Sociedade

Mais fome em Agosto

Em Agosto, as famílias que recebem ajuda alimentar passam grandes dificuldades porque muitas instituições sociais fecham para férias. O alerta é da presidente do Banco Alimentar de Lisboa, onde neste período só 60% das organizações vão buscar alimentos para distribuir às famílias. Em Setúbal, menos de metade o fazem, sendo que este é um fenómeno que ocorre em todo o país. 

“Neste mês as pessoas passam pior”, reconhece Isabel Jonet, lembrando que o problema se repete todos os anos porque as instituições precisam de dar férias ao pessoal e escolhem o mês em que creches e outras valências sociais fecham. Também as conferências de São Vicente de Paulo, que trabalham com voluntários junto de centenas de paróquias, funcionam apenas com serviços mínimos, diz o presidente António Correia de Saraiva. “É um mês complicado para as famílias em situação de pobreza crónica, porque as outras ainda vão conseguindo alguns trabalhos temporários”.

Antecipar a distribuição de Agosto e fornecer em Julho o dobro dos alimentos é uma solução encontrada por muitas instituições. É isso que se faz no Banco Alimentar da Cova da Beira, que apoia 5.500 pessoas. Mas é uma solução com riscos, admite o presidente, Paulo Pinheiro, pois “muitas famílias não sabem gerir os bens” ao longo do tempo. É por isso mesmo que Isabel Jonet não defende a aplicação desta regra em Lisboa.

Em Setúbal também se opta por fazer a distribuição dupla dos alimentos não perecíveis (arroz, massa ou feijão) às organizações que não abrem neste mês de férias, embora o banco não feche e mantenha a capacidade para apoiar 40 mil pessoas. Mas o banco de Setúbal serve uma população que se estende até Odemira e, num mês a meio gás, às instituições pode quase nem compensar fazer 400 quilómetros para ir abastecer.

Alimentos da UE não chegaram

A dificultar também o apoio a quem passa fome está o atraso no Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas mais Carenciadas (FEAC), que substituiu o programa comunitário dos excedentes alimentares da União Europeia. Várias instituições contactadas pelo SOL confirmam que, ao contrário de 2014, este ano ainda não foram distribuídos alimentos. “Neste momento há uma grande escassez de alimentos uma vez que a vinda de produtos do FEAC está prevista apenas para Setembro e este ano ainda não foi realizada nenhuma distribuição substancial de cabazes alimentares”, alerta o presidente da AMI.

Fernando Nobre diz ainda ao SOL que, nos últimos anos do antigo programa comunitário, as quantidades doadas foram decaindo. Por exemplo, em 2010 a AMI recebeu 1315 toneladas de alimentos, e em 2014 só 350. “Prevemos, por isso, que este ano as quantidades provenientes deste fundo sejam muito menores”, diz Fernando Nobre.

Já as cantinas sociais funcionam todo o ano e a distribuição de refeições não é interrompida nas férias. O Instituto da Segurança Social garantiu ao SOL que a sua capacidade é até reforçada para fornecer refeições às crianças referenciadas pelas escolas e recebem o pequeno-almoço durante o ano lectivo.

Os últimos dados disponíveis, de Dezembro do ano passado, mostram que diariamente são confeccionadas quase 50 mil refeições.

rita.carvalho@sol.pt