Politica

Santos Silva: Será ‘um choque’ ter Maria de Belém candidata

Vendo o elevador cheio de turistas, galgou a pé a Calçada da Glória. “Deu para aumentar o ego porque fiz a caminhada sem problema”, regozijou-se ao chegar ao miradouro de São Pedro de Alcântara. Como vista, ainda assim, prefere a de Santa Catarina, sobre o porto de Lisboa. “Gosto muito de contentores, é uma pena quando as cidades abandonam cabos de aço, contentores, navios sujos e velhos”, graceja.

Santos Silva podia estar àquela hora a caminho de Sintra, para a apresentação da comissão de honra da candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa, que integra, mas tinha outro programa. A cerimónia deu pretexto para falarmos de presidenciais, numa semana em que pareceu ganhar força a hipótese de o PS precipitar o apoio ao ex-reitor universitário. O antigo ministro é contra.

“Com Agosto pelo meio, estamos apenas a mês e meio útil das legislativas”. Pelo que “será impossível, ou melhor será absolutamente suicida, meter as presidenciais pelo meio das legislativas”, vinca. Tanto mais que Passos Coelho, na noite anterior, tinha deixado claro que não ia “gastar um minuto” com o tema. “A partir do momento em que o PSD não o faz, o PS não tem nenhuma razão para o fazer”, explica. Sem ter Guterres, Vitorino ou Gama, “que uniriam todo o PS e todo o centro-esquerda” - “coisa que Sampaio da Nóvoa, que eu apoio, não faz” - o PS “tem um embaraço”. Por isso, é “uma decisão racional” de António Costa deixar o assunto para mais tarde.

O vento assola o miradouro em rajadas fortes, enquanto torce o nariz à possibilidade de Maria de Belém avançar para a Presidência da República, hipótese que já está a fustigar o PS. “Será objectivamente um choque ter uma ex-presidente do PS a concorrer às eleições, num momento em que se sabe que uma parte considerável do partido apoiará outro candidato”. Mas é o apoio do PS a Nóvoa certo? O professor de sociologia na Universidade do Porto invoca a abordagem de “cientista profissional” para evitar um sim prematuro, mas remata que o apoio do PS “está inscrito na lógica das coisas”.

Para já, Costa “está a fazer uma renovação muito importante e quanto maior for essa renovação mais força ele tem”. Costa “vale mais que o PS”, garante com a sua muito leve pronúncia portuense. “Se eu estivesse à frente da campanha personalizava nele o mais que pudesse”. E poderá voltar ao Governo? “Alguém em bicos de pés fica numa posição ridícula”. Se James Bond bebe um martini ‘batido e não mexido’, Santos Silva bebe um ginger ale; mas acaba por lembrar as palavras do 007: “Nunca digas nunca”.

A conversa já ultrapassou uma hora quando afirma que não acredita a 100% numa vitória do PS. Tem “fé” enquanto socialista, agora acreditar no sentido em que a pode dar como garantida? “Não”. E “ninguém espera que a direita vá ter uma derrota clamorosa”.

Não rejeita peremptoriamente uma coligação à direita mas espera que “PCP e BE tenham aprendido com os erros”. Assim como o PS que “avançou sozinho” com minoria em 2011.

Raramente deixa o sorriso e a atitude distendida. Mas quando fala do episódio do seu recente afastamento da TVI 24, onde tinha um espaço de comentário, martela as sílabas. “Tecnicamente” a estação de televisão rescindiu um contrato, concede. Mas sente-se alvo de “censura”, uma palavra que repete muitas vezes, referindo o que aconteceu. Porque se a TVI está no direito de pôr fim ao contrato que assinou consigo, não encontra justificação para não estar no ar nas emissões que faltam até ao final do prazo.

“Por ironia” tem andado a promover o livro feito de entrevista com o jornalista Paulo Magalhães, o seu parceiro de programa na televisão. No livro diz que a justiça “é um caracol que lá se vai mexendo”, mas não no processo de José Sócrates. Aí “tem dúvidas de que se esteja a mexer”. Mas se o ex-primeiro-ministro for libertado na campanha eleitoral “será a coisa mais normal do mundo”. 

Miradouro de São Pedro de Alcântara

Porquê da escolha

“É uma das vistas mais bonitas da cidade”.

Bebida

Ginger ale.

Fim de tarde ideal

Ir buscar as duas netas ao infantário, às segundas e quintas.

Fim de tarde habitual

Vai comprar pão e aproveita para caminhar, na foz do Douro.

manuel.a.magalhaes@sol.pt

sonia.cerdeira@sol.pt