Sociedade

Mais polícia no Cais do Sodré

 “Na mesma noite chegam a ser vandalizados todos os carros numa rua. Há cinco meses partiram os vidros de um banco numa zaragata de gangues”. Ana vive no Cais do Sodré há 15 anos e diz que nunca como hoje se sentiu tão “insegura” numa zona onde há três semanas morreu esfaqueado um arquitecto de 28 anos.

O caso chocou os moradores e levou a PSP a reforçar o contingente policial durante a noite. Quem lá vive aponta o dedo à Câmara por criar uma “situação explosiva”, com a inauguração, em 2011, da 'rua cor-de-rosa' e o boom de bares que vendem álcool a preços irrisórios até às quatro da manhã.

Um cenário que tem transformado as ruas num “circo alucinante”. “Sentimo-nos quase num gueto sem lei”, desabafa ao SOL a advogada. Cansados da “barulheira infernal” e dos “desacatos permanentes”, muitos moradores começaram entretanto a abandonar uma zona que a autarquia prometeu requalificar há três anos. Só no mês passado, três famílias deixaram o bairro, por “ausência total de ordem pública” num “bairro transformado num bar a céu aberto”.

'Isto é uma terra sem lei'

Alexandra também já faz as malas: em Outubro, deixará a casa onde viveu seis anos com o marido e a filha, de três. “Não tenho alternativa. À noite isto é uma terra sem lei: partem carros, montras, urinam no meio do chão à frente de todos. Até tenho receio de ir passear o cão,  chegam a dar-lhe pontapés”.

No Largo de São Paulo, numa esplanada, Alexandra desfia as más recordações. “Acordo quatro ou cinco vezes por semana, senão quatro ou cinco vezes por noite”. Há cinco meses, despertou com um estrondo de vidros partidos: mais uma rixa, nada de novo. Mas um rapaz acabou atirado contra a montra de um banco e foi hospitalizado.

Foi aí, na rua dos Remolares,  que Diogo Andrade e Sousa acabou assassinado no passado dia 19 de Agosto. Tudo começou com uma discussão dentro do bar Black Tiger: o arquitecto saiu em defesa de um amigo que se desentendera com um grupo de rapazes. E tudo se precipitou cá fora: Diogo foi atingido com um x-acto no pulmão e no coração por um jovem que ainda está a monte. Os amigos só se aperceberam da gravidade da situação quando viram a t-shirt manchada de sangue.

O marido de Alexandra ironiza: “O Sá Fernandes sempre disse que esta ia ser uma zona nocturna de qualidade. Já o convidei a testemunhar a qualidade deste e de outros bares”. Aberto há cerca de um ano, o Black Tiger, que vende cerveja a 50 cêntimos, tem sido o epicentro de muitos problemas, garantem os moradores, que já fizeram várias queixas à Câmara (incluindo por ruído ilegal), mas nada mudou. A última reclamação, três semanas antes da morte de Diogo, deixou mais um alerta: “Têm-se sucedido episódios de alteração da ordem pública entre as duas e as quatro da manhã, que só terminam com intervenção policial”.

30 mil pessoas numa noite

No ano passado, o Corpo de Intervenção da PSP foi chamado 106 vezes a repor a ordem naquela que é uma das mais movimentadas zonas de diversão nocturna de Lisboa - e onde no último ano a criminalidade global subiu 49%. Mas o que mais preocupa a Polícia são os furtos (que dispararam  de 390 em 2012 para 688 em 2013) e os roubos (43 em 2012, 50 em 2013 e 52 só até Agosto deste ano).

Para devolver o sentimento de segurança à comunidade, chocada com o homicídio, “foram dadas ordens expressas para reforçar o policiamento durante a noite”, garantiu ao SOL Luís Elias, do Comando da PSP de Lisboa, lembrando contudo que o Cais do Sodré “não é tão conflituoso como o Bairro Alto ou a 24 de Julho”. E contextualiza: “Há hoje muito mais pessoas a frequentar esta zona, chegam a ser 20 a 30 mil numa noite”.

O agravamento da criminalidade “aquisitiva”, sublinha o oficial, está directamente relacionado com a recente “massificação” da zona, que está na moda, e também com o “consumo excessivo de bebidas alcoólicas”: “Alguns empresários podiam colaborar mais, se não permitissem o consumo no exterior e não vendessem bebidas a menores e a pessoas já alcoolizadas”.

Pedro Vieira, da Associação dos Cais do Sodré, reconhece que os estabelecimentos que fazem da rua área de serviço são um problema: “É sinónimo de despejar litros de bebida a valores irrisórios, o que causa instabilidade. Em vez de se apostar numa oferta de qualidade, está-se a chamar outro tipo de público”. Mas este não é o único factor de risco. “Há lojas de conveniência que vendem bebidas até às 4h, sem as condições que tem um bar ou uma discoteca. Um café não pode ter horários de discoteca”, diz Pedro Vieira, insistindo que é preciso “tipificar os negócios”.

É, aliás, a partir das 2h que “tudo piora”, descreve Isabel Monteiro, que ali mora há oito anos: “Descem às dezenas do Bairro Alto, muitos montados em caixotes do lixo a vandalizar todos os carros”. Os roubos acontecem em qualquer esquina. “O meu primo foi assaltado por três homens, há duas semanas,  na Rua do Alecrim, à saída de  um restaurante. Deu o que tinha e enfiou-se no táxi com a mulher”, conta João.

Ao SOL, fonte oficial da Câmara de Lisboa disse que em 2012 foram alterados os horários “de modo a evitar as chamadas after hours”, mas não adiantou quantos estabelecimentos foram licenciados e multados nos últimos dois anos. Quanto à segurança, a autarquia diz estar “em constante articulação com a PSP”. “É positivo que a capital ganhe com a procura desta oferta”, acrescenta a mesma fonte, sublinhando que tem sido procurado “um justo equilíbrio”.

Ana Andrade revê o passado: “António Costa conseguiu alterar o Intendente, bairro de má fama, limitando os horários dos bares e impondo fiscalização intensa e verdadeira actividade cultural. No Cais, não existiu nada parecido. A 'rua rosa' desenvolveu-se apenas com os donos de alguns bares, ignorando os moradores e restantes agentes económicos”. 

Cais do Sodré: Câmara assume ‘desafio’

Em resposta ao SOL, a Câmara justificou ainda que "a coexistência entre a animação nocturna e a componente residencial das zonas onde ela acontece", nomeadamente no Bairro Alto e Cais do Sodré, é "um desafio para os responsáveis pela gestão municipal", ao qual "nem sempre é fácil corresponder".

A mesma fonte oficial sublinha, porém, que é "positivo para a base económica da cidade e para o seu tecido empresarial que a capital ganhe com a procura desta oferta (cultural)": "É precisamente o justo equilíbrio que a CML procura nos pratos desta balança". 

No artigo, é mencionado que o Corpo de Intervenção da PSP foi chamado 106 vezes para repor a ordem no Cais do Sodré em 2013, mas este número equivale apenas ao número de desordens ocorridas na zona e não ao número de intervenções daquela subunidade da PSP. Pelo erro, pedimos desculpa. 

sonia.graca@sol.pt