Cultura

Pilar del Río: 'Não sou a viúva de Saramago'

Mede bem as palavras quando fala de si porque acredita que a sua "vidinha não interessa a ninguém". Pilar del Río, 63 anos, portuguesa, ainda que tenha nascido em Sevilha, viveu durante 26 com o único Nobel português da Literatura. Mas o que importa é o escritor, avisa. No mês em que o Prémio Saramago foi atribuído a um escritor angolano, o SOL conversou com a jornalista que recusa existir por referência a alguém.

o prémio saramago 2013 foi entregue a ondjaki, escritor angolano, num momento conturbado entre angola e portugal. foi um sinal enviado de lisboa?

o prémio já estava decidido pelo júri, por unanimidade, antes destes conflitos de última hora. quando começaram estes acontecimentos entrei em pânico. não sabia se era inoportuno ou se era uma oportunidade. o livro de ondjaki é um grande livro, de grande literatura, muitíssimo bem escrito e serve para conhecer a realidade de angola, que também é um produto de portugal.

até agora só escritores de portugal e do brasil foram premiados. o prémio saramago é um prémio da lusofonia?

deixe-me dizer que não gosto do conceito. leva-me a pensar em 'hispanidade' e, por conseguinte, em franco. mas sim, é um prémio para autores de expressão portuguesa que serve para apresentar ao mundo a literatura em português: jovem (são escritores com menos de 35 anos), resistente e criativa.

o próximo nobel português da literatura pode sair deste grupo de premiados?

saramago dizia que sim, porque era um grupo que estava a trabalhar com honestidade e com rigor. mas ele era mais atrevido. não lhe vou dizer quem acho que tem todo o potencial para vir a ver a sua obra premiada com um nobel.

quem tem mais possibilidade: antónio lobo antunes ou algum dos escritores da nova geração?

há um escritor que saramago apontava como um possível candidato: mia couto.

mais do que lobo antunes?

os prémios nobel são entregues pela qualidade literária, pelo valor que representa a obra. como este ano o prémio foi para o canadá, não estou em crer que o comité venha a premiar tão cedo um escritor do canadá, por exemplo. mia couto é de moçambique, de outro país, de outro continente e um grande escritor.

a casa dos bicos reabriu há um ano e meio com a fundação saramago. que balanço faz?

estamos em obras desde que chegámos mas a casa dos bicos é hoje conhecida por ser a casa de saramago. é visitada por gente de toda a parte do mundo e esta projecção internacional é boa para a cidade e para o país. trata-se de património público gerido e estimado por uma instituição privada de interesse público.

está ultrapassada a polémica com a ida da fundação para a casa dos bicos?

houve alguns comentários um tanto ou quanto frívolos de gente sem base informativa. a casa dos bicos, que é um monumento público, está cheia de vida do primeiro andar até ao último.

mas o contrato é para dez anos. imagina a fundação fora da casa dos bicos?

se alguém chegar lá e disser que não somos dignos de viver ali ou que a casa dos bicos tinha melhor uso quando estava fechada, saio imediatamente. as coisas saem e desaparecem para sempre. já ninguém mais as vê.

como é que é tratada na fundação?

na fundação chamam-me pilar.

presidente ou presidenta?

no dicionário de português, de portugal e do brasil, existe a palavra 'presidenta': mulher que preside, esposa do presidente. como está no dicionário, então eu sou presidenta. mesmo que não estivesse, existindo a função a palavra teria de existir.

usa o acordo ortográfico na fundação?

sim. saramago fez parte do grupo que há 25 anos pensou: 'vamos avançar para um acordo. cada um terá o seu sotaque, mas o idioma é o mesmo, porque o idioma é vivo e evolui'.

seria este o acordo de saramago?

se calhar não. mas há 25 anos não foi possível por questões políticas e interesses comerciais um pouco bastardos. o acordo foi aprovado quando ele tinha 86 anos. ele disse que não ia modificar a sua forma de escrever mas, como há correctores, pedi para que fosse corrigido antes de ser publicado.

é conhecida por ser uma mulher de convicções fortes. nunca pensou aderir a um projecto político?

não. em espanha houve algumas pessoas e alguns partidos que me abordaram para perceber a minha disponibilidade para ir para o parlamento. mas eu não fui.

não se vê dentro de um partido?

se um partido é fechado é porque a maioria dos cidadãos dá as costas e deixa que se decida tudo dentro das cúpulas. depois acabamos nisso: 200 pessoas a fazer propostas e a decidir. apesar de nunca ter sido militante, participei na discussão de resoluções que foram aprovadas no parlamento espanhol. a dinâmica de participação era maior. a pergunta que faço é: onde está a sociedade?

devolvo a pergunta.

saramago dizia-o tão claro: perfila-se uma forma de entender o mundo com base em três factores - indiferença, medo e resignação.

os partidos continuam a ser essenciais para a democracia?

a democracia é a participação do povo. os partidos são a forma de articulação política constitucional. não temos outra. agora, para haver democracia, a sociedade não pode abdicar. e neste momento está abdicar porque está farta. veja-se o exemplo do rui tavares, alguém que faz alguma coisa quando está farto. e vejo-o vivo.

nunca duvidou se era de esquerda?

não. tenho dúvidas para tudo, menos de que sou uma mulher de esquerda e de que sou uma dúvida com pés.

e a esquerda portuguesa nunca a seduziu para aderir a um partido?

não. recebi um convite de mário soares para participar na primeira sessão da aula magna. participei no congresso das alternativas. mas isso são iniciativas cívicas, nada mais. e não sou ninguém e ter mário soares a convidar-me é sempre uma honra.

como viu a reeleição de antónio costa em lisboa?

antónio costa é um bom presidente e por mais que pense não me ocorre um nome melhor. é uma mais-valia e penso que a cidade de lisboa tem de estar à altura de antónio costa.

imagina-o em belém?

a presidência da república vai precisar de uma pessoa forte, moral e intelectualmente. alguém que seja capaz de representar portugal no mundo, que tenha autoridade perante os partidos e que possa mediar a sociedade portuguesa. podia ser antónio costa? poderia, mas penso que precisamos dele em outros lugares, com a sua capacidade e o seu estilo.

quer concretizar algum nome?

não. mas vejo vários com este perfil.

como é a sua relação com o secretário de estado da cultura, barreto xavier?

conheci-o quando tomou posse e tenho uma relação muito boa com ele. fomos juntos à colômbia defender a cultura portuguesa e reconheço a dificuldade que ele tem em tentar fazer muito com os poucos recursos que tem. não entendo como é que a cultura ficou reduzida a uma secretaria de estado sem assento no conselho de ministros. o ministro da cultura devia ser o ministro mais importante de portugal. este governo só se recorda da cultura quando se trata de assinalar o dia de camões e fazer as condecorações.

o primeiro-ministro esteve na estreia da peça de josé saramago, a noite, no teatro da trindade. ficou surpreendida?

fiquei. sei que o primeiro-ministro é um espectador assíduo de ópera no são carlos. fiquei surpreendida porque foi à estreia de uma peça sobre a noite do 25 de abril de 1974 e que é de saramago. talvez o que aquela noite de 25 de abril significou naquele tempo lhe traga alguma recordação. o que significou de esperança e de sonho, de participação e de um lugar para todos e para cada um.

já se encontrou com cavaco silva depois do funeral de josé saramago?

sim, por acaso. foi numa reunião com muitas pessoas e eu não sabia que ele ia lá estar. de repente, na parte dos cumprimentos, cruzamo-nos, esticamos a mão e cumprimentamo-nos. era uma pessoa anónima entre as demais anónimas.

está ultrapassada a ausência do presidente da república nas cerimónias?

ele fez-se representar pelo embaixador de portugal em madrid, que me entregou uma carta pessoal do presidente. portanto, esta questão está ultrapassada.

pediu nacionalidade portuguesa, traduz do português para o espanhol, mas não fala português. porquê?

penso que com um bocadinho de esforço todos nos podemos entender. o meu contributo para o português é traduzi-lo para o espanhol. permitam-me não falar mal português nem destruir o idioma. não vou conseguir falá-lo bem porque são muito semelhantes. e quando se dirigirem a mim, façam-no em português. porque sinto como uma agressão quando tentam falar espanhol. não destruam o espanhol. um português pode falar estupidamente bem inglês ou alemão mas não conheço um português que fale estupidamente bem espanhol.

mas esta dificuldade é real ou evita expor-se a esta fragilidade?

penso que é mesmo a minha costela espanhola. nós temos dificuldades na forma como se aplicam cientificamente outros idiomas. quando era nova não se estudava inglês porque era a língua de inglaterra, que nos havia roubado gibraltar. estudava-se um pouco de francês. mas só um pouco, porque com isso vinham as ideias perniciosas, como a democracia e a liberdade. esta foi a minha educação até aos 25 anos.

as críticas não a afectam? quando a acusavam de ser a espanhola que veio roubar o português, por exemplo...

não. foram ditas muitas coisas, mas são opiniões. ninguém é obrigado a gostar de mim. óbvio que seria muito melhor se todos nos respeitássemos.

nunca se arrependeu de pedir a nacionalidade portuguesa?

nunca.

tem muitos amigos em portugal?

sim. tenho um grupo muito grande e compacto de amigas, de várias cidades. tentamos encontrar-nos uma vez por semana, mas nem sempre há tempo.

sei que a acusam de nunca parar.

claro que paro. quando saio do trabalho e não tenho compromissos vou para casa e paro. bom, ligo o computador, respondo a alguma carta, tomo um copo, vejo algum programa de debate na televisão. penso que a coisa que mais gosto na vida é de estar em casa.

o seu filho vive consigo?

às vezes. ele vivia na argentina. nos últimos meses da doença de saramago ele apareceu com um amigo para aquilo não se transformar num hospital e ganhar vida. foi estupendo.

lembro-me que uma vez disse que sentia necessidade de abrir a casa de lanzarote para não explodir.

sim, porque não posso guardar tantas vivências. foi a casa onde vivi com saramago durante 17 anos. não há uma só esquina ou uma parede que não tenhamos pintado. todos os dias de manhã as portas da casa são abertas e as luzes do escritório são ligadas. pomos flores frescas e música bem alta. depois, às 14h, a casa fecha. há dias esteve lá anonimamente um escritor galego. depois escreveu uma crónica linda onde ele dizia que de algum modo esteve com saramago.

quanto tempo passa lá?

muito pouco, porque a fundação está em lisboa. e isso deixa-me magoada. a casa de lisboa não é a minha casa.

sente-se incomodada por ser chamada a viúva de saramago?

muito. olho para isso quase com violência. nunca fui 'a' mulher do saramago, nunca fui 'a' filha de não sei quem, nunca fui 'a' mãe de não sei quem. desde que tenho o uso da razão fui a pilar del río, com o conteúdo que lhe dei. sou um sujeito autónomo. não sou a pilar saramago, mesmo que legalmente tenha o apelido.

pediu-o?

quando me casei perguntaram-me se queria o apelido saramago e eu disse que não. qual não foi a minha surpresa quando peço a nacionalidade e vejo que o meu nome passa a ser pilar saramago. fiquei perplexa.

mas foi esposa de saramago.

sou companheira. agora e antes. saramago não era propriedade minha e eu não era propriedade de saramago. se me dizem que a pilar del río não é ninguém e têm de a pôr em referência a alguém, neste caso a saramago, então refiram-se à companheira.

será sempre a companheira de saramago?

estou completamente habitada de afectos, de sentimentos, de lembranças e de vivências. perante tudo isto, vou querer um namorado? não.

nasceu em sevilha há 63 anos. que memórias guarda da sua infância?

eu não tive infância. sou a mais velha de 15 irmãos e sempre tive de ser uma segunda mãe, porque quem nasce primeiro assume responsabilidades. mas todos os meus irmãos têm um sentido de responsabilidade enorme. foi sempre assim: os mais velhos ajudavam os mais novos. estão todos a viver em espanha.

estão juntos muitas vezes?

nos últimos tempos participei pouco nos encontros que se fazem na casa da minha mãe, que já morreu. mas temos a chave da casa uns dos outros e mantemos a casa dos meus avós e dos meus bisavós. são casas vivas e habitadas e lugares de encontros entre irmãos. mas estamos sempre em contacto. recebi há dias um email da minha irmã que vive no país basco com uma foto do lugar onde ela vive coberto de neve. e dizia: 'que paisagem bonita. merda que não possamos ver esta neve sem pensar nas pessoas sem tecto'. fiquei emocionada.

o que é que os seus pais faziam?

a minha mãe paria e o meu pai pilotava avionetas e tinha alguns negócios na área da fotografia.

era próxima deles?

antigamente os pais estavam nas suas vidas. não estavam a tomar as decisões pelos filhos. isso é uma coisa nova que a mim me deixa chateada. a mãe ficava em casa a cuidar dos filhos e o pai fora.

com que idade saiu de casa?

penso que com 18 anos. fiz os primeiros anos da universidade em granada e depois fui para sevilha. nunca fui mantida pelos meus pais. saí para ir estudar e para ir trabalhar. mas não gosto muito de falar sobre isso. há tanta coisa da qual não me recordo.

estudou filosofia e letras mas foi parar ao jornalismo. foi uma opção?

comecei a trabalhar muito cedo como jornalista, com 20 e poucos anos, em sevilha. mas ainda na universidade colaborei num jornal para crianças. depois saí e passei pela rádio, pela televisão e pela imprensa. entretanto saiu uma lei que pedia exclusividade e aí acabei por ficar na televisão. quando venho para lisboa, com 37 ou 38 anos, vim como correspondente da tve e depois da cadena ser.

viveu o drama da ditadura enquanto jornalista. foi díficil cumprir a sua missão?

se estava a falar de água era para falar contra franco. não éramos angelicais ou independentes. e vomito sobre o conceito de independente. somos todos dependentes da nossa história. e cada vez que escrevia para um jornal ou para uma rádio estava a militar contra a ditadura. sempre que me diziam para não ir por determinado caminho ia por um caminho paralelo.

chegou a ter algum texto censurado?

não, porque já não havia censura prévia. mas na noite em que franco morre fui acusada pelo meu editor na rádio de ter brindado à morte do ditador. veio ter comigo e disse que não esperava de mim a desumanidade de ter brindado com champanhe à morte de um ser humano.

e brindou?

como? eu estava grávida. não podia tocar em álcool. há três noites que reunia um grupo de amigos a aguardar a notícia. até que naquela noite, tão desiludida, disse: 'franco não vai morrer nunca'. e não reunimos ninguém. de repente, às nove da manhã, vejo crianças na rua. fui a correr acordar o meu marido e disse: 'fernando, crianças na rua, franco morto'.e ele, mais racional, disse-me logo: 'não encontro a relação'. vesti-me e saí de casa para comprar os jornais: 'está morto', lia-se nos títulos. fui para a rádio. tínhamos a rádio nacional ligada e só se transmitia música clássica e pessoas a chorar diante do cadáver de franco.

como foram os primeiros anos de liberdade?

activos. militantes. era jornalista militante. o desafio era ajudar os partidos políticos a sustentar a democracia porque havia quem acenasse com uma revolta. era amiga de adolfo suárez [primeiro presidente de espanha pós-franco].

recebe reforma em espanha?

não, não tenho idade nem condições para isso.

frequentou o instituto das monjas teresianas, cujo lema era 'ver, ouvir e não calar'. o que lhe interessava na proposta da igreja católica?

isto acontece no final do secundário até à universidade. não era freira de hábito. e não creio em deus e já nesta altura não acreditava. fui para lá atraída pelo espírito do concílio vaticano ii, que se ligava directamente com a minha militância na esquerda e porque tinha a ver com uma igreja progressista, aberta e onde cabiam todos. li tudo sobre o concílio vaticano ii. parecia-me o movimento mais interessante no último século sobre a teoria da liberalização.

o papa francisco pode ir neste sentido de uma igreja onde cabem todos?

não o conheço o suficiente. mas o acto mais revolucionário que vi até agora na igreja católica foi a renúncia de bento xvi. o papa francisco, por seu lado, tem feito muitas declarações, mas falta a acção. falta consolidar e concretizar estas palavras.

sobre que temas tem dificuldade em perceber o que diria saramago?

nunca na vida me atreveria a atribuir um pensamento a saramago. nunca, nem debaixo de tortura. o que disse saramago está dito.

já pensou em quem a vai suceder na fundação saramago?

pensei, claro.

tem um nome?

sou suficientemente comunitária e social para pensar que as soluções não são nomes. isto são projectos. claro que penso no futuro. mas a vida é muito mais rápida do queremos e não podemos arrastar situações.

saramago queria que pilar o continuasse. tem conseguido?

não sei. não faço esta análise. cada um que a faça de acordo com os seus critérios. a única coisa que digo é que tenho uma grande responsabilidade e um grande temor. saramago é demasiado grande e o meu medo é que sejamos redutores da figura de saramago. josé saramago nasce um em não sei quantos séculos e em não sei quantos países. o problema é não reduzir, não reduzir.

vamos imaginar que faziam a sua biografia. como gostava que a descrevessem?

quem disse que gostaria que me descrevessem?

todos temos uma história que merece ser contada... qual seria a sua?

eu já a contei. durante 24 horas guardei em silêncio, embora a informação me saísse por todos os poros do corpo, a maior notícia que pode haver na vida de um escritor: que saramago tinha recebido o prémio nobel. acabei com espasmos musculares no estômago de tanto silêncio.

como se imagina daqui a 10 anos?

a viver, espero.

ricardo.rego@sol.pt