Vida

Sofre de onicofagia?

Para uns, é um vício, para outros, um escape para vencer a ansiedade. A onicofagia ou acto de roer as unhas – das mãos e dos pés – é um problema que afecta grande parte da população portuguesa e que pode provocar sequelas graves.

o hábito da onicofagia (onico = unha; fagia = comer) nunca foi muito abordado, mas a verdade é que se trata de uma patologia para a qual há diversos métodos e processos de tratamento.

filipe moura, 32 anos, rói as unhas desde que se lembra. o “vício”, como lhe chama, não esteve associado a nenhum trauma de infância ou problema familiar. “é algo que faço desde sempre e quase instintivamente”. embora se considere “ansioso, o quanto baste”, revela que este tique ou mania tem tendência a aumentar de ritmo em “alturas de maior stresse”.

o facto de roer as unhas não o impede de tocar guitarra. a onicofagia – termo que desconhecia – não tem provocando grandes constrangimentos até à data. algumas mazelas nos dedos, uns poucos rasgões na pele e umas quantas feridas, mas nada mais do que isso. “normalmente, roo as unhas quando estou sozinho a ver um filme ou em frente ao computador e é algo quase inconsciente, em que nem reparo”.

no entanto, reconhece que o aspecto dos seus dedos não é o melhor: “por várias vezes já tentei deixar de roer as unhas por curtos períodos de tempo, mas não consegui, até porque nunca o fiz com grande determinação. sei que há quem use vernizes e outros produtos, mas nunca experimentei”.

o caso de filipe moura não é único, nem sequer dos mais graves. ainda faltam estatísticas sobre o assunto, mas é certo que existem quadros clínicos bem mais preocupantes.

algumas das consequências directas mais desagradáveis da onicofagia podem passar por deformações nos dedos, encurtamento radical das unhas ou a formação de tecidos de cicatrização exuberantes, que sangram com muita facilidade e que podem infectar, tendo por isso de ser destruídos o quanto antes.

“estas deformidades nas unhas podem levar a constrangimentos nos gestos do dia-a-dia e até a limitações profissionais. basta imaginar um ourives ou um guitarrista”, sustenta miguel trincheiras, dermatologista e autor do blogue derme (http://www.derme.pt/blog). além disso, acrescenta o especialista, “se a onicofagia se tornar crónica pode repercutir-se nos dentes, por via dos traumatismos, do desgaste do esmalte dentário e das cáries, entre outras complicações”.

o hábito pode ainda facilitar o surgimento e expansão de verrugas em torno das unhas que, por vezes, podem espalhar-se por todos os dedos. algumas lesões, por se prolongarem no tempo e por envolverem a matriz, podem causar deformidades definitivas na própria unha.

embora não possa ser considerada propriamente uma doença, a onicofagia é um tique e pode ser sintoma de uma outra patologia, do foro psicológico ou psiquiátrico. raramente tem causas físicas e, na maioria das vezes, “está relacionada com certos mecanismos psicológicos que levam a que a pessoa inicie o gesto de morder a unha, podendo ter que ver com períodos de maior ou menor nervosismo, ansiedade ou stresse emocional ou ainda, pelo contrário, com períodos de tédio ou até mesmo de fome”, revela miguel trincheiras.

a onicofagia leva ao contacto entre a boca e as unhas, duas zonas do corpo com uma grande quantidade de micróbios. as fendas e as feridas nos dedos vão fazer com que muitos microorganismos encontrem condições especiais para a sua proliferação e desencadeiem uma patologia. “podem ser patologias infecciosas, de origem bacteriana ou viral ou ainda de origem fúngica”, explica o especialista.

na maioria dos casos, a onicofagia é um fenómeno transitório que se inicia por volta dos quatro ou cinco anos de idade. no entanto, quando se torna crónica e começa a gerar deformidades nos tecidos da unha, é necessário intervir precocemente, para que as lesões nas extremidades dos dedos não se tornem definitivas.

“há que fazer uma avaliação psicológica dessa pessoa e saber se há algum factor que possa estar na génese deste acto compulsivo”, sugere miguel trincheiras. “algumas vezes, após esse exame, é algo que se consegue controlar com ansiolíticos, antidepressivos e outros medicamentos, como os anti-psicóticos”.

em termos mais práticos, o recurso a vernizes ou esmaltes pode ser uma boa solução, como refere o dermatologista: “se aplicarmos uma substância que seja desagradável, a pessoa apercebe-se de que está a roer a unha e pode ter tendência a parar. é como deixar de fumar. noutros casos mais acentuados, a hipnose pode ter também bons resultados”.

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