Opiniao

José Sócrates: o cercado que cercou Portugal e os portugueses

1. O livro recentemente publicado da autoria do jornalista da Sábado, Fernando Esteves, sobre José Sócrates (intitulado “Cercado”) está a ser um verdadeiro sucesso de vendas. Mais uma vez se demonstra que José Sócrates é um personagem político que continua a suscitar enorme interesse nos portugueses. Sim, José Sócrates não é apenas um político, um ex-líder do PS ou uma mera figura mediática ou o prisioneiro n.º 44: é uma personagem. Um persona. José Sócrates não parece real: tem traços de personagem de tragédia grega ou romance shakesperiano.

2. Ao contrário do José Sócrates político (de muito baixo nível, lunático), o José Sócrates personagem de romance ou tragédia grega é uma figura deveras interessante. Porque permite ver o comportamento e a postura de uma personagem real, de carne e osso – mas, ao mesmo tempo, completamente surreal. E os jornalistas perceberam bem esta dimensão surreal, ficcional de José Sócrates – daí que a cobertura da sua prisão pareça uma narrativa (expressão de que Sócrates tanto gosta) ou enredo de telenovela.

3. O próprio autor do livro – pese embora muito imparcial e não se inibindo de relatar factos, transcrever escutas e explicar situações muito pouco abonatórias (para ser simpático) para José Sócrates – não deixa de ter um sentimento ambíguo em relação ao retratado: Fernando Esteves considera José Sócrates um político com alma, com carisma, orador talentoso, afirmando mesmo que o ex-Secretário-Geral do PS é “para o bem e para o mal, uma personagem maior entre os agentes políticos nacionais”.

4. O que dizer, então, do livro “Cercado – os Dias Fatais de José Sócrates”? Bom, em primeiro lugar, o título é comercialmente muito eficaz, batendo muito bem com a capa (uma foto em grande plano, fechado, do rosto de José Sócrates). Evidentemente, o autor, nas páginas iniciais, elucida o leitor para a necessidade de fazer uma interpretação restritiva do título do livro: afinal, José Sócrates ainda não foi condenado e goza do princípio da presunção de inocência. Muito bem.

5. Concluímos então, desde logo, que há uma ambivalência permanente no escrito do notável jornalista que é Fernando Esteves (que há havia publicado uma biografia de Jorge Coelho, entendida por muitos comentadores e políticos como um meio de abrir caminho para a outrora possível candidatura de Guterres à Presidência da República): por um lado, o jornalista revela uma certa tolerância, até admiração, pelo José Sócrates político; por outro, é implacável em relação ao José Sócrates, homem de vícios privados (continuemos na nossa linguagem eufemística).

6. No fundo, não deixa de ser curioso que o autor reflecte, ao fim e ao resto, o sentimento dominante no PS quanto a José Sócrates: a ala costista ama de paixão José Sócrates enquanto político; sente-se orgulhosa do legado de José Sócrates como Primeiro-Ministro; no entanto, têm de refrear essa paixão para não perderem os votos dos portugueses, dadas as acusações gravíssimas imputadas a Sócrates.

7. Dissemos então que o livro ora analisado revela situações muito comprometedoras para o ex-Secretário-Geral do PS (por muito que seja contra apagar pessoas e factos da História, confessamos aqui que recordar que José Sócrates foi Primeiro-Ministro da nossa Pátria é doloroso). Dirá o leitor mais socratista ou mais céptico que estas situações reveladas no livro é mera especulação ou suspeitas. Errado: as situações referidas no livro aconteceram todas. Fernando Esteves apenas refere situações reveladas em processos judiciais não sujeitos a segredo de justiça e que entretanto foram arquivados. Caro leitor, mesmo que seja um socrático militante, não se deixe iludir: os factos indicados no livro aconteceram. José Sócrates é o seu protagonista-mor. José Sócrates é assim.

8. E que factos são esses? Limitemo-nos aos mais relevantes:

a) O plano urdido com os seus muchachos para adquirir a TVI e as manobras para afastar a dupla José Eduardo Moniz/Manuela Moura Guedes;

b) Os contactos entre José Sócrates e o então Reitor da Universidade Independente, Luís Arouca, para despistar o jornalista do Público que pressionava Luís Bernardo (assessor de Sócrates) para este esclarecer as incongruências e falhas relacionadas com a sua licenciatura – e a fúria de José Sócrates com o Reitor porque este disponibilizou as fotocópias do seu processo ao jornalista;

c) As ameaças de José Sócrates a José Rodrigues dos Santos (mais subtis) e a José Manuel Fernandes (insinuando para o ex-director do Público ter cuidado, na medida em que José Sócrates conhecia – o próprio fez questão de dizer em conversa telefónica – Paulo Azevedo, da SONAE, proprietária do jornal Público);

d) O esquema que José Sócrates engendrou com os seus camaradas políticos para abafar a polémica dos projectos de casa que assinou, que envolvia técnicos da câmara legalmente impedidos de efectuar tal assinatura.

e) As várias pistas contra José Sócrates, no caso Freeport, que foram ignoradas pelas autoridades (e pelas suas lideranças) no tempo em que José Sócrates era Primeiro-Ministro. O próprio Fernando Esteves se questiona, no livro, como foi possível as autoridades arquivarem o processo, sem sequer questionar algumas das testemunhas.

9) Note-se que a gestão política de tudo isto envolvia o seu pequeno comité político constituído por Vieira da Silva, Pedro Silva Pereira e Almeida Ribeiro – por sinal (pelo menos os dois primeiros) fortemente ligados a António Costa. Apenas um facto para que o leitor possa ponderar em consciência.

10) Outra nota muitíssimo curiosa: afinal, os magistrados do Ministério Público ponderam, com rigor, as consequências políticas da detenção de José Sócrates. A detenção deste nosso ex-Secretário-Geral do PS esteve para ocorrer antes das eleições europeias: o Ministério Público entendeu, no entanto, que uma detenção nesse momento poderia ter consequências eleitorais, dando a ideia de uma decisão politicamente motivada. Cai, assim, por terra um dos argumentos da defesa de José Sócrates.

11) Uma reflexão ideal, em jeito de estupefacção: o que levou um homem como José Sócrates – em quem os portugueses confiaram para Primeiro-Ministro – a utilizar o cargo que ocupou para retirar benefícios próprios (alegadamente, claro). No íntimo de José Sócrates, estava mesmo a ideia de que poderia ser um Hugo Chávez à portuguesa. Foram apenas as más companhias – ou é algo mais profundo? Fica a interrogação. A verdade é só uma: José Sócrates é o responsável pela quase bancarrota de Portugal. O cercado cercou o futuro de Portugal. E o cercado não o fez sozinho: fê-lo com a conivência de uma parte do PS – os mesmos que agora querem voltar ao poder