isto de ter um cancro dá algum estatuto. primeiro, a maioria dos outros humanos olham para nós com ar complacente, enquanto dizem: «estás com muito bom aspecto». e pensam: ‘…para quem tem uma doença fatal’.
ditas as frases convenientes, imaginam (consolados) que nos sobreviverão. o que não está provado. o último tabu da nossa sociedade é a morte. e são muito poucas as pessoas que conseguem rompê-lo com algum sucesso.
em segundo lugar, quem tem um cancro – e não morre primeiro de medo – pode crescer muito como pessoa. se estiver atenta a si e aos outros.
há sempre alguém que, em cada dia, nos ensina alguma coisa de novo.
no ipo de lisboa só se encontram crianças juntas com adultos no serviço de análises. isto dos cancros exige muitas análises.
uma técnica desse serviço, com mãos macias e experientes, tentava tirar sangue a um garoto de nove ou dez anos. gentil, disse-lhe: «se te doer diz, que eu paro logo».
o menino, feito homem pelo sofrimento, respondeu sereno, mas determinado: «para quê? sabemos os dois que dói, se te digo ficas nervosa e tens que me picar mais vezes!».
nunca mais senti que fosse dor o incómodo de procurar sangue em veias estragadas pela quimioterapia.
os de entre nós que se curam (ou que têm grandes interregnos de bem-estar), e que assumem pertencer àquela ‘família’ que inclui doentes, profissionais de saúde, acompanhantes e voluntárias, passam a ter agradáveis surpresas de vez em quando.
pela primeira vez fui convidada para o onco forum 2010, organizado pela associação portuguesa da engenharia e gestão da saúde, na fundação gulbenkian, a 7 e 8 deste mês.
nunca tinha assistido a um forum oncológico. assisti pela primeira vez – e da próxima, se houver próxima, garanto que participo.
os senhores doutores médicos e enfermeiros falavam entre si de temas que me faziam completamente sentido. e só a ausência do domínio da linguagem específica me impediu de pedir a palavra, quando esta era oferecida à assembleia.
discutia-se a eficácia dos planos oncológicos – que, ao que percebi, não têm passado (em portugal como em espanha) de documentos fechados nas doutas gavetas dos doutores que mandam na saúde mas já vêem poucos doentes.
mais tarde foram tratados dois temas mais acessíveis àqueles a quem os peritos chamavam ‘sociedade civil’. ainda não percebi porquê. nem a que corporação das forças armadas pertenciam os ilustres conferencistas.
os temas eram estes:
1 – a eficácia ou não do rastreio do cancro da mama.
2 – a importância das consultas multidisciplinares daquele carcinoma, sem que haja verbas que permitam trabalhar nas condições mínimas.
considero um privilégio ter ouvido o que ouvi, e anotado parte do que percebi.
considero um direito/dever contar, em síntese rápida, a experiência que vivi nestas duas áreas.
em março de 2009 fiz uma mamografia e uma ecografia mamária de rotina, cujo relatório nem sequer pedia citologia – o que me deixou a mim e à minha ginecologista de quase uma vida tão tranquilas como no ano anterior.
em agosto do mesmo ano – cinco meses depois, portanto – apalpei um caroço, repeti os exames e foi-me diagnosticado um cancro de mama ductal invasivo g3.
fui tratada no ipo de lisboa, um grande hospital em qualquer sítio do mundo civilizado. porém, antes de começar o tratamento, tive de passar – como todos os doentes – pela referenciada consulta multidisciplinar do cancro da mama.
penso que é constituída pelos mais experientes e competentes clínicos das diferentes especialidades que trabalham articuladamente esta doença.
o que penso também, porque o vivi, é que de trabalho em equipa não têm grande formação.
da equipa, só vemos um elemento, no máximo dois, se protestarmos muito. e nesta situação é raro alguém protestar.
antes da cirurgia, no caso de ser essa a técnica adoptada, temos que voltar outra vez à mesma equipa.
segundo soube no forum, é por falta de dinheiro que esta consulta – que devia ser securizante num pré-operatório – é muitas vezes transformada em algo semelhante a uma sentença por um crime desconhecido: «como sabe, temos que fazer uma mastectomia radical».
durante os seis meses anteriores de tratamento, todos os médicos me tinham dito e escrito que eu faria uma cirurgia de conservação, tendo por objectivo último a cura.
para ser perfeito, o ipo precisa ter em conta aquilo que sabe serem as suas fragilidades, como ouvi no onco forum.
