as folhas de muitas videiras arderam e não vão adquirir este ano aquela cor escarlate, com laivos de laranja, que habitualmente pinta por esta altura as escarpas do douro.
quando beatriz era menina, as férias grandes, em meados de setembro, ainda tinham muito para dar.
as aulas só começavam a 7 de outubro, depois do feriado da implantação da república.
por esta época, em moura, o cheiro forte a terra molhada, produzido pelas primeiras trovoadas, dava o primeiro sinal de que um novo ciclo se aproximava.
a fernanda ensinava à beatriz a diferença dos cheiros e das cores – e explicava que as pessoas gostavam ou temiam o diferente, só por ser diferente.
quem aprendeu com ela essas coisas que não vêm nos livros passou a ser olhado de lado na vila – mas tornou-se, com maior facilidade, cidadão do mundo.
beatriz perdeu com a amiga o medo dos ciganos, criado e alimentado pela avó, que repetia sempre que as via sair pela tardinha: «vão só até ao jardim dos mal-encarados, não as quero para o lado dos quartéis. eu que saiba!».
nos quartéis, para a cabeça da avó maria, estava sediado o mal: acampamentos de ciganos e, numa casa velha de esquina, duas ou três mulheres de ‘vida fácil’.
beatriz viu-as uma ou duas vezes, quando se juntava com a fernanda à grande família dos ciganos – à volta de uma fogueira pequena, acesa apenas para secar as roupas encharcadas pela primeiras chuvas, que marcavam formalmente a chegada do outono.
beatriz não viu nada de especial: eram mulheres comuns, um bocadinho velhas (para a percepção que tinha da idade dos adultos) e duas estavam de lábios pintados. nesse tempo, beatriz acreditou que era precisamente no carmim dos lábios que se encondia o mal de que a avó as queria proteger.
passaram 50 anos. a fernanda é pintora na china. perderam-se uma da outra nas encruzilhadas da vida. beatriz reencontrou-a numa noite gelada e solitária num hotel de castelo branco, quando acendeu o televisor para se sentir acompanhada e começou a ouvir uma voz familiar.
era ela, a companheira cúmplice que lhe ensinara a abrir os cinco sentidos e a perceber que se podem pintar cheiros e sons e as agruras da pele. que se pode pintar o gosto da carne do alguidar em dia de matança.
mas não tinha ninguém a quem contar o que lhe estava a acontecer de bom. só pela manhã, ao pequeno-almoço, encontrou a vanda – como ela, caixeira-_-viajante de itinerários de formação.
hoje, o ritual das estações do ano nos países temperados só existe nas memórias e nos livros.
setembro, o melhor mês do ano, foi roubado às férias porque os avós estão sozinhos nos lares e não podem proteger os netos do mal que as suas imaginações alimentavam.
se a avó de beatriz fosse viva, talvez estivesse de acordo com o senhor sarkozy e com a sua política xenófoba contra ciganos e outros pobres que teima em expulsar da ‘democrática frança’, perante a passividade de uma europa da qual jacques delors se envergonhará.
felizmente, a avó descansa em paz há muitos anos.
e acredito que também não aceitaria de bom grado que a primeira-dama de frança tivesse uma história de vida tão fácil.
para a avó maria, se fosse viva, o mal do mundo continuaria a caber em moura na zona dos quartéis.
a neta, essa, continua a ser amiga dos ciganos até à medula.
deixaram-na mesmo pertencer de pleno direito à associação das mulheres ciganas, liderada pela olga pombo, cigana assumida, poetisa, mediadora de conflitos.
se a avó fosse viva hoje, talvez pudesse ainda perceber que o mal é só falta de amor.
