Sociedade

Câmara de Almada oferece presentes de luxo

Pode a austeridade custar a felicidade? Na Câmara de Almada, pelo menos, os funcionários não têm razões de queixa. Só este ano, o Executivo de Maria Emília de Sousa gastou 31.915,64 euros na compra de 32 relógios em ouro oferecidos aos trabalhadores que completaram 25 anos de casa.

entre maio de 2009 e maio do ano seguinte, a autarquia gastou 94.174,72 euros com este pequeno luxo. «é uma prática de há anos, com grande significado para os trabalhadores», admitiu ao sol fonte do gabinete de imprensa da câmara.

este ano, 32 funcionários levaram para casa um relógio da marca longines, personalizado e com o aro em ouro – cada um custou cerca de mil euros. o gesto serviu para «reconhecer o seu desempenho» ao longo de duas décadas e meia de trabalho.

o presente foi entregue no dia 24 de junho, durante a cerimónia do dia da cidade – a que assistiram todos os trabalhadores da autarquia e também os vereadores da cdu, ps e psd, além dos representantes das estruturas sindicais e da comissão de trabalhadores.

'gratidão' aos professores

mas não são os funcionários os únicos contemplados. no mês passado, a câmara pagou quase 11 mil euros à empresa leonel&aguiar, lda, para assegurar um almoço de homenagem aos professores aposentados que leccionaram em escolas do concelho.

mas apesar de apenas 32 docentes terem passado este ano àquela categoria, para o almoço foram convidados todos os 450 professores aposentados dos vários níveis de ensino (até ao 12.º ano) que já tinham sido distinguidos em anos anteriores.

«uma gratidão, em nome de milhares de famílias almadenses, a quem dedicou uma vida a ensinar crianças e jovens», argumenta a mesma fonte oficial, sobre uma iniciativa que se repete todos os anos, desde 2001: «é um momento de grande importância na comunidade educativa, já que este é, para muitos antigos professores, a única altura do ano em que se encontram».

o último almoço-convívio aconteceu no passado dia 7 de junho de 2011, no restaurante dia a dia, casas velhas, na caparica. aos professores que passaram à reforma foi ainda entregue ainda uma peça personalizada do escultor almadense pé curto.

como esta, outras tradições parecem resistir por terras de almada, mesmo em tempos de rigor e contenção. veja-se um exemplo emblemático: no ano passado, a autarquia comunista pagou 33.320 euros (além dos 17.500 em produção artística) para organizar o jantar comemorativo do 36.º aniversário do 25 de abril, que reuniu cerca de 800 convidados.

este ano, o evento não se repetiu. a câmara assegura que a troika nada teve a ver com o assunto: «a não realização do jantar não se deveu a uma alteração de política sobre as comemorações nem a contenção de gastos. resultou do facto de o 25 de abril ter decorrido este ano num grande fim-de-semana (páscoa)».

a verdade é que o dia não passou em branco, já que foi contratada a empresa diferentes ritmos-produtores associados de espectáculos e eventos, lda, que recebeu 39.100 euros por uma produção técnica.

apenas metade daquilo que, em 2009 – ano de eleições –, o executivo da cdu investira para tornar possível o almoço do dia internacional da mulher: 83.640 euros.

milhares em medalhas e troféus

taças, troféus, medalhas e medalhões também fazem parte deste zelo. não passa um ano sem que a câmara não encomende estas peças para «distinguir entidades e personalidades que se destacam pelo seu mérito e acção cívica». em 2009, medalhas em prata e bronze custaram 73.750€euros. no ano seguinte, estes brindes valeram 82.667 euros.

«já denunciámos estas situações várias vezes, mas somos sempre acusados de tentar ‘estancar’ a democracia por criticarmos jantares de agradecimento e outras efemérides do género», disse ao sol antónio pedro maco, deputado municipal do cds, acusando o executivo de ter «dois pesos e duas medidas».

«não se compreende como é que uma câmara que já veio a público queixar-se do despesismo do estado e dos cortes orçamentais, dizendo que põem em causa obras de reabilitação em várias freguesias do concelho, acumule depois estes gastos perfeitamente supérfluos», critica antónio pedro maco.

sonia.graca@sol.pte