O capitalismo de Castro

Na banda desenhada há um povo e, mais concretamente, um herói que tem a simpatia generalizada dos leitores.

astérix. rodeado de romanos por todos os lados, o povo de uma pequena aldeia da gália resiste às investidas dos invasores. possuindo uma poção mágica, que lhes dá força sobrenatural, um punhado de camponeses liderados por um velhinho pequenote derruba, batalha após batalha, um exército numeroso e quase imbatível. quase, porque aquela aldeia gaulesa é irredutível.

na vida real, milhões de pessoas nutriam (nutrem) simpatia por uma pequena ilha e, mais concretamente, por um herói: fidel, o líder de cuba. rodeada de mar e cercada pelo boicote económico dos estados unidos da américa, cuba entrou no imaginário de milhões de pessoas. contra ventos e marés, os cubanos resistem às forças do mal, é comum ouvir-se.

o capitalismo na sua vertente mais feroz não consegue vergar um povo instruído que se transporta em carros do tempo da revolução, 1957, que praticamente não conhece luxos, mas onde todos têm direito a cuidados de saúde, ensino superior, a uma casa e à prática de desporto. outro pormenor dos livros: não há praticamente classes sociais — o estado controla toda a economia —, já que um professor ganha o mesmo que um operário. esta foi a imagem vendida ao mundo durante muitos anos. não muito longe, outros países tentaram recentemente copiar o modelo perfeito: venezuela e bolívia.

no imaginário de milhões de jovens, che guevara, o outro herói desta história, é tão admirado que o transportam consigo estampado nas t-shirts que envergam. talvez seja um dos maiores ícones do mundo…

na semana passada, uma declaração de fidel arrasou corações quando declarou que o modelo cubano estava esgotado. dias depois, o irmão — que lhe sucedeu no lugar de timoneiro — anunciou o despedimento de 500 mil trabalhadores estatais até março de 2011 e que igual número terá o mesmo destino até 2013. de uma penada, um milhão de trabalhadores terá que passar a safar-se segundo o sistema capitalista.

o desfecho desta história é mais ou menos previsível, mas só quando as medidas entrarem em vigor é que se perceberá a extensão das mesmas. numa época em que o capitalismo selvagem é posto em causa, não deixa de ser irónico que um dos últimos bastiões do socialismo anuncie a sua morte. o sonho está a virar pesadelo para todos os fãs de fidel. aqueles que tiveram oportunidade de conhecer a vida na ilha sabiam perfeitamente que era um modelo sem futuro. onde faltava quase tudo, além desse bem tão importante que é a liberdade. os romanos, perdão, capitalistas estão às portas da ilha.

vitor.rainho@sol.pt