uma imagem vale por mil palavras, dizem os entendidos. os meus netos sorriem sempre que ligo o computador, com o qual não tenho nenhuma relação de cumplicidade.
o sorriso deles entra por mim dentro – e mesmo nos dias mais escuros, nos dias de solidão, vou ficando outra à medida que interiorizo tudo o que vem do outro lado da vida.
isto está a acontecer-me hoje outra vez.
enquanto fixava outra imagem impressa num jornal diário, relativa à apoteótica visita ao minho do presidente hugo chávez – imagem que mostrava a solicitude do nosso primeiro-ministro, apanhando do chão uns papéis que chávez deixara cair –, levantei os olhos para o monitor e vi o sorriso do meu ‘pirata bom’, que parecia dizer-me: «foi assim que a alemanha perdeu a guerra».
– e em boa hora! – disse eu para o sorriso malandro que me interpelava.
ele, o presidente, veio encomendar barcos – e isso é bom. veio comprar barcos que os açores não querem – e isso é óptimo. veio encomendar mais magalhães – e isso parece também ser bom para a nossa raquítica economia (e para milhares de crianças venezuelanas. a propósito: não se esqueçam de traduzir bem o software).
mas, como uma imagem vale mais que mil palavras, o ar prepotente com o qual o senhor presidente chávez dizia que vinha dar as duas mãos ao seu ‘amigo josé’ arrepiou-me.
crescer dói. e, mesmo que não acreditemos, nunca se pára de crescer. e continua sempre a doer.
há 30 anos eu ficaria provavelmente emocionada a olhar para aquele acto, que consideraria de ‘solidariedade internacionalista’.
mas hoje sei que não há ditadores bons e ditadores maus. e sei também que o socialismo não tem culpa nenhuma que o engenheiro sócrates e o comandante chávez o adoptem como apelido.
este é o meu tempo. enquanto viver, não é provável ouvirem-me dizer: «no meu tempo é que era bom». assumirei as condições do tempo que me for concedido para tentar ajudar, um infinitésimo que seja, a torná-lo menos mau.
talvez alguns dos que lêem esta crónica achem graça à sugestão de juntar alguns filhos de abril – da geração dos 30 aos 40 anos – que têm ideias novas e as levam à prática nos seus locais de trabalho, que não foram formatados nas juventudes partidárias e que queiram oferecer 10 anos das suas vidas ao serviço da coisa pública.
muitos seriam os chamados – e talvez muito poucos os que diriam ‘sim’. mas não custa tentar.
temos falta de liderança.
não é líder quem quer, é líder quem pode. independentemente dos diplomas académicos, só temos chefes nesta europa envelhecida.
eu preferia que, em vez de nos comprar tudo o que temos para vender, a américa latina nos emprestasse líderes. já não peço o lula da silva, mas homens como o chefe de turno dos mineiros chilenos soterrados 17 dias numa mina sem saberem se alguém estaria a procurá-los. e depois mais de um mês sabendo que o resto do seu país tentava salvá-los.
ninguém contestou a dieta rígida imposta pelo líder para poderem sobreviver com os magros víveres que existiam a 300 metros de profundidade. ninguém brigou, ninguém tentou roubar o que era a sobrevivência de todos.
ele, o líder, era o último a comer – como foi o último a entrar na campânula mágica que os salvou a todos.
talvez as empresas caça-talentos queiram ajudar nesta aventura de encontrar líderes em portugal.
