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Confraria Gastronómica de Almeirim

O rio Tejo enquadra a vasta planície da Lezíria que faz parte do concelho de Almeirim. Sente-se ali a geografia tão característica do Ribatejo, onde o verde se espraia no olhar e delimita o pensamento de quem passa e se fixa nos campos agrícolas dominados pela vinha, pelas searas e pela produção de melão. É o sol que nos ofusca com tal profusão de brilho, num cenário quase isento de altitude. É a cor que se transmuta com o passar das estações. É o Tejo ali tão perto que nos afaga com a sua grandeza. São os homens e as mulheres de uma terra que nos abraçam com a sua hospitalidade. Assim são as gentes de Almeirim. E assim são os confrades da Confraria Gastronómica de Almeirim que fazem da sua terra a ‘casa’ de todos os que lá vão. Recebidos sempre com a graça do melhor que se faz em Almeirim, os confrades das restantes confrarias sentem a força de um grupo de homens que no orgulho pela sua cidade encontrou o motivo para a organização de uma confraria gastronómica.


Zelosos das suas tradições gastronómicas, das suas instituições locais, das suas paisagens, das suas músicas e cantares, das suas danças e trajares, encontraram nesse sentimento o motivo e o vínculo para, em 2004, iniciar a actividade de uma confraria. Desde essa data que a sua actividade tem sido profícua na divulgação do vasto património cultural, histórico, etnográfico, gastronómico e enófilo do concelho de Almeirim. E tal preocupação de abrangência do rico e vasto património de Almeirim foi, de facto, o mote. Por isso, os confrades não quiseram centrar-se num ou outro produto gastronómico, quiseram ser abrangentes para nada deixar de fora. Na verdade, quem os visita sabe que esta intenção é cumprida sempre que organizam a sua cerimónia capitular, onde não se encontra apenas um ou outro pormenor mais conhecido da gastronomia, mas também a música, as danças, as instituições que fazem a riqueza de Almeirim. E isso é o que faz este povo ser tão acolhedor, é o que faz com que lembremos sempre o sorriso de quem nos recebeu.

No vasto património defendido pelos confrades de Almeirim sobressai a Sopa da Pedra, receita que obriga à paragem de todos os que atravessam esta terra. Diz a lenda revelada por Teófilo Braga que tudo começou com um frade que, engenhoso na forma de pedir, fez um saboroso caldo a partir de uma pedra que trazia no bolso. À pedra foi-se juntando a água, a batata, o feijão e os enchidos e, no final, o resultado seria de comer e chorar por mais. Da lenda à realidade não sabemos qual o caminho. Mas a verdade é que quem passa por Almeirim tem que saborear a Sopa da Pedra, acompanhada dos bons vinhos que se produzem ali tão perto do Tejo, sob um sol que não descansa. Além de tudo, os confrades sabem que para fazer uma boa Sopa da Pedra há que escolher criteriosamente os enchidos e o feijão. Os primeiros devem ser produzidos segundo o método tradicional, pois serão eles que irão dar o toque final à sopa. Quanto ao feijão, este deve ser do ano corrente. De outra forma, deve ser demolhado para que a sopa fique macia e incorpore devidamente os sabores que lhe são adicionados pelos enchidos.

A origem desta sopa está nos anais da cozinha popular, sendo recorrente na mesa dos agricultores da região. Feita com produtos da terra como o feijão e batata, era muito nutritiva, óptima para retemperar as forças exigidas pelos exigentes trabalhos agrícolas. Além disso, por ser uma sopa rica com a presença da carne dos enchidos, valia como uma refeição completa.

Mais tarde, na década de 60, para a divulgação desta receita e deste prato foi determinante uma mercearia que daria origem ao restaurante O Toucinho. Conta-se que os donos dessa mercearia recebiam os ‘caixeiros-viajantes’ com almoços onde pontuava a boa gastronomia local. Na mesa, nunca faltava a Sopa da Pedra, prato que deliciava os visitantes. Daí até à actualidade, resta apenas dizer que esta receita granjeou excelente reputação, sendo que todos a conhecem.

Os confrades de Almeirim assumem a cultura local como sua e, pelo orgulho que nela têm, trajam um fato completo inspirado no vestuário típico da labuta diária dos habitantes locais. Calças, colete e jaqueta em cotim militar, camisa branca, bota ou sapato escuro e barrete preto, assim devem apresentar-se os confrades quando representam a confraria. O traje é rematado com um colar feito com uma fita verde e vermelha, à qual está presa uma colher.

Dinâmicos, activos e muito convictos, os confrades de Almeirim investem no seu trabalho como ninguém. E entre as muitas actividades que desenvolvem, destaca-se, anualmente, sempre no final de Agosto, o Festival da Sopa da Pedra e do Petisco. Mais do que a receita principal – a estrela da gastronomia local –, procuram divulgar através desta iniciativa a riqueza de todo o património gastronómico e enófilo.

Numa cidade de origens antigas, Almeirim viu desaparecer muitos dos edifícios construídos pela presença dos reis. Não obstante, ficou a memória da antiguidade do local, sobretudo, porque era considerada a Sintra d’Inverno. Pela abundância de locais propícios para as caçadas, prática de lazer tão apreciadas pelos nossos monarcas, Almeirim recebia a corte para longas temporadas, dedicadas àquela distracção real.

No final, notória é a hospitalidade e a dedicação à terra de quem lá vive. Por isso, a Confraria Gastronómica de Almeirim prossegue o seu trabalho valorizando as suas origens, dignificando a sua gastronomia, elevando o seu folclore, mostrando ao mundo do que são feitos os homens e as mulheres que gostam da sua terra, entre o terno carinho e a cumplicidade que se sente à mesa quando se saboreia uma boa Sopa da Pedra.

* presidente das confrarias gastronómicas portuguesas

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