Catar. 300 mil milhões de euros para fintar o boicote sunita

País é o maior fornecedor mundial de gás natural liquefeito. Recente expansão dos portos permite continuar a exportação e contornar encerramento da única fronteira terrestre

A crise diplomática entre o Catar e os seus vizinhos árabes poderá custar milhares de milhões de dólares devido à diminuição do comércio e do investimento. No entanto, com mais de 355 mil milhões de dólares (300 mil milhões de euros) em ativos geridos pelo seu fundo soberano, o Catar parece capaz de evitar uma crise económica espoletada pelo corte das ligações terrestres, aéreas e de transporte da Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Bahrain. 

A recente expansão dos portos permite ao pequeno país de 2,7 milhões de habitantes continuar a exportação de gás natural liquefeito, negócio que gerou um superávite comercial de 2700 milhões de dólares em abril. O Catar é o maior fornecedor mundial de gás natural liquefeito. Esta exportação e a melhoria dos portos permitem importar os bens que o fecho da fronteira terrestre com a Arábia Saudita, a única do país, impede. 

Mas há aspetos da economia do Catar que sofrerão muito com a contenda. A Qatar Airways – uma das companhias aéreas mundiais em maior expansão – está no centro da tentativa do Catar de se tornar um hub turístico e deverá sofrer com a interdição de voar para alguns dos principais aeroportos do Médio Oriente O Hamad, principal aeroporto do Catar, transportou quase dez milhões (9,8) de passageiros no primeiro trimestre de 2017. 

Mundial 2022

O governo de Doha tem também estado a pedir dinheiro emprestado para financiar os 200 mil milhões de dólares necessários para a construção de infraestruturas para o Campeonato do Mundo de Futebol de 2022.

Por causa do torneio estão em curso muitos investimentos estrangeiros no país, especialmente no setor da construção. Segundo a BBC, um novo porto, um metropolitano, um centro médico e oito estádios são alguns dos exemplos de obras atuais.

Os custos de construção também poderão aumentar, impulsionando a inflação, uma vez que o alumínio e outros materiais de construção ficarão mais caros ao já não poderem ser importados por terra.

Dado que todos os países dependem muito das exportações de petróleo de gás natural, o comércio entre os países da região é muito reduzido, o que limita as ramificações da sua disputa. Os EAU são o maior parceiro comercial da região, mas apenas o quinto maior a nível mundial. Os dados revelam ainda que só 5% a 10% do investimento na bolsa do Catar vêm dos países da região, pelo que mesmo um corte total não deitaria o mercado abaixo.

Alimentação

No entanto, o Catar terá custos elevados noutras áreas. Um dos temas sensíveis é a segurança alimentar. No caso do Catar, 40% dos alimentos consumidos chegam por terra. Sem a possibilidade de usar as fronteiras terrestres, o país vai depender do ar e do mar, o que pode comprometer o custo do transporte e pressionar os preços.

A Arábia Saudita e os EAU forneceram 309 milhões de dólares dos 1050 milhões de dólares de importações de comida do Catar em 2015. A maioria, e principalmente os laticínios, passam pela fronteira terrestre da Arábia Saudita. Doha terá de encontrar alternativas.

Ainda não é claro que Riade consiga atrair mais países para o corte de relações com Doha. Mas poderá tentar forçar as empresas a optarem por uma escolha entre continuar os negócios com o Catar ou acederem ao seu mercado, que é muito maior e está em abertura.

“Toda a gente espera que as coisas acalmem mas, para já, parece que há uma escalada crescente da tensão”, diz um analista citado pela agência Reuters.

Investimentos globais

Uma outra questão que este corte diplomático levanta prende-se com a produção de petróleo. Embora a produção do Catar seja de apenas 600 mil barris diários, esta crise poderá enfraquecer o apoio de Doha ao acordo da Organização dos Países Exportadores do Petróleo (OPEP) para um corte na produção.

O fundo soberano do Catar – Qatar Investment Authority (QIA) – é o 14.o maior do mundo, com investimentos desde o setor bancário ao imobiliário, incluindo em Portugal (ver texto ao lado). O fundo catari é o terceiro maior acionista da Volkswagen – com ações no valor de nove mil milhões de euros –, atrás da família Porsche e do estado alemão da Baixa Saxónia. E há outros.

Na Tiffany, empresa norte-americana de joalharia, a parcela chega a 13%, o que equivale a 1,4 mil milhões de dólares. O QIA detém também 21% da Glencore (mineração e exploração de recursos naturais) e igual percentagem da Siemens (energia e saúde). No setor bancário, detém 6% do Barclays – comprados depois da crise financeira global – e 8% do Crédit Suisse.

A nível imobiliário destacam-se os investimentos no Empire State Building. Em agosto, o fundo investiu 622 milhões de dólares na Empire State Realty Trust, empresa que controla e gere o edifício icónico de Nova Iorque, além de outras propriedades na cidade.

O fundo soberano também detém 8,3% da Brookfield, empresa de gestão de ativos a nível mundial. Entre os ativos geridos por esta empresa destacam-se os de Londres. Na capital britânica a Brookfield gere os armazéns Harrods, a aldeia olímpica dos Jogos de 2012 e o Shard, o edifício mais alto da União Europeia.

A carteira do QIA tem também uma presença forte no setor da energia, com destaque para os 61% da rede de gás natural britânico controlada pela National Grid. Em dezembro de 2016, o Catar adquiriu uma participação de 19,5% da petrolífera estatal russa Rosnef e, ainda neste setor, o fundo soberano catari detém uma participação de 4,6% na anglo-saxónica Royal Dutch Shell.