Facebook é arma de protesto

Criar grupos no Facebook para contestar as políticas económicas do Governo tem vários objectivos. Alguns querem propor soluções, outros desejam ser ouvidos pela classe política, muitos pretendem informar e, claro, todos querem protestar. Na rede social mais usada da actualidade, uma pesquisa contendo a expressão ‘medidas de austeridade’ revela a existência de 20 grupos, número…

quando, a 13 de maio, josé sócrates apresentou o pec ii não houve milagre que salvasse os portugueses. nesse dia, segundo o primeiro-ministro, o «mundo mudou», os portugueses defrontaram-se com a notícia dos primeiros aumentos de impostos e cortes na despesa e começaram a surgir os grupos de contestação.

carla silva criou o grupo não às medidas de austeridade… por considerar que «o povo português é pacífico demais». apesar de ter passado algum tempo fora do país, carla manteve-se informada e acompanhou a discussão em torno da situação económica nacional. não concordava com as medidas que foram tomadas no âmbito das medidas de contenção orçamental e, de regresso à pátria, queria unir um conjunto de pessoas que, partilhando as mesmas opiniões, se colocassem à parte dos partidos e dos sindicatos e se unissem para se fazer ouvir nas ruas.

criar um grupo no facebook surgiu como um passo natural para alcançar esse objectivo. mas, o que poderia ter sido um movimento cívico e independente de contestação, esbarrou no que considera ser a falta de «interesse e espírito crítico dos portugueses». seis meses passados sobre sua criação o grupo perdeu completamente a actividade e carla, desiludida, garante que em portugal as pessoas «falam, falam, falam, mas não querem saber».

aliás, dos 20 grupos criados para contestar as medidas de austeridade, a maior parte perdeu a força inicial durante o primeiro mês em que esteve activo. os seus criadores não foram bem sucedidos em manter a discussão acesa, há pouca dinâmica na publicação de conteúdos e o número de membros estagnou, não chegando na maior parte dos casos aos 100.

mas existem excepções à regra e o tirem a mão do meu bolso! quem provocou a crise que a resolva! é uma delas. um «exercício de cidadania», como o seu criador o define, este grupo conta com a participação de 14.126 pessoas.

josé manuel candeias conta que inicialmente não teve noção de que o facebook tinha tão grande potencial para juntar «pessoas com o mesmo tipo de preocupação», mas garante que quando recebeu um «retorno surpreendente» aos conteúdos que publicava, passou a procurar, por um lado, «chegar a pessoas menos informadas» e, por outro, fazer do seu espaço um local para quem deseja debater e pensar sobre os temas da actualidade.

as conversas acerca da situação económica do país saltaram dos cafés para as páginas virtuais do facebook e a vantagem é que, se as palavras partilhadas entre um pastel de nata e uma meia de leite chegariam, no máximo, à pessoa da mesa do lado, os comentários escritos nos murais desta rede social podem, esperam os seus utilizadores, alcançar os decisores políticos. josé manuel candeias também pensa que as críticas, sugestões e invectivas lançadas nos murais chegam às esferas mais altas, embora não acredite que possam influenciar decisões devido «à postura autista» dos políticos.

para combater esse ‘autismo’, e como os portugueses querem ter a certeza que são ouvidos, está a circular entre os utilizadores do facebook um convite para uma grande manif de cidadãos anónimos. a data dessa iniciativa de cidadãos já foi alterada três vezes, com o objectivo de juntar um número razoável de pessoas e, neste momento, estão confirmadas 306 presenças frente à assembleia da república no dia 11 de dezembro, um sábado. os proponentes desta manifestação assumem-se como «cidadãos anónimos» que «não podem ficar sentados no sofá a lamentar o estado da nação» e que vão, à margem de partidos políticos e sindicatos, entregar na assembleia da república as suas sugestões para o país.

os portugueses utilizam o facebook para debater, contestar, reclamar contra as políticas económicas do governo e começaram já a aperceber-se do seu potencial para criar consensos e unir pessoas. vingam os grupos e iniciativas aos quais os criadores dedicam mais tempo, aqueles que conseguem fidelizar os membros por terem murais dinâmicos onde os utilizadores encontram conteúdos inovadores.

no fundo, os grupos que vingam são os que conseguem manter o seu mural animado e interessante, como uma boa conversa.

sol