Cultura

O Olhar do Coleccionador: Berardo mostra os seus preferidos

"Não sou um intelectual mas tenho um gosto especial  e tenho peças que gostava que fossem mostradas aos portugueses. E talvez no futuro isso não seja possível", explica o comendador José Berardo conduzindo o grupo de jornalistas na apresentação da sua primeira exposição como curador. Trata-se de O Olhar do Coleccionador e é o próprio a exibir algumas das peças da colecção residente do Museu Berardo. São obras pelas quais sente um afecto especial. Entre essas a que mais lhe causa felicidade é a obra que está no limite - quase impossível de expor num museu normal.  Trata-se de um dos panos de cena que Marc Chagal pintou para a inauguração da nova Metropolitan Opera House de Nova Iorque, com a apresentação de A Flauta Mágica, de Mozart, em 1965. O comendador e dono da colecção orgulha-se de finalmente ter conseguido esticar sobre uma das poucas paredes disponíveis do edifício do CCB o gigantesco linho com 23,5 por 13,5 metros e com pedras semipreciosas incrustadas. "Quando vi o tamanho até me assustei. Foi muito difícil expor aqui, mas sempre conseguimos".

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Em Dezembro de 2016 termina o contrato assinado entre o Estado português e o coleccionador de comodato da maior colecção portuguesa de arte contemporânea no CCB e esta apresentação é também uma declaração de princípios. "Não sei o que vai fazer o próximo governo, se quer que a colecção continue aqui ou não", diz Berardo. "Eu gostava que continuasse aqui e em Lisboa, até porque a minha ideia sempre foi que todos os portugueses pudessem ver a arte do século XX, de forma gratuita", diz o empresário madeirense que recorda que em miúdo não tinha dinheiro sequer para entrar no Museu de Arte Sacra do Funchal.  "Mas se não for no CCB haverá outra solução", diz um Berardo confiante de que o próximo Governo terá que se sentar e falar com o "dono de cinco museus em Portugal".

Além da obra de Chagal há outros tesouros que Berardo tirou das reservas do museu depois de um processo doloroso de escolha. A peça de Frank Stella, Severambia,  que marcou a abertura do museu no CCB, é uma delas. Mais uma vez é um grande formato, reconhecendo o coleccionador o fascínio que sente pela "grande escala da arte moderna" e pela "desmesura e imaginação". E são obras grandes as que enchem as quatro salas do museu. Algumas são marcos da história de arte, mas não esse o ponto de vista que lhe interessa . "Deixo isso para o Pedro Lapa (o director do museu), que ajudou na organização, mas o que me interessou aqui foi mostrar aquilo que me dá mais alegria ver". "Gosto muito deste», dirá, apontando para o Jardim dos Lírios Lisérgicos, obra de 2009, do brasileiro Walter Goldfarb. Além de vários nomes estrangeiros consagrados, como Basquiat,Roy Lichtenstein, A.R.Penck,  o coleccionador escolheu peças dos portugueses Cabrita Reis, Fernanda Fragateiro, Rui Sanches e Rui Chafes.

Em casa, Joe Berardo confessa que só há 15 dias pendurou dois quadros na parede a pedido da mulher. "Gosto muito de estar aqui rodeado de arte. Em casa só quero ver a paisagem de Lisboa. Preciso de limpar a cabeça".

A exposição O Olhar do Coleccionador abre quinta-feira ao público e termina a 29 de Setembro.