formação aos futuros líderes mundiais, mas isso foi sendo alargado a pessoas de todas as esferas. É preciso ver que eu no meu dia-a-dia também faço a diferença por causa dessa experiência”. Clara é editora de vídeo na produtora Até ao Fim do Mundo, onde todos os dias tem de tomar decisões: “Por exemplo, a imagem que eu uso para um trabalho sobre imigração em vez de perpetuar um estereótipo pode dar uma visão mais alargada e mais próxima de uma realidade complexa”. O facto de ter amigos em todo o mundo dá-lhe outra perspectiva sobre o que se passa. “Um tremor de terra na Nova Zelândia aflige-me porque tenho muitas referências, conheço pessoas”. O mundo fica mais rico e mais acessível.

Dois anos numa nova família

No Atlantic College, no País de Gales, onde estudou o actual Rei dos Países Baixos, estudam também crianças de campos de refugiados, recorda Clara Cruz. A UWC, além de aproximar jovens de países diferentes, aproxima também classes sociais. “Não é por acaso que Nelson Mandela foi presidente honorário da associação”.

Para fomentar esta permuta social, a rede de colégios possibilita a atribuição de bolsas parciais ou totais aos candidatos. “Mas primeiro há uma selecção exclusivamente pelo mérito. Depois são avaliadas as capacidades financeiras dos alunos escolhidos e atribuídas as bolsas”. Este ano há nove vagas em aberto para Portugal e as candidaturas de jovens no 10.º ou no 11.º podem ser apresentadas até 12 de Fevereiro. No final de Março, e após um processo que culmina numa actividade de grupo de dois dias e uma entrevista, são anunciados os vencedores. O comité de selecção é responsável por destinar os candidatos aos vários colégios que vão da Suazilândia aos Estados Unidos. Neste momento há nove portugueses em vários colégios.

Maria Carolina Carvalho, de 16 anos, está no colégio de Maastricht e classifica a experiência como “um desafio fantástico que se consegue superar e que vale muito a pena”. Partilha um quarto com com uma aluna da China, outra de Madagáscar e outra do Mali. E tem amigos de países como Bolívia, Arménia, Japão e Líbia (em cada colégio estão representados em média 80 países). Embora tenha saudades da comida e da família, nota que o mais difícil é o “programa académico muito exigente, com dias bastante stressantes”.

Clara Cruz salienta que no regresso a Portugal sentiu até que o seu nível de qualificações lhe dava vantagens sobre outros colegas do curso de Som & Imagem da Universidade Católica Portuguesa, onde concluiu a licenciatura. O diploma International Baccalaureate, fornecido pelos colégios, é reconhecido internacionalmente e em Portugal o acesso ao ensino superior é feito através de um normal exame de admissão.

“São dois anos sem ter que aturar os pais”, brinca Clara, mas a verdade é que os estudantes têm também de fazer a cama e de mostrar grande maturidade para os seus 16 anos. “O sentido de responsabilidade é enorme. Quando cheguei disseram-me: estás a representar-te a ti, a tua família, o teu país e o teu colégio”. No final é uma experiência que molda a vida. “Enquanto estamos lá a nossa família são estes miúdos do mundo inteiro e durante a vida inteira mantemos o contacto à distância ou mais de perto. E a cada década que passa há um encontro”. Clara, agora com 34 anos, foi a Pescara ao casamento de uma sua colega de quarto italiana, que casou com um americano e vive na Áustria. O mundo fica todo mais perto.

Mountbatten e Perdigão

A história da presença de portugueses nos colégios UWC remonta a 1969, quando uma portuguesa frequentou pela primeira vez o UWC Atlantic College, então o único estabelecimento. Durante 10 anos não voltou a haver alunos portugueses, até que em 1979 foi fundado o Comité Nacional dos UWC presidido por Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação Gulbenkian. Desde então mais de cem jovens portugueses frequentaram os UWC. A associação em Portugal tem Mário Soares como patrono e conta com o apoio do British Council – a Fundação Gulbenkian foi um importante apoiante no passado. De acordo com a informação oficial, o primeiro passo foi dado pelo próprio Lord Mountbatten. O célebre último vice-rei da Índia, e então presidente dos UWC, terá contactado o Conde de Caria, que por sua vez incentivou a criação do movimento em Portugal.

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