se estivesse em lisboa, já tinha decidido juntar-me ao grupo da secção portuguesa da amnistia internacional, que anunciara uma simbólica manifestação de protesto contra o incumprimento dos direitos humanos na china.
no regresso,vi num telejornal que os manifestantes tinham sido deslocados pela polícia do jardim fronteiro ao palácio presidencial para junto da torre de belém – onde não poderiam ser vistos por qualquer elemento da comitiva chinesa. nem mesmo com um poderoso binóculo made in china…
neste país já nada me espanta. mas, porque tenho memória, ainda me envergonho.
quem terá sido a luminária que ordenou à polícia de segurança pública, ou lá qual fosse, que tirasse de qualquer ângulo de visão dos visitantes alguns daqueles que, ao longo de décadas, denunciaram as perseguições por delitos de opinião levados ao cabo pelo antigo regime?
antes da revolução que nos devolveu a democracia, era a amnistia internacional, através das suas secções em outros países democráticos, que lutava contra a prisão e a tortura de alguns dos ‘patriarcas’ dos yuppies aos quais a nossa miopia entregou o poder.
há pouco mais de dez anos a nossa diplomacia multiplicava–se em reuniões discretas nos longos corredores das nações unidas para convencer os estados unidos e a austrália a usarem a sua influência junto do gigante indonésio, transmitindo o nosso descontentamento pelo que passava em timor-leste. nesssa altura, o povo e o poder apoiavam de todas as formas esse esforço diplomático.
com a luta do povo maubere – e a solidariedade de países democráticos, alguns dos quais só tinham em comum a exigência do cumprimento dos direitos humanos –, timor lorosae é hoje o mais jovem país do mundo.
ora, não é só porque um punhado de incompetentes e/ou corruptos puseram portugal à beira da bancarrota que os portugueses se vão calar quando a opressão muda de língua. pelo menos, os que não comeram do mesmo tacho…
dizia no princípio desta semana um jornal publicado em pequim, em língua inglesa – e portanto tolerado pelo regime vigente –, que o volume de negócios acordado pelo governo chinês com o governo português ascendia a 712 milhões de euros.
são os 30 dinheiros do século xxi.
a nossa polícia impedirá assim seja quem for de incomodar os representantes da maior economia do mundo.
o dinheiro não tem pátria – dizem os entendidos nisto de mercados, dívida soberana, bolsas e coisas quejandas.
mas a coerência tem: a sua pátria é o mundo, e o que é crime de opinião em lisboa não passa a ser crime de homicídio em pequim.
o tibete tem todo o direito a fazer da sua nação um estado, como teve timor-leste.
os portugueses que lutaram e morreram a lutar contra a ditadura terão certamente vergonha do que se passou no último domingo, frente ao palácio de belém.
na vizinha espanha, mais ou menos à mesma hora, grupos de diversas origens contestavam a visita papal, enquanto outros, a grande maioria, o aclamavam.
é isto a democracia.
catalinapestana@netcabo.pt
