Cultura

O filme de Manoel de Oliveira é o preferido em Cannes

Numa altura em que o júri oficial se reúne para deliberar os eleitos da 68ª edição do festival de Cannes, valerá a pena recordar uma tabela de 45 críticos que atribuiu a classificação mais elevada a Visita, ou Memórias e Confissões, o filme de 68 minutos que Manoel de Oliveira realizou em 1982 e que foi apresentado na secção Cannes Classics. Fica então como uma espécie de Palma de eterno reconhecimento.

José Manuel Costa, diretor da Cinemateca Portuguesa, presente na sala, definiu Visita como “um verdadeiro filme testamento”. Recorde-se que este documento esteve guardado nos cofres da Cinemateca, sob indicação do autor, para apenas ser exibido após a sua morte. Apenas em duas ocasiões muito particulares foi exibido, segundo explicou José Manuel Costa, para membros da equipa e numa ocasião na Cinemateca.

Este é um filme de sussurros, de fantasmas, de memórias, mas também de confissões. No caso, os ecos que habitavam a casa onde viveu quarenta anos depois de casar com a mulher Maria Isabel, e que se viu forçado a vender “para pagar dívidas”. Sublime o texto que Agustina Bessa-Luís escreveu para ele e que Diogo Dória, com a sua habitual verve, e Teresa Madruga, visitam como se fossem fantasmas.

No entanto este é o filme mais presente de Oliveira, já que a sua voz começa por se substituir ao genérico e à ficha técnica e é ele mesmo que serve de anfitrião numa confissão em que se reconhece muito do seu cinema e da sua vida, ao fim e ao cabo, parte da mesma coisa.

"Oliveira fez tudo em Cannes", elogiou também ThieryFremaux, o delegado geral do festival de Cannes. Teve filmes em várias secções, foi homenageado e recebeu a Palma de Ouro em 2008, a poucos meses de completar 100 anos.

De referir que Manoel de Oliveira já contava 73 anos quando realizou esta Visita e apenas seis filmes. Mas haveria ainda de fazer vinte e quatro filmes, muitos deles produzidos por Paulo Branco, que também esteve presente na sala.
Nesta plateia de notáveis, figurava ainda o casal Erika e Ulrich Gregor, os responsáveis pela apresentação do cinema de Oliveira ao mundo. Em conversa com o Sol,Ulrich recordou quando estava em Paris para selecionar filmes para o Fórum, da Berlinale, e soube que havia um filme de 4 horas e meia de um tal português. 

Curioso, acabou por o ir ver, acrescentando o episódio engraçado: “Eu estava numa sala de projeção perto do Arco do Triunfo e tive de o ir buscar a outra sala perto dos Inválidos. E fiquei surpreendido quando me entregaram um saco com as latas que eu próprio trouxe”. O filme, claro, chamava-se Amor de Perdição. No ano seguinte, haveriam de fazer uma retrospetiva integral da sua obra até à altura que acabou por desencadear um interesse global. Por isso mesmo, fazemos coro com as palavras de José Manuel Costa: “Viva Manoel de Oliveira!”